Entrevista

'Fé em uma frente ampla', afirma Ricardo Capelli, sobre eleições no DF

Ao CB.Poder, o presidente da ABDI e pré-candidato ao GDF pelo PSB, Ricardo Capelli, avaliou sua gestão na autarquia federal, comentou estratégias para as eleições deste ano e opinou sobre desdobramentos do caso BRB-Master

Por Manuela Sá*

Ricardo Capelli, que deixa o cargo de presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) na próxima semana para concorrer ao Palácio do Buriti como pré-candidato do PSB, participou,  do programa CB.Poder — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. Aos jornalistas Ana Maria Campos e Carlos Alexandre de Souza, Capelli falou sobre as estratégias para as eleições deste ano, a crise do Banco de Brasília (BRB) e fez um balanço de sua gestão na ABDI. Confira, a seguir, os principais pontos:

Qual o balanço dos seus dois anos à frente da ABDI?

No governo Temer e no governo Bolsonaro, o Brasil passou sete anos sem ter política industrial. No governo Lula, o Brasil voltou a ter essa política com a Nova Indústria Brasil, liderada pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e vice-presidente, Geraldo Alckmin. Isso trouxe resultados concretos. Se, em 2023, o que puxou a subida do PIB de 3,2 foi o agro, em 2024, o que puxou aquele 3,4 do PIB foi a indústria. Em 2024, a indústria de transformação cresceu no Brasil 3,8, um dos maiores crescimentos dos últimos anos. Isso é fruto de uma política pública liderada pelo Mdic. A ABDI, como agência vinculada ao Mdic, participou desse esforço.

O trabalho do vice-presidente, Geraldo Alckmin, no Mdic foi reconhecido pelo presidente Lula. Acredita que isso fará com que ele se mantenha como vice?

Tenho convicção que sim. Primeiro, que um time que está ganhando não se mexe. Acho que a dupla Lula-Alckmin é uma vitoriosa. Segundo, o vice-presidente é um homem público exemplar, não é um vice decorativo. Ele trabalha todos os dias com determinação e com afinco no MDIC. Ele teve papel central na crise do tarifaço com os Estados Unidos. E por que teve esse papel? Equilíbrio, serenidade, diálogo, que são as marcas dele. E, por fim, ele é um vice absolutamente fiel e leal.

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, foi lançada como pré-candidata ao Senado, em São Paulo, pelo PSB, o seu partido. Como o senhor avalia a montagem dessa estratégia para combater São Paulo, que é o maior colégio eleitoral e que tem um forte candidato ligado ao bolsonarismo, o Tarcísio de Freitas?

Acho muito inteligente o que está sendo feito em São Paulo, porque o desafio do nosso campo político é ampliar. Num cenário de polarização, o que você não pode fazer é apostar em chapas estreitas. E acho que a ministra Simone Tebet, que fez um belíssimo trabalho no Ministério do Planejamento, é um nome que vai além da esquerda, é um nome que vai além do chamado campo progressista. Ela representa o campo democrático. Essa eleição nacional será, novamente, sobre democracia. Não é sobre esquerda ou direita. Flávio Bolsonaro, que vai ser o adversário, não é apenas de extrema direita. Ele, quando era deputado estadual do Rio de Janeiro, tinha no gabinete dele a filha e a mãe do capitão Adriano, que era chefe do escritório do crime do Rio de Janeiro. Para quem não sabe o que é isso, eu trabalhei com segurança pública e posso falar: o capitão Adriano liderava um escritório de matadores de aluguel. Essa pessoa foi condecorada por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. É isso que nós estamos enfrentando: uma ameaça à democracia.

O fato de o governador do Paraná, Ratinho Júniot, ter desistido nessa semana de ser candidato à presidência, deixou o PSD com dois pré-candidatos, que são o governador de Goiás e o do Rio Grande do Sul, com uma tendência maior para o de Goiás, Ronaldo Caiado. Ele também é um governador de direita e foi apoiador do Bolsonaro. Como o senhor avalia essa divisão da direita?

