Podcast do Correio

Diretora e atriz prestam homenagem a Hugo Rodas com "Saltimbancos"

Integrantes da Agrupação Teatral Amacaca, última trupe criada pelo diretor, Catarina Aciolly e Dani Neri relembram a importância do uruguaio-candango para a cena artística de Brasília

Catarina Accioly (E) e Dani Neri (ao fundo) durante bate-papo com os jornalistas Severino Cavalcante e Nahima Maciel
 -  (crédito: Reprodução/Correio Braziliense)
Catarina Accioly (E) e Dani Neri (ao fundo) durante bate-papo com os jornalistas Severino Cavalcante e Nahima Maciel - (crédito: Reprodução/Correio Braziliense)

"Ele se autointitulava o mais cadango dos uruguaios, ou o uruguaio mais candango que há", relembrou a diretora Catarina Aciolly sobre o mestre de teatro uruguaio Hugo Rodas, responsável por dirigir e encenar espetáculos que marcaram o cenário brasiliense da dramaturgia. No Podcast do Correio, a atriz e musicista Dani Neri e Catarina Aciolly, integrantes da Agrupação Teatral Amacaca, compartilharam mais detalhes sobre a homenagem ao diretor, que faleceu em 2022. O aniversário do artista, nascido em 27 de maio, será lembrado na quarta-feira (27/5).

Dirigido por Catarina, o filme Rodas Gigantes foi exibido na quarta-feira, no Cine Brasília. O documentário mostra os últimos quatro anos da vida do encenador, de 2018 a 2022. Ele participou de 87 festivais, em que recebeu mais de 29 prêmios. Apresentada no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2023, a obra foi premiada em três categorias: Melhor montagem, Melhor filme e Melhor direção. No evento, admiradores do artista participaram de uma exposição fotográfica com registros sensíveis do diretor de teatro, feita por Diego Bresani — aluno e parceiro de Hugo.

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Além da exibição do documentário, uma iniciativa da Embaixada do Uruguai, Hugo também está sendo homenageado com uma apresentação da peça Saltimbancos, pela companhia teatral Amacaca, uma das últimas trupes encabeçada pelo diretor de teatro. Mesmo após a morte de Hugo, o grupo se mantém ativo e fará a apresentação em 30 de maio, às 11h, no Centro de Convenções Ulisses Guimarães. 

Quem foi Hugo Rodas

Nas palavras de Catarina, "Hugo assumia sua intensidade como latino-americano". Ela revela que o diretor multifacetado se aborrecia quando percebia que um espetáculo estava se repetindo. Apostando em tons, fotografias e câmera lenta, Hugo se reinventava. "Ele possuía uma consciência corporal incrível", completa Dani Nery.

A atriz enfatizou que Hugo Rodas trouxe uma verdadeira "revolução para o teatro brasiliense", caracterizada por um "tônus" muito próprio da cidade. Ela aponta o teatro físico, o movimento e a interconexão de linguagens como música, corpo e texto como elementos centrais de sua obra, afirmando que "nada está desatrelado". Para Nery, os espetáculos de Hugo são "grandes manifestos", não apenas entretenimento, mas "espetáculos de provocação", impulsionados por sua natureza inquieta e inconformista.

É com base na memória e nostalgia de Hugo como diretor que a companhia Amacaca segue em atividade. Questionadas sobre como O grupo se mantinha, a dupla lamentou a falta de investimento nos espetáculos. Dani afirma que "cada integrante da Amacaca faz diversas coisas pra se manter", relata. Os atuais editais foram descritos como pontuais e insuficientes para garantir o bom funcionamento das apresentações. "Falta uma política de manutenção de companhias teatrais. Precisamos ter políticas voltadas para as coletivas de teatro", defende Catarina.

Segundo a diretora, pulverizar os editais pode dar força para 20 espetáculos, mas não é suficiente. O ideal, na percepção da dupla, seria a disponibilização dos espaços culturais de Brasília para os ensaios das companhias, entre eles, o Teatro Nacional Cláudio Santoro.

Montagem

Durante o Podcast, a dupla ainda relembrou a remontagem de Saltimbancos, em 2017, realizada em homenagem aos 80 de Hugo, além de 40 anos da peça. Apesar de estar convencido de que queria montar um novo espetáculo, ele acabou sendo incitado a remontar a peça de Chico Buarque. "Acabou que o espetáculo se ornou um presente, e uma grande homenagem para ele e para a capital", descreveu Dani.

 A remontagem de Saltimbancos é descrita pela atriz como um espetáculo muito jovial e com uma energia intensa no palco. A peça dos anos 1970, com o grupo Pitu, é lembrada com carinho, sendo um "grande encontro na juventude" e um "grito de liberdade" em uma época sombria.

Dani conta que, naquela época, havia uma separação física entre a banda e o corpo de atores-dançarinos. Na montagem atual, Hugo Rodas conseguiu realizar seu sonho de ter uma trupe "multilinguagens", na qual os artistas dançam, tocam e fazem piruetas, com todos os instrumentos ao vivo em cena, como marimba, trompete, violão, flauta e bateria.

Ao assistir à peça, o público se envolve ativamente, com crianças subindo ao palco e pais chorando ao cantar Dorme a Cidade. A dupla descreve que o espetáculo ativa uma "memória emotiva muito forte" e, embora dirigida a crianças, toca profundamente os adultos, abordando temas como união e a frase Todos juntos somos fortes, que tem uma "atualidade enorme", afirma a atriz. Dani Nery relata que cresceu ouvindo o disco Saltimbancos e percebe que muitos da sua geração não tinham noção do contexto político das mensagens.

A companhia já levou a peça para Planaltina, Gama, Ceilândia e Taguatinga, buscando alcançar públicos que têm pouco acesso ao teatro. Dani Nery tem o sonho de tornar Saltimbancos uma política pública na cidade, levando a peça a todas as escolas públicas do DF, pois o espetáculo pode ser atrelado a várias matérias escolares, fortalecendo a educação e falando de democracia e união.

Questionadas sobre a manutenção do legado do Hugo, o filme dirigido por Catarina é citado como um material vivo, que se perpetua mesmo na ausência da última geração. Assim como a preservação do repertório vivo da Agrupamento Amacaca. Dani Nery afirma que Amacaca continua trabalhando para que o repertório continue em movimento, incluindo espetáculos, como Saltimbancos, Rinoceronte, Punai Baraúna, Ensaio Geral e o virtual Poema Confinado. "É a melhor homenagem que podemos fazer", afirma.

Outro projeto do grupo seria realizar um Festival Hugo Rodas no próximo ano, que não pôde acontecer durante a pandemia. Catarina respondeu que uma importante maneira de cuidar desse legado seria com o reconhecimento da classe artística. A diretora ressalta a importância de reconhecer a classe artística como trabalhadora, destacando que os projetos são realizados com muito investimento próprio e apoio de coprodutores.

 

 

 

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postado em 26/05/2026 07:14
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