
Um dos grandes símbolos da cidadania no trânsito brasiliense, a faixa de pedestres segue como referência nacional quando o assunto é travessia segura. Neste mês, a sinalização zebrada completou 29 anos salvando vidas no Distrito Federal. No entanto, apesar dos avanços ao longo das últimas décadas, a realidade nas ruas da cidade revela problemas de manutenção, visibilidade e respeito às normas.
Na rua 10, em Vicente Pires, a coordenadora pedagógica Marina Barbosa chama atenção para o estado da sinalização em frente ao local onde trabalha. "Ela está completamente apagada. Desde que foi feita, nunca passou por manutenção. Os carros não veem e acabam freando em cima das pessoas, dos pais com as crianças. Isso é muito preocupante para nós", relatou.
Moradora da rua 5, da mesma cidade, Maria dos Remédios, 73, aposentada, reforçou a preocupação com o estado das sinalizações. "Gosto muito de caminhar e vejo que tem muita faixa abandonada. A sensação que fica é de que ninguém se importa. Se a gente não fizer sinal com a mão, eles não param. Já vi situações perigosas, principalmente com a gente que é idoso", contou.
Outro fator que agrava a situação é a visibilidade, especialmente à noite. Na QNL 8, em Taguatinga, o comerciante Antônio Allan, 65, destaca a precariedade da iluminação e da qualidade da sinalização zebrada. "A faixa é muito escura e o poste não funciona. Aqui passa muita criança que vem da escola e têm uma certa dificuldade, além dos idosos que sempre tropeçam", disse. "Eu mesmo já passei pela faixa sem perceber que tinha pessoas, por conta da falta de iluminação. É um problema geral que precisa ser sanado", acrescentou o empresário.
Manutenção
Segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF), existem cerca de 650 faixas de pedestres nas rodovias sob sua responsabilidade. O órgão afirma que a sinalização é monitorada constantemente e que, em 2025, foram investidos aproximadamente R$ 780 mil em serviços de revitalização.
O Departamento de Trânsito (Detran-DF) destacou os resultados históricos da política de valorização da faixa. Desde 1997, quando Brasília consolidou a cultura de prioridade ao pedestre, o número de mortes por atropelamento caiu significativamente: de 266, em 1996, para 82 em 2025, uma redução de 69%. Segundo o órgão, apenas uma dessas mortes ocorreu sobre a sinalização.
Já o Batalhão de Policiamento de Trânsito informou que em 1996 havia na cidade 605 mil veículos e, hoje, Brasília conta com quase 2 milhões e meio, um aumento de 256% na frota. Mesmo assim, ocorreu uma redução de mais de 70% das fatalidades, por conta da implementação das faixas em vias urbanas e rodovias distritais, que atualmente contam mais quase 500 mil.
Especialista
Para a Profa. Dra. Zuleide Feitosa, pesquisadora colaboradora da Universidade de Brasília (UnB), a faixa de pedestres vai muito além de uma simples pintura no asfalto."Ela funciona como um contrato visual entre motorista e pedestre. Com a frota do DF em constante alta, elas organizam o fluxo, reduzem conflitos entre veículos e pedestres e reforçam o direito de ir e vir com segurança. Um verdadeiro pilar da cidadania no trânsito", explicou.
Segundo a especialista, quando a sinalização está desgastada, há um comprometimento nesse "acordo". "Normalmente, motoristas não calculam risco com precisão, por conseguinte não percebem o local de travessia e não reduzem a velocidade. Pedestres atravessam em pontos imprevisíveis, aumentando a chance de serem surpreendidos", afirmou Zuleide.
A pesquisadora destacou que fatores como iluminação e condições climáticas impactam diretamente na eficácia da faixa. "À noite, ou em dias de chuva, a falta de contraste pode tornar a faixa praticamente invisível. Isso aumenta a vulnerabilidade, principalmente de idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida", pontuou.
Apesar dos desafios, a especialista reforça que a ferramenta é eficaz quando bem aplicada. "Estudos mostram que faixas bem sinalizadas podem reduzir atropelamentos entre 25% e 40%. Ou seja, é uma medida simples, mas extremamente eficiente quando há manutenção adequada. Mas, não basta pintar a faixa. É preciso pensar em visibilidade, iluminação, acessibilidade e fiscalização", concluiu.

Cidades DF
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