ELEIÇÕES 2026

Eleitores do Entorno atravessam a divisa entre Goiás e o DF para votar

Mais de 246 mil pessoas cruzam diariamente o Entorno rumo ao DF, e parte delas também levarão o título de eleitor em outubro, alterando a dinâmica política e a representatividade na capital

Há 10 anos, Jonas cruza a fronteira entre GO e DF  -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Há 10 anos, Jonas cruza a fronteira entre GO e DF - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Manuela Sá*

Diariamente, mais de 240 mil pessoas se deslocam do Entorno para o Distrito Federal, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) de 2024. Mais do que uma dinâmica geográfica, esse fluxo revela um movimento simbólico de pertencimento: ao trabalhar, estudar e acessar serviços públicos na capital, muitos desses cidadãos passam a reconhecer o DF como sua referência cotidiana, deslocando, na prática, sua identificação com o território de origem.

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Esse processo acaba se refletindo no exercício da cidadania. Ao estabelecer vínculos com a capital, parte dessa população opta por transferir o título de eleitor, levando para o DF não apenas sua rotina, mas sua participação política. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), nos últimos 20 anos, a capital recebeu mais de 550 mil eleitores aptos. (Veja gráficos)

grafico pessoas voto
grafico pessoas voto (foto: editoria de arte)

Na prática, essa rotina ganha rosto nas histórias de quem cruza a divisa todos os dias. É o caso de Francisco Lima, 59. Há um ano morando em Valparaíso (GO), ele mantém o título de eleitor em Santa Maria e não pretende mudar isso tão cedo. A decisão passa menos pelo endereço e mais pelo projeto de vida. Lima se prepara para um concurso na área do Judiciário e, caso seja aprovado, deve atuar no DF — o que reforça o vínculo com a capital. Ele diz que se sente mais impactado pelas políticas públicas daqui. "Trabalhei na política há muitos anos. Saí candidato duas vezes, e acho que aqui tem muito o que fazer. Não que em Goiás não tenha. Muito pelo contrário. Mas eles já têm os representantes que as pessoas mais confiam. No DF, infelizmente, a situação precisa mudar", afirma.

Se, para alguns, o vínculo é projetado no futuro, para outros ele é construído no dia a dia, no ritmo do trabalho. Aos 26 anos, Jonas Vinícius atravessa a divisa entre Goiás e o DF há uma década. Morador de Luziânia, ele trabalha como garçom no Lago Norte e decidiu transferir o título de eleitor para Brasília. "Moro lá por causa do custo de vida, especialmente o valor da moradia, mas é no DF que me sinto representado politicamente", explica.

  • Francisco não pretende mudar o endereço eleitoral
    Francisco não pretende mudar o endereço eleitoral Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Rafaela decidiu manter o título na capital
    Rafaela decidiu manter o título na capital Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Há 10 anos, Jonas cruza a fronteira entre GO e DF
    Há 10 anos, Jonas cruza a fronteira entre GO e DF Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Ediniuza resolve as demandas em Brasília
    Ediniuza resolve as demandas em Brasília Minervino Júnior/CB/D.A.Press

A mesma lógica se repete entre quem ainda não formalizou a mudança, mas já se reconhece mais na capital do que na cidade onde vive. Moradora de Valparaíso, Ediniuza Francisca da Silva, 52, trabalha há quase 30 anos no DF como auxiliar de serviços gerais. A rotina, marcada por deslocamentos constantes, aproxima sua vida da capital — inclusive nas demandas por infraestrutura e mobilidade. Apesar disso, a transferência do título ainda não saiu do papel. "Preciso me organizar, mas minha vontade é realmente essa", diz.

Em outros casos, a escolha pelo voto no DF está diretamente ligada ao uso cotidiano dos serviços públicos. É o que explica Rafaela da Costa, 41. Moradora de Águas Lindas (GO), ela trabalha como assistente social em Brasília e decidiu manter o título na capital justamente por viver ali grande parte do dia. "Me sinto mais representada aqui, porque pego o trânsito todos os dias. Com frequência, preciso tomar uma vacina em Brasília. Recentemente, liberaram a da gripe, por exemplo, que utilizo. Às vezes, também vou às unidades básicas de Saúde", relata.

