
No concreto, no traço e na pausa. É assim que Pedro Sangeon inscreve sua marca em Brasília. Em meio aos eixos, superquadras e silêncios arquitetônicos, uma figura de olhos serenos e expressão contemplativa passou a habitar muros, postes e imaginários, o Gurulino. Mais do que um personagem, ele se tornou linguagem e, para muitos, espelho.
A origem desse universo é íntima. Em 2009, enquanto vivia na Europa, Sangeon mergulhou na meditação como prática pessoal. Entre a produção artística e a busca por equilíbrio, nasceram Guru e Lino. Com o tempo, fundiram-se em um só corpo simbólico. Surgia ali o embrião do Gurulino, ainda restrito às páginas de um caderno, quase como um diálogo silencioso consigo.
Foi em 2013, de volta ao Brasil, o personagem atravessou o limite do privado. Incentivado por uma amiga, o artista levou o Gurulino para as ruas. Brasília, com sua monumentalidade e seus vazios, tornou-se suporte e interlocutora. A intervenção urbana não era novidade para Sangeon, mas, naquele momento, ganhava outro sentido, o de devolver à população uma imagem com a qual ela pudesse se reconhecer.
E reconheceu. Aos poucos, o Gurulino deixou de ser apenas criação autoral para virar presença cotidiana. Espalhado pelos muros, passou a incorporar traços do próprio brasiliense, introspectivo, crítico, atento ao entorno e, ao mesmo tempo, em constante construção.
"Houve um momento em que as pessoas começaram a utilizar os personagens para falar e representar a si mesmos como brasilienses. Acho que esse foi um divisor de águas realmente", conta o ilustrador.
A fala marca um ponto crucial, quando a arte deixa de pertencer, exclusivamente, ao artista e passa a circular como linguagem coletiva. Em Brasília, onde a identidade cultural ainda está em formação, o Gurulino atua como mediador entre indivíduo e cidade.
Mas essa ocupação não é neutra. Para Sangeon, a arte urbana carrega, inevitavelmente, uma dimensão política e, por isso mesmo, enfrenta resistências institucionais. "A arte urbana tem na sua natureza um ato político de contracultura e ocupação do espaço público pelo artista, mas em nome da população. O poder público não sabe lidar com a autonomia e desejo da população. Nesse sentido, a arte é solução para a população e ainda uma interrogação para o poder público."
A crítica dialoga diretamente com a própria concepção de Brasília, uma cidade planejada, muitas vezes rígida, onde a espontaneidade encontra limites. Ainda assim, é justamente nesse cenário que o artista encontra potência. "Acho a repetição uma das características mais interessantes da cidade e me aproprio especialmente dela. O que queremos é repetir algo novo em vez de reproduzir o óbvio de um passado que já não atende a Brasília atual", ressalta.
A repetição dos blocos, das linhas e das perspectivas se transforma, então, em linguagem visual. O Gurulino se multiplica, mas nunca se esgota. Cada aparição carrega nuances, como se a cidade fosse um grande caderno aberto. "Brasília é a minha casa, como CEP e como território artístico."
Mais do que cenário, a capital é matéria-prima. É dela que vêm as contradições que alimentam o trabalho de Sangeon. "Eu me sinto fruto de Brasília, das contradições da sua construção nesse território lindo que é o Cerrado. Eu tento, por meio do meu trabalho, marcar a trajetória da cidade", afirma.
O futuro, para o artista, também passa por esse desejo de reconhecimento coletivo. "Espero uma capital que tenha orgulho da sua personalidade acolhedora e democrática", reflete. E, para as próximas gerações, a mensagem é direta, quase um manifesto. "Pense menos e faça mais. Errando a gente acerta mais."
Sem um ponto de virada definido, a trajetória dele se constrói na persistência. "Houve uma continuidade do trabalho, uma constância de criação da minha parte que resultou em uma presença abraçada pelo brasiliense. Os murais nas ruas e os quadrinhos periódicos no jornal entraram para o cotidiano da cidade", enfatiza.
Talvez seja justamente essa continuidade que permite ao Gurulino existir como extensão da cidade, não como intervenção passageira, mas como elemento orgânico do cotidiano. "Nascer e crescer em Brasília, em especial no Plano Piloto, faz do artista uma pessoa com um olhar muito particular. Tento tirar proveito dessas características únicas e ajudar a construir nossa identidade cultural."
No mês do aniversário de Brasília, enquanto a cidade revisita sua própria história, o Gurulino permanece como um reflexo dos brasilienses nos muros. O personagem lembra que a identidade de uma capital não se constrói apenas no concreto, mas também nos traços que insistem em humanizá-la.

Cidades DF
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