Apesar dos poucos dias de vida, a pequena Ester Xavier Leite já enfrentou uma difícil batalha. E venceu. A família pôde, finalmente, levar a criança para casa em 26 de março, após semanas de incertezas, medo e, também, esperança. O período delicado foi marcado por um diagnóstico grave e uma cirurgia cardíaca inédita à beira-leito.
Nascida em 29 de janeiro deste ano, no Hospital e Maternidade Brasiliense, da Hapvida, a pequena chegou ao mundo após uma gestação tranquila e um parto bem-sucedido. Tudo parecia dentro do esperado até que, ainda na primeira semana de vida, a mãe, a dona de casa Bárbara Xavier, 31 anos, percebeu que a bebê respirava com dificuldade e ficou em alerta.
A princípio, Ester havia retornado à unidade de saúde por conta de icterícia e precisou passar por fototerapia. Após avaliação médica, foi identificado um problema congênito no coração. "Foi um baque. A gente não esperava. No dia seguinte, quando ela foi intubada, entendemos a gravidade da situação", relembra Bárbara.
Após avaliação mais detalhada, os médicos identificaram uma persistência do canal arterial (PCA), condição em que uma estrutura essencial durante a vida intrauterina não se fecha após o nascimento, comprometendo a circulação sanguínea e sobrecarregando o coração.
"Quando o bebê nasce e dá o primeiro respiro, a circulação começa a se reorganizar. Esse canal arterial deveria se fechar naturalmente. No caso da Ester, simplesmente não fechou", explica a médica Roberta Lengruber, coordenadora da UTI pediátrica e neonatal da unidade. Ela ressalta que o canal, muitas vezes, pode levar até semanas para ficar anatomicamente fechado por completo, mas que deveria funcionar como fechado nos primeiros dias.
Sob a coordenação de Lengruber, a equipe optou por realizar uma cirurgia cardíaca à beira-leito, diretamente na UTI neonatal. O procedimento, minimamente invasivo e guiado por ultrassom, consistiu no fechamento do canal arterial por meio de um pequeno acesso lateral, sem necessidade de abrir o tórax.
Delicado
O procedimento, realizado em 18 de fevereiro, foi o primeiro do tipo feito no hospital. A especialista explica que a escolha pela intervenção foi essencial para salvar a vida da recém-nascida. "Ela não tinha condições de ser transportada. Qualquer deslocamento poderia colocar tudo a perder. Então, buscamos alternativas e conseguimos trazer uma equipe especializada para realizar o procedimento aqui mesmo", conta Lengruber.
Profissionais de diversas áreas, entre cirurgião cardíaco, anestesista, cardiologista pediátrica, intensivistas, enfermeiros e fisioterapeutas foram mobilizados para a cirurgia. "É um trabalho extremamente delicado. Estamos falando de um bebê muito pequeno, com estruturas muito sensíveis. É quase como um trabalho artesanal. E, mesmo sendo menos invasivo, ainda envolve riscos importantes", detalha a médica.
O resultado foi imediato: 24 horas após o procedimento, exames já indicavam melhora significativa na circulação e na função cardíaca. "Desde o começo, a equipe foi muito transparente com a gente. Explicaram tudo, nunca esconderam nada. Isso fez toda a diferença", relatou a mãe. Embora o resultado tenha sido imediato, a recuperação exigiu tempo e paciência.
Foram 52 dias de internação. Durante esse período, Bárbara praticamente não deixou o hospital. "Eu fiquei aqui o tempo todo. Fui em casa só quatro vezes. É muito difícil, principalmente porque tenho outros dois filhos, que também precisam da gente. Mas, nessa fase, a prioridade era ela", contou.
Alívio
Em 26 de março, Ester deixou o hospital nos braços dos pais, que relembram o processo doloroso e ressaltam o sentimento de alegria. "É indescritível. Quando eu olho as fotos do começo e vejo ela agora, parece um milagre. A gente sabia que esse dia ia chegar, mas parecia tão distante. E agora chegou", disse Bárbara, com os olhos cheios d'água. Mãe também de Lívia Xavier, 7, e Israel Xavier, 2, ela conta que os filhos ficaram ansiosos para conhecer a irmã.
Samuel Souza Leite, policial militar, 33, pai de Ester, também acompanhou de perto cada etapa. Para ele, o sentimento agora é de gratidão. "A gente viveu um dia de cada vez. Era o nosso lema. A cada pequena melhora, a gente já comemorava. Foi um processo muito duro. A gente não deixou ela sozinha em nenhum momento. É nossa terceira filha, mas o amor só aumenta. Poderia ser o décimo filho que seria o mesmo cuidado", diz.
A fé também foi um dos principais pilares da família durante toda a internação. Católicos praticantes, eles encontraram força na espiritualidade para enfrentar os momentos mais difíceis. "Entregamos tudo nas mãos de Deus. Pedimos intercessão, rezamos muito. Isso nos deu força para continuar", completa o pai.
Após a cirurgia, a pequena passou por um processo cuidadoso de recuperação, que envolveu ganho de peso, fortalecimento e estabilização de todos os parâmetros clínicos. "No início, ficamos muito preocupados, porque ela realmente estava em estado grave. Mas, depois do procedimento, fomos vendo a evolução aos poucos. É uma conquista muito grande", afirma Lengruber.
Além de marcar a vida da família, o caso também representa um avanço importante na assistência neonatal de alta complexidade. A realização de uma cirurgia cardíaca à beira-leito em um recém-nascido abre caminhos para que outros bebês em condições semelhantes possam ser tratados com mais segurança, sem a necessidade de deslocamentos arriscados.
O caso também chama a atenção para a importância do diagnóstico precoce. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 10 a cada mil crianças nascem com algum tipo de cardiopatia congênita no Brasil, aproximadamente 30 mil por ano, e, em média, 40% deles precisam passar por cirurgia ainda no primeiro ano de vida.
