Morrer nunca foi barato. Mas, no Distrito Federal, o custo da despedida tem se tornado um peso ainda maior para famílias que, além de lidar com o luto, precisam enfrentar uma conta alta e imediata. Em um momento marcado pela urgência e pela fragilidade emocional, decisões que envolvem dinheiro precisam ser tomadas em poucas horas, muitas vezes sem planejamento ou alternativa.
O reajuste mais recente nos preços dos serviços cemiteriais no Distrito Federal entrou em vigor na terça-feira da semana passada, após publicação de portaria no Diário Oficial do DF. Segundo a empresa Campo da Esperança, que administra os cemitérios do DF, o aumento de 3,81% segue a atualização anual prevista em contrato, com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses.
Diferentemente do reajuste, a dor da perda costuma chegar sem aviso. E, com ela, vem uma urgência silenciosa: resolver tudo rapidamente, escolher serviços, assinar contratos e, muitas vezes, desembolsar valores que ultrapassam o orçamento familiar. Foi o que aconteceu com a técnica de enfermagem Sandra Amâncio, de 53 anos, que precisou lidar não apenas com a morte da irmã, mas também com o custo inesperado do enterro.
Valeska Barbosa, de 36 anos, mulher trans, foi encontrada morta dentro de casa, no Condomínio Porto Rico, em Santa Maria. Sua história foi marcada por resistência desde a infância e por uma relação de afeto com a família que a acolheu. Na hora da despedida, porém, a realidade financeira falou mais alto. Sem recursos suficientes, Sandra recorreu a uma vaquinha on-line para conseguir sepultar a irmã.
"Os custos são muito altos, e a gente foi pego desprevenido. Não tínhamos R$ 6 mil para enterrá-la. Esse foi o valor gasto com serviço funerário e a compra da terra. O resto, parcelamos. Morrer hoje custa muito caro, acho um absurdo", relatou.
Valores
Embora os valores de sepultamento no DF estejam dentro da média nacional, variando entre R$ 480 e R$ 1.100, a análise muda quando se observam outros serviços. A cremação, por exemplo, chega a R$ 6.228,75 na capital federal, valor significativamente superior ao cobrado em cidades como São Paulo, onde custa cerca de R$ 1.851,38, ou no Rio de Janeiro, onde gira em torno de R$ 3.864,88. Em Belo Horizonte, os preços variam, podendo alcançar valores semelhantes, mas também apresentar opções mais acessíveis.
Para o economista Newton Marques, o problema não se resume aos custos operacionais do setor, mas também à forma como o mercado está estruturado. "É um gasto extraordinário e, em geral, as empresas que administram os cemitérios são terceirizadas e cobram muito caro. A solução, muitas vezes, é pedir ajuda de parentes para custear o sepultamento", explicou.
Segundo ele, a falta de concorrência efetiva contribui para a elevação dos preços. "O correto seria abrir concorrência, mas, em geral, esses serviços são quase monopólios, com poder de mercado. Se você comparar preços aqui no DF, vai verificar que os serviços funerários do Plano Piloto são muito altos em relação a outras regiões administrativas e ao Entorno", ressaltou.
Além disso, Marques aponta que a atuação do poder público é limitada quando se trata de aliviar esse tipo de custo para a população. "Em geral, o poder público alivia só as classes de renda mais baixas, mas não as demais", observou.
Para famílias em situação de vulnerabilidade, existe a alternativa do enterro social, oferecido pelo Governo do Distrito Federal. O serviço cobre itens básicos, como urna simples, transporte do corpo e sepultamento. No entanto, o acesso depende da comprovação de baixa renda e da realização de um processo que, em meio à urgência da morte, pode se tornar mais um obstáculo.
Além disso, há um fator emocional envolvido: muitas famílias resistem à ideia de um serviço básico, por considerarem que ele não traduz uma despedida à altura da pessoa que partiu. O resultado é um cenário no qual a morte, além de inevitável, se torna financeiramente pesada e, em alguns casos, excludente.
Reajuste
A Campo da Esperança Serviços Ltda. informou, por meio de nota, que o reajuste dos preços dos serviços cemiteriais é baseado na inflação acumulada nos 12 meses anteriores, considerando o mês de aniversário do contrato com o GDF, em fevereiro.
Para a concessionária, a recomposição anual baseada exclusivamente na inflação não cobre integralmente os custos operacionais, já que despesas com pessoal — principal componente de custo — costumam ter reajustes acima do IPCA.
De acordo com a empresa, o Distrito Federal mantém uma das menores tarifas cemiteriais entre as principais capitais do país e, por se tratar de concessão pública, suas atividades são fiscalizadas pelo governo local.
Quanto às formas de pagamento, a concessionária informou que os serviços podem ser quitados por meio de cartão de crédito ou boleto bancário, com possibilidade de parcelamento conforme o valor contratado.
Por fim, a empresa reconheceu que alguns serviços operam com deficit. É o caso da taxa de sepultamento, atualmente fixada em R$ 31,97, valor que, segundo a nota, não cobre os custos com mão de obra e materiais, como as placas utilizadas nos sepultamentos.
Saiba Mais
