A leitura da sentença que condenou os cinco réus da maior chacina da história do Distrito Federal, na noite de sábado, trouxe um silêncio denso ao Tribunal do Júri de Planaltina. Para os familiares que ocupavam as primeiras fileiras do plenário, as palavras do magistrado funcionaram como um ponto final jurídico, mas o eco da tragédia permanece. Diante de tanta dor, houve também quem não suportou acompanhar o desfecho no Fórum e aguardou informações de casa.
"Não vai trazê-los de volta, não vai apagar o sofrimento que eu e minha família estamos vivendo, mas foi feita justiça", desabafou Eliene da Silva, 46 anos. Irmã de Elizamar da Silva e tia das três crianças assassinadas — Gabriel, Rafael e Rafaela —, ela acompanhou o rito com dificuldade em sua casa. "Acompanhamos presencialmente até terça-feira, depois não demos mais conta de olhar para aqueles monstros. Sentimos alívio por esse desfecho, apesar da dor que nunca passa."
O sentimento de justiça feita, no entanto, é matizado por diferentes percepções entre os sobreviventes. Antônia Lopes de Oliveira, 92, mãe de Marcos Antônio, avó de Gabriela, Thiago e Ana Beatriz e bisavó das três crianças assassinadas, segurava o terço enquanto ouvia as sentenças. Ela perdeu sete familiares. "Foi justo, mas não paga um fio de cabelo do meu bisneto", afirmou a idosa, que emagreceu 6 kg e ficou sem parte da audição desde o crime. Para ela, a punição terrena é apenas uma etapa. "Eu quero que eles vivam para saber o que fizeram. Precisam viver para avaliar o que foi feito naquele quadrado da prisão."
Já Alzira Pereira, 52, irmã de Cláudia Regina, deixou o tribunal em prantos. Sua indignação voltou-se para a disparidade das penas. Enquanto quatro réus receberam sentenças que ultrapassam os 200 anos, Carlos Henrique Alves da Silva foi condenado a dois anos em regime semiaberto. "Alguém dessa quadrilha ficou livre. O Carlos entregou o Thiago para morrer, como ele pode não ser implicado nisso?", questionou Alzira, referindo-se ao sequestro de uma das vítimas. "A justiça parece ter CEP e CPF. Saio daqui sem a certeza de justiça plena em relação a ele."
Resposta da justiça
O juiz Taciano Vogado, presidente do Tribunal do Júri de Planaltina, não ignorou a magnitude do que acabara de julgar. Com 33 anos de magistratura, confessou nunca ter presidido um caso que trouxesse "tanta desgraça para todas as pessoas", conforme declarou. Segundo o magistrado, a resposta da Justiça foi entregue dentro dos limites constitucionais, vencendo a pressão da repercussão pública. "A prestação judicial foi serena e as garantias processuais foram observadas integralmente", pontuou antes de encerrar a sessão às 23h30.
A força-tarefa do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), composta pelos promotores Nathan da Silva Neto, Daniel Bernoulli e Marcelo Leite, celebrou o resultado como uma vitória da cooperação institucional. "A sociedade respondeu à altura dos crimes praticados. A motivação patrimonial, relacionada à propriedade rural da família, ficou devidamente comprovada", destacou Nathan. Sobre a pena reduzida de Carlos Henrique, os promotores afirmaram que o júri reconheceu uma tese de participação menor, mas que o órgão ainda avaliará se cabe recurso.
Repercussão
O impacto do julgamento ultrapassou as paredes do fórum. Claudemir Vieira, recepcionista de 53 anos que rotineiramente embarca na Rodoviária de Planaltina, acompanhou a movimentação durante toda a semana. "É um caso terrível. Não tem como não se chocar. Acho que a comoção das pessoas influenciou o júri a ser rigoroso", comentou.
Nas redes sociais, a reação foi mais dividida. Internautas manifestaram revolta com a sentença de apenas dois anos por cárcere privado para Carlos Henrique. "Como pode um homem que atraiu uma vítima para a morte pegar só dois anos?", questionou um usuário. Outro complementou: "O crime de sequestro levou diretamente aos homicídios; a punição deveria ser equivalente."
Após o veredito, os cinco condenados — Gideon Batista de Menezes, Carlomam dos Santos Nogueira, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva — retornaram ao Complexo Penitenciário da Papuda, onde estão presos desde 2023. Segundo apurado pelo Correio, eles permanecem em celas separadas, aguardando o início da execução das penas que, somadas, tentam dar uma resposta a um crime que subtraiu 10 vidas em menos de três semanas.
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