
O Correio acompanha os bastidores da preparação do elenco da Via-Sacra de Planaltina, que transforma uma escola da região em um centro de mobilização. Entre pincéis que desenham as marcas da Paixão e o ajuste final das túnicas, o ator Rafael Gonçalves, 29 anos, prepara-se para interpretar Jesus Cristo pelo terceiro ano consecutivo. O processo de caracterização é intenso: três maquiadores se revezam para reproduzir as feridas do calvário no corpo do protagonista.
A rotina para a apresentação desta sexta-feira exigiu dedicação total. Desde o fim do carnaval, o grupo mantém ensaios diários de três horas, mas a carga aumentou na reta final — na véspera do evento, o trabalho avançou até as 3h da manhã. "Hoje, chegamos aqui por volta das 10h. Estamos correndo contra o tempo para finalizar a maquiagem e seguir para a concentração no Morro da Capelinha", explica Rafael.
Para ele, a preparação técnica é apenas uma parte do desafio. "A expectativa é positiva. Ensaiamos muito e agora é o momento de colocar em prática o que preparamos." Para o ator, o papel carrega uma dimensão espiritual que impacta o público. "As pessoas veem além do trabalho, veem realmente a presença de Deus. É uma responsabilidade grande. Temos que tentar ser Jesus também no dia a dia, por meio das nossas ações e da caridade", reflete. Rafael afirma que o cansaço é superado pela recepção popular: "É emocionante chegar ao Morro e ver aquela multidão. A fé do público nos ensina e dá a energia necessária para cumprir essa missão".
Júnior Ribeiro, 32, assume dupla jornada de coordenador de encenação e intérprete de Judas Iscariotes. Com 17 anos de dedicação ao grupo, ele gerencia a logística de conduzir 1.100 atores ao longo de um percurso de mais de um quilômetro, um desafio que exige ensaios setorizados durante 40 dias antes do ensaio geral no morro. Para Júnior, o esforço técnico se justifica no impacto espiritual causado na multidão.
"O retorno do público é o maior presente. Quando percebemos que as pessoas estão desde a madrugada subindo o morro e pagando promessas, nos sentimos prontos. Queremos que elas se sintam tocadas pela história da salvação; se conseguimos transmitir essa mensagem por meio da arte, ali está nossa maior realização", afirma o coordenador, que projeta um público de até 200 mil pessoas para a tarde de hoje.
Celebração
O Morro da Capelinha volta a ser o epicentro da devoção no Distrito Federal nesta Sexta-Feira Santa (3/4), com a expectativa de reunir uma multidão que pode superar os recordes anteriores. Após atrair 100 mil pessoas em 2024 e alcançar a marca de 150 mil fiéis em 2025, o espetáculo de 2026 encerra a programação religiosa com fôlego renovado. Mantendo uma tradição que resiste desde 1973, a encenação da Paixão de Cristo em Planaltina mobiliza o Grupo Via Sacra ao Vivo, que conta com uma equipe de 1.400 colaboradores — sendo 1.100 atores dedicados a dar vida aos personagens bíblicos.
O ápice das celebrações começa oficialmente às 15h, com a Celebração da Santa Cruz presidida pelo cardeal arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, seguida pelo início do espetáculo que, ao longo de quatro horas, reproduz os momentos cruciais da narrativa cristã, como o julgamento, a prisão, a crucificação, a morte e a ressurreição de Jesus.
Nesta edição, a jornada de 800 metros pelas 14 estações é guiada pelo tema "Nada te aflija! Não estou aqui eu que sou tua mãe?", inspirado em Nossa Senhora de Guadalupe, reforçando mensagens de acolhimento e esperança. O evento de hoje encerra um calendário iniciado ainda em março, consolidando o espetáculo como um dos maiores patrimônios culturais e religiosos do Brasil.

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