Ciência

Projetos da UnB buscam aumentar o número de mulheres nas ciências exatas

Com baixa representatividade feminina em áreas do conhecimento, a Universidade de Brasília (UnB) traz iniciativas que buscam incentivar o ingresso de mais meninas em ciências, tecnologia, engenharia e matemática

Áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática apresentam pouca presença feminina. Isso inclui o ambiente acadêmico, onde as mulheres são a minoria entre os estudantes. Nesse contexto, a Universidade de Brasília (UnB) traz iniciativas estratégicas para romper a disparidade de gênero nas ciências exatas com os projetos de extensão voltados à engenharia que fomentam as jovens a participarem de um ambiente  historicamente dominado por homens.

A professora e cofundadora do projeto Meninas.comp, Maristela Holanda, 51 anos, afirma que a área de computação tem cerca de 10% de estudantes femininas. Na sala em que ela leciona são 40 alunos e apenas quatro são mulheres. "A gente criou uma rede de apoio acadêmico para essas jovens, ou seja, tentamos ajudá-las a se manterem no curso, porque quando você é minoria é muito difícil se sentir pertencente àquele espaço", declara. "Por isso, a gente trabalha demais com as meninas sobre o censo de pertencimento, pois aqui na universidade, o espaço é delas também."

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O Meninas.comp, criado em 2010, faz parte do Departamento de Ciências da Computação, que tem por objetivo divulgar as possibilidades de trabalho neste campo por meio de oficinas interativas e técnicas. A iniciativa apresenta frentes de grupos de estudos diferentes, que desenvolvem segurança cibernética, robótica, jogos digitais e Inteligência Artificial (IA). O projeto também atua em escolas das Regiões Administrativas (RAs) do DF para incentivar as alunas do ensino médio a ingressarem nas áreas de ciências exatas. "Nossas discentes da UnB conquistaram um título de melhor time de programação da América Latina em um evento que ocorreu no Chile e, também, a gente treina com as meninas nas escolas para que elas consigam participar das Olimpíadas Brasileiras de Informática", conta a professora.

Luiz Francisco/CB/DA Press -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
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Futuras cientistas

A coordenadora explica que as estudantes são as responsáveis por tornar o "assunto em realidade". As alunas Michele Aiko, 19, e Gisele Cristine, 20, são estudantes de Ciência da Computação na UnB e participam do projeto, onde realizam oficinas voltadas à atuação profissional na área de programação para meninas que, mesmo sem conhecimento técnico, têm a oportunidade de experimentar as atividades.

"Assim que vi esse projeto de incentivar a participação feminina na área, eu achei muito importante porque eu também gostaria de ter tido isso no meu ensino médio, e é um trabalho que eu me vejo fazendo isso", declara Michele Aiko. "Eu também me vejo incentivando mais meninas a entrarem na área da tecnologia e da segurança cibernética, porque eu sei que é um campo onde tem poucas mulheres e que elas não podem ficar sozinhas", completa Gisele Cristine.

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Na Faculdade de Tecnologia da UnB, o projeto Meninas Velozes, criado em 2013, incentiva as garotas a permanecerem e participarem da área de ciências por meio de projetos práticos, palestras e oficinas que envolvem a engenharia de um veículo. A estudante Iara Severino, 19, é uma das participantes do projeto de extensão e avalia que a ação trabalha com alunas do ensino fundamental e médio que desejam atuar no campo.

O projeto Muves atua para expandir o programa Meninas para fora da UnB e fortalecer a equidade de gênero.  "Esse projeto é um Meninas Velozes em outros lugares para nós espalharmos o conhecimento em todo Brasil", explica Iara. "Aqui na UnB, vemos que a nossa iniciativa é positiva comparada a outras instituições e, por isso, queremos aplicar em outros locais, a fim de incentivar outras garotas a permanecerem na graduação."

O programa Meninas Velozes traz atividades para alunas dos ensinos médio e fundamental. As oficinas ocorrem uma vez por mês, que convidam as garotas que se interessam pela área da tecnologia a participarem de atividades práticas voltadas à engenharia mecânica. Emanuely Batista, 17, é estudante do terceiro ano do Centro de Ensino Médio (CEM 310), de Santa Maria, e quer ingressar no curso de Engenharia de Software da UnB. Ela destaca que o projeto é muito importante porque a incentivou a seguir essa carreira. "Eu faço parte desse programa desde que eu era do nono ano e o que aprendemos aqui não é ensinado nas escolas", declara a aluna.

Representatividade feminina

Simone Lisniowski, 50, é uma das coordenadoras do Meninas Velozes. Ela realiza as oficinas sobre gênero, que explicam o início da exclusão de mulheres nas áreas de ciências exatas. "Isso não começa na universidade, acontece no ensino fundamental I e piora no fundamental II, quando há uma tolerância maior no erro cometido pelos meninos, que é considerado normal, mas com as meninas, é visto como uma incapacidade ou uma dificuldade inerente", afirma. "Por isso, nós fazemos essas oficinas como uma tentativa de evitar esse tipo de cultura."

A psicóloga social e diretora acadêmica da faculdade internacional Hayek Global College de Brasília, Hannah Hämer, afirma que a falta de estímulo impacta na baixa representatividade feminina, mas que essa atitude se baseia na formação dos professores. "É papel do ensino superior formar profissionais futuros com visão crítica, e isto requer dos educadores que reflitam sobre as próprias práticas de ensino de forma crítica, inclusive no que diz respeito à reprodução de esteriótipos e desigualdades", declara.

Ela também comenta que as iniciativas de fomento precisam considerar os "múltiplos papéis" que as mulheres ocupam na sociedade. "Se há um compromisso real com a inclusão de mulheres nas carreiras científicas, é fundamental revisar os critérios de avaliação e financiamento, incorporando uma compreensão mais ampla das trajetórias acadêmicas", opina a diretora.

*Estagiário sob a supervisão de Márcia Machado

 

 

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