Entrevista | José Aparecido Freire | Presidente da Fecomércio-DF

'Juros precisam cair mais', defende presidente reeleito da Fecomércio

Reeleito para mais quatro anos à frente da entidade que representa o setor terciário da economia, gestor falou ao CB.Poder

Recém-reeleito para mais quatro anos à frente da Fecomércio-DF, José Aparecido Freire assume o novo mandato em um cenário desafiador para a economia do Distrito Federal. Com juros ainda elevados, alto nível de endividamento das famílias e um comércio mais cauteloso, o setor — que representa mais de 93% do PIB local e emprega centenas de milhares de trabalhadores — busca caminhos para manter o crescimento. Às jornalistas Mariana Niedeauer e Samanta Salum, em entrevista ao CB.Poder, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília, ele falou sobre os impactos da queda da taxa de juros, as expectativas para datas importantes do varejo, os investimentos em qualificação profissional e os planos de revitalização de áreas estratégicas, como o Setor Comercial Sul, além da defesa do BRB como patrimônio da capital.

Nesta quarta-feira (30/4), o Banco Central reduziu a taxa de juros, o que impacta diretamente no nível de endividamento das famílias.

Como está esse cenário no DF? E como o senhor avalia essa redução?

Atualmente, cerca de 80% da população do DF está endividada. Esse dado, por si só, não é necessariamente preocupante, pois indica que a população está consumindo, muitas vezes por meio de crédito parcelado. No entanto, há dois recortes importantes: 47% das famílias têm dívidas em atraso há mais de 68 dias, e outros 20% se declaram endividados, mas sem condições de pagar. Isso representa mais de 200 mil famílias, o que afeta negativamente a economia. Os juros altos agravam esse cenário, porque dificultam o pagamento das dívidas, que crescem com uma Selic ainda elevada. Mesmo com a recente redução de 0,25 ponto percentual, a taxa está em 14,5% ao ano, um patamar muito alto. Isso é ruim para a economia e para as famílias. A queda dos juros é positiva, e acreditamos que a taxa possa chegar ao fim do ano entre 13% e 13,5%. Ainda assim, é um nível elevado, que não favorece o crescimento econômico.

Qual o impacto esperado para o Dia das Mães?

A melhor data de venda do ano é o Natal. A segunda melhor é o Dia das Mães. No entanto, uma pesquisa recente do Instituto Fecomércio mostra que o empresário está pessimista. No ano passado, 80% acreditavam em crescimento nas vendas; neste ano, apenas 60% têm essa expectativa. Outro dado relevante é a queda no ticket médio: passou de R$ 245, no ano passado, para R$ 213, neste ano, reflexo direto do endividamento das famílias. Além disso, houve mudança no principal meio de pagamento. Antes, o cartão de crédito liderava, com 37,5%; agora, o Pix aparece em primeiro lugar, com 29%. Isso ocorre porque 86% das famílias endividadas têm restrições e não conseguem utilizar o crédito. Portanto, o cenário é diferente: as famílias estão mais retraídas, o que contribui para um ambiente mais pessimista no comércio.

Uma bandeira da Fecomércio é a revitalização de áreas estratégicas da cidade, como a W3 e, especialmente, o Setor Comercial Sul. Quais são as principais propostas da Fecomércio para revitalizar o Setor Comercial Sul? E qual é a importância dessa região para o desenvolvimento econômico e social da capital federal?

Nós inserimos mais de 200 novas atividades no Setor Comercial Sul. Abrimos duas unidades — uma em março do ano passado e outra em março deste ano — que juntas somam cerca de 12 mil alunos. Também temos uma unidade do Sesc na região, com forte atuação na área de odontologia e no atendimento a pessoas com TEA, além de um CDI bastante estruturado. O Instituto Fecomércio também está presente no Setor Comercial Sul. Realizamos missões técnicas para cidades como Medellín, além de visitas a Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, para entender como essas regiões revitalizaram áreas degradadas semelhantes ao SCS. A partir disso, desenvolvemos um projeto completo de revitalização, um retrofit da região, que será apresentado ao Governo do Distrito Federal. A ideia é que o governo possa adaptá-lo e implementá-lo. O Setor Comercial Sul tem a melhor mobilidade do DF, com acesso pela W3, Eixão, metrô e rodoviária. É, portanto, uma área estratégica para a economia.

A Fecomércio defende a adoção de uso misto no Setor Comercial Sul, com a inclusão de moradia, especialmente diante do alto número de salas comerciais vazias?

Defendemos que até 30% da área possa ser destinada ao uso residencial, mas com critérios que preservem a atividade econômica, especialmente da economia criativa. É importante que haja regras claras para evitar conflitos, por exemplo, com o funcionamento de bares e restaurantes.

Como a Fecomércio avalia a situação do BRB? A entidade está conseguindo contribuir com propostas para que o banco se mantenha como um patrimônio de Brasília?

Não cabe a nós fazer pré-julgamentos sobre pessoas ou fatos, até porque essa é uma atribuição do Poder Judiciário. No entanto, a Fecomércio defende o BRB justamente por sua relevância para o Distrito Federal. O banco é responsável pela execução de diversos programas sociais, além de operar sistemas importantes, como a bilhetagem do transporte público e as folhas de pagamento de instituições como o Sistema Fecomércio (Sesc e Senac) e do próprio GDF. Ou seja, há uma forte dependência estrutural do BRB. Por isso, é preciso imaginar o impacto que uma liquidação do banco causaria. Seria um prejuízo significativo para o Distrito Federal, especialmente para a população mais vulnerável. Estamos falando de programas sociais que atendem, segundo nossas estimativas, cerca de um milhão de pessoas. Outro ponto importante é a questão do aporte financeiro. Fala-se em valores que variam entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões. Caso o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) realize esse aporte, há a perspectiva de recuperação futura desses recursos. Por outro lado, em caso de liquidação do banco, o FGC teria que indenizar os clientes em até R$ 250 mil por CPF, o que poderia gerar um custo ainda maior. Temos exemplos no sistema financeiro de situações em que o custo de liquidação foi extremamente elevado. Por isso, do ponto de vista econômico, é mais racional buscar a recuperação da instituição.

 


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