Fluxo diário

Esse conjunto de trajetórias individuais reflete um movimento mais amplo. O diretor da Diretoria de Estudos e Políticas Ambientais e Territoriais do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), Werner Bessa Vieira, explica que, segundo o PDAD-A de 2024, o fluxo diário entre o Entorno e o Distrito Federal é expressivo. "Aproximadamente 201.765 pessoas se deslocam diariamente para o DF por motivo de trabalho, o que representa 40,6% da população ocupada da Periferia Metropolitana de Brasília. Para estudo, são cerca de 44 mil pessoas, ou 12,5% dos estudantes", detalha. Somados, os dois grupos chegam a cerca de 246 mil deslocamentos diários. Entre as cidades com maior participação nesses fluxos estão Águas Lindas de Goiás, Valparaíso de Goiás, Novo Gama, Luziânia e Planaltina (GO). 

Do ponto de vista socioeconômico, Vieira destaca que esse movimento revela uma relação de dependência e complementaridade entre o Entorno e o DF. "Há uma dependência significativa do transporte público para o deslocamento ao trabalho no DF, enquanto, para atividades dentro do próprio município, há maior uso de transporte privado e mobilidade ativa", explica.

De acordo com o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, Jackson De Toni, as fronteiras geográficas entre o Entorno e o Distrito Federal tornam mais complexa o que ele define como "geografia do voto", uma vez que grande parte da população do Entorno trabalha, estuda e utiliza serviços públicos no DF. A manutenção do título de eleitor na capital torna-se uma prática recorrente. 

"Dados históricos da Justiça Eleitoral já demonstraram que cerca de 10% do eleitorado da capital — algo em torno de 100 mil pessoas, em levantamentos anteriores — vive nos 13 municípios goianos mais próximos. Em localidades como Luziânia, estimativas de autoridades eleitorais já apontaram que até 30% dos eleitores locais não haviam transferido seus títulos para a cidade, preferindo votar no DF", destaca.

O especialista também cita levantamentos que indicam a intensidade desse movimento ao longo dos anos. "Entre 2006 e 2010, mais de 32 mil pessoas de 21 cidades do Entorno transferiram seu domicílio eleitoral de volta para o DF. O impacto disso é significativo quando lembramos que, em uma daquelas eleições, a diferença que impediu a vitória de um governador já no primeiro turno foi de apenas 22 mil votos", relembra.

De Toni avalia que a migração e a sobreposição eleitoral geram efeitos políticos relevantes. "Os moradores do Entorno acabam abrindo mão de influenciar diretamente a escolha de prefeitos e deputados estaduais goianos, que têm poder sobre a infraestrutura e a segurança dos locais onde vivem. Ao mesmo tempo, o volume de eleitores dessa região é tão expressivo que nenhum candidato competitivo ao governo do DF ou à Câmara Legislativa pode se dar ao luxo de ignorá-los", afirma. 

Migração eleitoral

Ao analisar a evolução do eleitorado do Distrito Federal nas últimas décadas, o pesquisador do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB), Robson Carvalho, destaca o crescimento expressivo como um indicativo de migração eleitoral. "Se você considerar os últimos 10 anos, como mostram esses dados, nós temos praticamente o equivalente a uma capital como Natal migrando para o DF", afirma. 

Segundo ele, embora não haja informações detalhadas sobre a origem desses eleitores ou comparações com outras capitais, os números revelam um fluxo intenso de pessoas se direcionando à capital federal. "Talvez por questão de mais estrutura, de mais oportunidades de trabalho, questão de transportes urbanos também, e com menos, teoricamente, problemas no próprio entorno, o que seria a região metropolitana, ele como sendo a cabeça dessa região", explica.

O pesquisador destaca que, em geral, eleitores tendem a fazer escolhas mais informadas quando votam no local onde vivem. "O natural é que as pessoas que residem no lugar que já conhecem aquele lugar, os seus problemas, que conheçam teoricamente os possíveis representantes, façam melhores escolhas para os seus representantes", afirmou. 

Carvalho chama atenção para possíveis efeitos na distribuição de cadeiras legislativas, que segue critérios populacionais definidos a partir de dados do IBGE. "A representação é proporcional à população, e há uma discussão em andamento sobre a redistribuição dessas cadeiras. O Distrito Federal não perde o mínimo de representantes, mas pode ganhar mais, dependendo da variação populacional em relação aos outros estados", explica. 

O pesquisador avalia que o fenômeno influencia campanhas eleitorais e levanta preocupações sobre mudanças oportunistas de domicílio eleitoral, especialmente entre políticos. "Isso impacta o discurso dos candidatos, que passam a abordar temas como mobilidade, transporte e acesso a serviços. Mas há um problema mais grave quando políticos mudam de domicílio sem qualquer vínculo com a região, apenas por conveniência eleitoral", critica. Para ele, esse tipo de prática compromete a legitimidade da representação e pode afetar diretamente a qualidade das decisões políticas.

*Estagiária sob a supervisão de Márcia Machado

 


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postado em 06/04/2026 07:10
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