
A compra de R$ 21,9 bilhões em ativos do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) gerou um prejuízo de R$ 2,6 bilhões e a provisão é que pode chegar a R$ 8,8 bilhões. O prejuízo contabilizado refere-se a títulos adquiridos da empresa Tirreno. “Não têm lastro. São pó. Não existe título, carteira ou cédula bancária” afirmou o presidente do BRB, Nelson de Souza.
A diferença entre o prejuízo já constatado e a provisão de R$ 8,8 bilhões corresponde a títulos que o BRB identificou como frágeis. “No caso dessa diferença de R$ 6,2 bilhões, avaliamos que são títulos que sugerem alguma fraude, podem estar supervalorizados ou são muito frágeis”, esclareceu Souza.
O BRB realiza, nesta quarta-feira (22/4) uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) com os acionistas para discutir o plano de capitalização do banco, considerado essencial para a recuperação da instituição.
Na terça-feira (21/4), o BRB divulgou uma nota detalhando a negociação com a Quadra Capital, comunicada ao mercado na segunda-feira, para estruturação de fundo de investimento com ativos recebidos em operações com o Banco Master. Segundo o comunicado, do total de R$ 21,9 bilhões em ativos oriundos do Master, R$ 1,9 bilhão está sendo absorvido pelo mercado financeiro, referente a carteiras de atacado, varejo, fundos e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs).
De acordo com a instituição, os R$ 20 bilhões restantes estão em processo de negociação com a Quadra Capital. O montante corresponde ao chamado “valor de face” dos ativos. Considerando o deságio aplicado na operação, o valor efetivamente negociado com a Quadra é de R$ 15 bilhões. Desse total, R$ 4 bilhões serão pagos à vista, enquanto o restante será quitado ao longo do contrato.
O banco destacou que a entrada imediata desses R$ 4 bilhões “deve reforçar a liquidez da instituição, além de fortalecer sua estrutura de capital e contribuir para uma gestão mais eficiente dos ativos”. Adicionalmente, o BRB negocia um empréstimo de R$ 6,6 bilhões com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Assembleia
Ao todo, o banco tem 6.004 acionistas. Além da capitalização, serão homologados na assembleia desta quarta-feira os novos nomes para o Conselho de Administração da instituição. A assembleia acontece às 10h, em formato virtual.Entre as pautas a serem discutidas na AGE de hoje está a deliberação sobre a proposta de aumento do capital social.
O preço de emissão das novas ações deve ser fixado em R$ 5,36.
O aumento de capital será realizado por meio de subscrição privada de ações. Na ocasião, também será discutida alteração no Estatuto Social do BRB. A proposta é que o limite de ações que o banco está autorizado a emitir cresça de 720 milhões para 2,5 bilhões. O aumento dará ao banco uma margem maior para captar recursos no mercado.
A assembleia vai deliberar, ainda, sobre a homologação dos nomes do presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, e de Joaquim Lima de Oliveira e de Sérgio Iunes Brito para o Conselho de Administração. Assim que assumiu a presidência, Nelson foi nomeado para o conselho até a aprovação pela AGE. Além disso, em virtude de cargos vagos, a assembleia precisa aprovar os nomes de Joaquim e Sérgio.
Em 30 de abril, os acionistas voltam a se reunir em assembleia geral para analisar o desempenho financeiro de 2025 e deliberar sobre pautas administrativas estratégicas. Apesar disso, a expectativa no mercado é de que não haja uma decisão definitiva sobre as contas nesse primeiro encontro. A tendência é que a análise mais aprofundada dos números seja postergada para uma reunião extraordinária, ainda sem data definida no cronograma oficial.
Para o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo, o contexto exige cautela e reforça a sensibilidade do momento vivido pela instituição. “Não é algo comum e isso é muito ruim, porque representa uma quebra de confiança e indica alguma dificuldade”, afirma. Segundo ele, em situações como essa, decisões tendem a ser mais cuidadosas e, muitas vezes, diluídas ao longo de novas etapas deliberativas.
