ANCESTRALIDADE

Um abraço coletivo contra o preconceito e pelo respeito à diversidade

Fé, cultura e resistência: o projeto Águas de Oxalá, idealizado por Mãe Frances de Oyá, promove rituais de lavagem e oficinas formativas para combater a intolerância, preservar o patrimônio afro-brasileiro e estimular o empreendedorismo

O aroma de alfazema e o som rítmico dos atabaques começam a percorrer as regiões administrativas do Distrito Federal com a chegada da segunda edição do Águas de Oxalá. Entre os meses de maio e junho, a iniciativa percorre Samambaia, Ceilândia (Pôr do Sol), Núcleo Bandeirante e Candangolândia, transformando espaços públicos em cenários de celebração e resistência. Mais do que um evento religioso, a proposta se consolida como uma ferramenta de afirmação cultural, oferecendo oficinas gratuitas que unem o resgate ancestral ao empreendedorismo social.

Idealizado e conduzido por Mãe Frances de Oyá, conhecida como a Baiana do Acarajé de Samambaia, a iniciativa busca reafirmar a potência simbólica dos rituais de lavagem. Essas manifestações, profundamente enraizadas na formação social do Brasil, servem como um ato público de valorização das tradições de matriz africana. Em um cenário no qual o racismo religioso registra episódios frequentes, o Águas de Oxalá se posiciona como um abraço coletivo contra o preconceito e a favor do respeito à diversidade.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press -
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A tradição remonta ao ano de 1776, com a icônica Lavagem do Senhor do Bonfim, na Bahia. Naquela época, as baianas vestidas de branco cantavam e lavavam as escadarias da igreja em homenagem a Oxalá, pai maior e dono de todas as águas. O projeto traz essa herança para o Planalto Central, em um cortejo que simboliza a limpeza espiritual e a renovação dos caminhos.

"Cada lavagem é um chamado à paz, mas também um posicionamento: nossas culturas seguem vivas e são parte indissociável da história do Brasil", destaca Mãe Frances de Oyá. Ela explica que o Águas de Oxalá é uma forma de preservar o patrimônio histórico do povo preto e combater o racismo estrutural. "Nós trabalhamos também o psicológico, damos ênfase ao ser humano para que ele creia mais nele mesmo e tenha visibilidade", enfatiza a liderança, que atua há 18 anos na religiosidade e preside o Conselho de Cultura de Samambaia.

Os rituais, abertos à comunidade, reúnem participantes "vestidos de branco que, guiados pelos orixás Oxalá, Iemanjá e Oxum, realizam a lavagem simbólica de espaços culturais com água de cheiro e ervas sagradas", detalha Mãe Frances de Oyá. O gesto, acompanhado por cânticos afro-religiosos, representa o afastamento de energias negativas e a celebração da vida.

Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-DF), o Águas de Oxalá atua diretamente na desmistificação das religiões de matriz africana. Ao abrir as portas para a comunidade e oferecer um glossário de termos, o projeto educa e humaniza.

"O racismo cultural é complexo. Somos todos miscigenados, misturados com o negro, o indígena e o feudal. O projeto quer que o ser humano mostre o que é, receba sua identidade e resgate os valores humanos sem distinção de gênero ou cor", defende Mãe Frances de Oyá. Além do conteúdo espiritual e profissional, a iniciativa encerra cada etapa com um festival de acarajé, unindo a gastronomia baiana ao axé da celebração.

Arte que emancipa

A estrutura do projeto é dividida em duas frentes: as oficinas formativas e os rituais de lavagem. Com duração de 20 horas cada, as oficinas abordam desde a confecção de adereços, turbantes e guias até a culinária sagrada e a percussão. 

A idealizadora ressalta que o ensino dessas técnicas abre portas para o mercado de trabalho. "O objetivo também é o empreendedorismo. Temos exemplos de alunas que, após as oficinas de corte e costura e adereços, conseguiram emprego ou abriram o próprio negócio virtual", orgulha-se. Ela cita o caso de uma jovem que criou uma marca de adornos e roupas após as oficinas, mostrando que a cultura pode ser fonte de renda e emancipação para mulheres pretas da periferia.

Karla Leite, 45 anos, moradora de Samambaia e praticante do candomblé há duas décadas, é uma das colaboradoras e participantes desta edição. "O intuito é ensinar um pouco das danças, do artesanato e da nossa culinária para a população. Para mim, as Águas de Oxalá são um ritual de purificação. Espero sair com a alma lavada e o coração cheio de paz", diz Karla, que também é aluna de uma das oficinas, no Complexo Cultural de Samambaia.

A aposentada e artesã Valdelucia Leite Soares da Silva, 66, frequenta as atividades e reforça o aprendizado constante. "Estive no ano passado e aprendi muita coisa: costura, turbante, trança e guia. Para mim, isso aqui significa luz", resume.

Programação

A jornada começa no Complexo Cultural de Samambaia e segue para outras regiões. O próximo destino é o Pôr do Sol (Ceilândia), na Chácara do Pai Jorge, seguido pelo Museu Vivo da Memória Candanga, no Núcleo Bandeirante, e finalizando na Associação Papo de Mãe, em Samambaia Sul. Em todos os pontos, a dinâmica se repete: aulas durante a semana e a grande lavagem festiva no fim de semana.

As inscrições para as oficinas são gratuitas e podem ser feitas presencialmente ou pela plataforma Sympla. O convite de Mãe Frances de Oyá é estendido a todos os brasilienses: "Venham receber um axé, uma sorte e uma energia positiva da nossa lavagem. Gratidão e muito axé a todos".

Serviço

» Quando: maio e junho de 2026.

» Locais: Samambaia (Complexo Cultural e Papo de Mãe), Pôr do Sol (Chácara do Pai Jorge), Núcleo Bandeirante (Museu Vivo da Memória Candanga) e Candangolândia (Instituto Criar Mulher).

» Atividades: oficinas de percussão, culinária, costura e adereços; e rituais de lavagem abertos ao público.

» Inscrições: gratuitas via Sympla ou nos locais das atividades.

» Mais informações: Instagram @aguasdeoxala.df

Saiba mais

» Orixás: divindades de povos africanos incorporadas a religiões de matriz africana. São associados às forças da natureza e à ancestralidade.

» Oxalá: o mais velho e respeitado dos orixás, representa a criação, a paz e a pureza. Sua cor é o branco.

» Oxum: divindade das águas doces (rios e cachoeiras), do amor e da riqueza. Sua cor é o amarelo.

» Iemanjá: rainha das águas salgadas, considerada a mãe de todos os orixás. Suas cores são o azul e o branco.

» Axé: energia vital, força sagrada; também utilizado como saudação que deseja sorte e bênçãos.

» Atabaque: instrumento de percussão sagrado utilizado para conduzir o ritmo dos ritos e cânticos.

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Saiba mais

» Orixás: divindades de povos africanos incorporadas a religiões de matriz africana. São associados às forças da natureza e à ancestralidade.

» Oxalá: o mais velho e respeitado dos orixás, representa a criação, a paz e a pureza. Sua cor é o branco.

» Oxum: divindade das águas doces (rios e cachoeiras), do amor e da riqueza. Sua cor é o amarelo.

» Iemanjá: rainha das águas salgadas, considerada a mãe de todos os orixás. Suas cores são o azul e o branco.

» Axé: energia vital, força sagrada; também utilizado como saudação que deseja sorte e bênçãos.

» Atabaque: instrumento de percussão sagrado utilizado para conduzir o ritmo dos ritos e cânticos.