Não vejo espaço para o crescimento de uma candidatura do Caiado. Acho que é mais uma jogada do Kassab de não se atrelar a nenhuma das candidaturas principais para poder liberar o PSD nos estados e, no final, o Kassab vai fazer o seu jogo e escolher o melhor lugar lá na frente, com o resultado já meio pronto. É o Kassab sendo o Kassab.

Não se vê, ainda, uma possibilidade de união do PSB com o PT, porque dois pré-candidatos, você, do PSB, e Leandro Grass, do PT, estão dispostos a ir até o fim...

Eu sou um homem de fé. Então, acredito que o bom senso vai prevalecer e, ao final, a gente vai conseguir construir uma frente ampla que possa ganhar a corrida ao Palácio do Buriti este ano. O nosso desafio aqui é ampliar, é ir para além da esquerda. Então, o que eu tenho dito há um ano e meio é que é um equívoco montar uma chapa de esquerda no DF. Defendo que a gente monte uma chapa mais ampla, dialogando com os setores do centro e até de centro-direita que fazem oposição a Ibaneis e Celina Leão, e que não estão com o bolsonarismo.

O senhor pode adiantar com quem tem conversado?

Tenho conversado com a deputada Paula Belmonte, do PSDB, que também é pré-candidata ao governo do DF; com o ex-senador Reguffe, que lidera o Solidariedade; e com o ex-governador Arruda, também pré-candidato ao governo pelo PSD. Esses três estão no campo de oposição ao governo Ibaneis e Celina, não são de esquerda e não estão na campanha do Bolsonaro. Acho que é necessário que a gente tenha capacidade de dialogar amplamente. Unir o campo, a base do governo Lula, mas ir para além disso.

O senhor teve uma participação importante no 8 de Janeiro e também foi um dos primeiros a denunciar essa possível fraude que ocorreria no BRB ao comprar parte do Banco Master. Como o senhor vai tratar disso na campanha?

Quando vi o governador Ibaneis anunciando que vai renunciar ao cargo, eu, na hora, pensei naquela imagem do final da novela Vale tudo (da TV Globo), em que o homem entra no avião e dá uma banana para o povo. Ele quebrou o BRB e as finanças do Distrito Federal e, no sábado, ele renuncia, entra no avião e vai dar uma banana para o povo. Eu denuncio o que está acontecendo desde março do ano passado. Fui o primeiro a denunciar e o primeiro a ser processado pelo Master. Ganhei do Master em primeira e segunda instância na Justiça do DF. A gente vai ter, na semana que vem, o dia D, que é o dia 31. O último balanço publicado pelo BRB é do segundo trimestre do ano passado. As informações que circulam é que o rombo no BRB pode superar a casa de R$ 10 bilhões, para um patrimônio estimado em R$ 3,5 ou R$ 4 bilhões. Se o BRB apresentar um balanço e o patrimônio líquido estiver negativo, ele está tecnicamente quebrado. O BRB pagou R$ 12 bilhões por papéis fraudados. A pergunta que eu faço: cadê esses R$ 12 bilhões? Eu defendo que a gente vá atrás desses R$ 12 bilhões. A Justiça tem que penhorar os bens e o patrimônio do Vorcaro e de todos os envolvidos nessa fraude contra o patrimônio do povo do DF.

Que solução salvaria o banco?

Primeiro, defendo a manutenção do BRB. Segundo, tem que ser feita uma reestruturação séria no banco. Ele foi criado para ser um banco de desenvolvimento do DF. O que o BRB está fazendo com a agência na Paraíba, em São Paulo? Por que o BRB foi se meter com o direito creditício de servidores do Tocantins? O BRB cobra para capital de giro, para o pequeno e médio empreendedor do DF, 55% de juros ao ano. Ele está cometendo uma ilegalidade contra os servidores do DF. A pessoa recebe o salário, o BRB confisca 100%. Então, é preciso recuperar o patrimônio. Ele vai encolher de tamanho? Muito provavelmente. Mas ele vai ter que ficar focado na missão para a qual foi criado. Ele não foi criado para patrocinar a Fórmula 1 no Bahrein, para patrocinar campeonato de vela em Dubai, como ele está fazendo.

*Estagiária sob supervisão de Patrick Selvatti

 


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