Responsabilidade
A governadora Celina Leão (PP) afirmou, por meio de nota, que segue atuando para garantir a estabilidade do banco público local. “A operação com a gestora Quadra Capital, comunicada recentemente ao mercado, representa mais um passo importante dentro de um conjunto de medidas estruturadas para fortalecer a instituição e preservar seu papel estratégico no desenvolvimento do Distrito Federal”, disse o texto.
Segundo a nota, há expectativa positiva em relação às medidas adotadas, embora ainda existam etapas a serem concluídas. “O momento exige responsabilidade e é exatamente isso que está sendo entregue, com trabalho contínuo, diálogo institucional e foco em resultados que assegurem um BRB cada vez mais sólido, eficiente e preparado para o futuro”, destacou.
Quanto à assembleia, a nota enfatizou que a condução diz respeito ao banco. “Trata-se de um tema próprio da governança do BRB, que será conduzido pelo presidente Nelson Antônio de Souza, no âmbito de suas atribuições”, ressaltou o comunicado.
Momento decisivo
O economista e professor de economia do Ibmec Brasília Renan Silva avalia que a AGE do BRB marca um momento decisivo para o futuro da instituição. “É um divisor de águas entre a estagnação e a viabilidade operacional do banco no longo prazo. Acredito que o plano de capitalização não deve ser visto apenas como uma formalidade burocrática, mas sim como uma peça central para o reequilíbrio para o índice de Basileia”, afirmou. “Sem esse fortalecimento do capital próprio, a instituição continuará perigosamente próxima dos limites regulatórios”, completou.
Segundo o especialista, a medida tem impacto direto na percepção do mercado sobre a governança do banco. “Ao aprovar esse aporte, o banco comunica ao mercado uma disposição real de sanear o balanço e recuperar a confiança do investidor”, explicou.
Para ele, a importância da assembleia está no fornecimento de informações aos clientes do banco. “O desfecho desta AGE ditará o ritmo da recuperação do BRB, permitindo que ele deixe de focar apenas na sobrevivência regulatória para voltar a focar na rentabilidade e no crescimento estratégico”, destacou.
Renan Silva enfatizou a importância da pauta de governança a ser discutida na assembleia.
“A homologação de novos nomes para o Conselho de Administração busca dar mais estabilidade à estrutura decisória do banco e é justamente essa estabilidade que confere credibilidade ao processo de recuperação. Sem uma governança sólida, qualquer reforço de caixa tem efeito limitado. Os dois temas, juntos, compõem o que o BRB mais precisa agora: uma base para reconstruir a confiança do mercado”, ressaltou.
Adiamentos
A AGE estava marcada para 18 de março, mas foi cancelada um dia antes, em virtude da insegurança jurídica causada pela suspensão da Lei Distrital nº 7.845/2026, que autoriza o uso de bens públicos e ativos de empresas estatais para reforçar a capitalização do BRB, via liminar da 2ª Vara de Fazenda Pública do Distrito Federal.
A liminar foi derrubada logo depois, mas mesmo assim o banco optou pelo cancelamento “de forma a permitir o amadurecimento das análises em curso e assegurar que eventual proposta a ser submetida aos acionistas reflita, de maneira consistente, a melhor estrutura econômica, financeira e jurídica para a companhia”.
Além do adiamento da assembleia, a divulgação do último balanço do banco, prevista para 31 de março, foi adiada e deve ser feita até a segunda semana de maio. No documento, serão apresentados números detalhados dos lucros, prejuízos, dívidas, ativos, riscos e a real capacidade do banco de sustentar suas operações ao longo do tempo.
Saiba Mais
Ana Carolina Alves
RepórterFormada em Jornalismo pela Universidade de Brasília, com interesse na cobertura de pautas de direitos humanos, justiça e questões sociais

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF