Série Envelhecer é moderno

Entre ausências urbanas, terceira idade pede mais cidadania na capital do país

Idosos enfrentam dificuldades diárias de mobilidade, acessibilidade e acolhimento no DF. Dados mostram crescimento da população 60 vivendo sozinha, enquanto aumentam os registros de violência, abandono e a demanda por serviços de proteção

Manuela Sá*

Quatro minutos. Esse foi o tempo que Ceci Oliveira levou para subir os 27 degraus que separam a plataforma intermediária e a superior da Rodoviária do Plano Piloto. Demais passageiros costumam levar menos da metade do tempo. É que Ceci, além de sofrer com artrose, está com 73 anos. "A agilidade não é a mesma do passado. Por isso, venho devagar para não me machucar", comentou, ofegante. O esforço não foi uma escolha. A escada rolante, que poderia facilitar o deslocamento, estava passando por uma paralisação programada, parte, segundo a concessionária responsável pela rodoviária, de um cronograma de manutenção diária.

Aposentada, a mulher se desloca do Riacho Fundo I ao centro de Brasília ocasionalmente, quando precisa resolver burocracias, e frequenta missas na Asa Sul. O trajeto é feito sempre sozinha e de ônibus, onde lida com mais obstáculos. "Alguns (coletivos) têm o degrau muito alto, dificultando a subida. Nunca caí, mas já cheguei a tropeçar", conta.

Sobre os assentos — desde 2027, todos preferenciais —, ela revela seguir uma tática. "Entro por trás, porque costuma ter mais lugares vagos. Mesmo assim, evito pedir o assento quando o ônibus está cheio. Tenho receio de atrito, pois sinto que as pessoas não gostam dos idosos. Muitos fingem que dormem assim que me veem. Então, fico em pé", relata Ceci. Sem engarrafamentos, a viagem dura 30 minutos.

"Uma vez, vi na tevê que em 2050 o Brasil terá mais idosos do que jovens. Apesar do aumento de discussões sobre o bem-estar da terceira idade no DF, sinto que falta um olhar mais carinhoso com esse público. Eu mesma sempre peço a Deus que me dê saúde para eu poder ter mobilidade e não precisar atrapalhar a vida dos meus filhos, sabe? Apesar de certas dificuldades, tenho aguentado", afirma a aposentada, que mora sozinha.

Ceci contempla a estatística que mostra que, no Distrito Federal, 70 mil pessoas com 60 anos ou mais vivem em lares compostos por apenas um morador. Da população da capital federal em arranjos unipessoais, quase um terço (32,2%) eram idosos em 2025, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2012, esse quantitativo era de 9,9%.

Esta é a terceira reportagem da série Envelhecer é Moderno, que traça um diagnóstico sobre os desafios e as transformações da população 60+ no DF em 2026. Nesta edição, o Correio lança luz acerca do exercício da cidadania e do direito ao espaço. Atravessar a capital, ocupar um banco de ônibus ou conquistar uma vaga em instituições de acolhimento são tarefas que testam, diariamente, os limites de uma Brasília que nem sempre está preparada para o passo mais lento.

Carências

A vulnerabilidade que muitos idosos vivenciam no dia a dia ao se deslocar pela cidade — seja no transporte, em espaços coletivos ou até no risco de calçadas desniveladas — não se restringe aos ambientes públicos. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, a Polícia Civil do DF (PCDF) registrou 38.831 ocorrências envolvendo vítimas com mais de 59 anos.

Desconsiderando os registros subnotificados ou sem especificação, as fraudes na internet (23,4%) e os crimes cometidos dentro da própria residência (17,8%) destacam-se como os principais cenários de violações contra esse públicoNa rotina da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação e Contra a Pessoa Idosa (Decrin), a realidade que mais salta aos olhos é a violência patrimonial combinada à negligência.

"Filhos ou netos assumem a guarda do cartão de aposentadoria, deixam a pessoa idosa sem acesso ao próprio dinheiro e ainda oferecem condições precárias de moradia e alimentação. Isso costuma vir acompanhado de abusos psicológicos, como xingamentos, ameaças e o alijamento do idoso das decisões familiares", relata a delegada-chefe adjunta Cyntia Carvalho e Silva, doutora em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em gerontologia. 

O ápice da desassistência doméstica se reflete no abandono em hospitais ou residências, casos que, segundo a delegada, crescem a cada dia. Quando a Polícia Civil constata que a permanência no lar é inviável e retira o idoso de condições precárias, uma rede de proteção é imediatamente acionada.

"Nesses casos de extrema vulnerabilidade, fazemos o acolhimento emergencial, encaminhamos para a área de assistência social da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) e comunicamos o Ministério Público e a Central Judicial do Idoso para as medidas de proteção necessárias", explica Cyntia. É essa ruptura definitiva dos vínculos familiares que empurra a trajetória de muitos cidadãos em direção às vagas das instituições oficiais da capital.

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Acolhimento

Segundo a Sedes-DF, existem 10 abrigos institucionais para idosos na capital, sendo três públicos e sete administrados por Organizações da Sociedade Civil (OSC) com financiamento do GDF. Atualmente, 411 idosos são acolhidos nesses serviços. Questionada sobre números na fila de espera por esse tipo de assistência, a pasta não deu detalhes. "Existe uma demanda com a qual a Sedes tem trabalhado, por meio de edital, para ampliação das vagas de acolhimento", respondeu a pasta.

Embora o termo Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) seja o mais difundido, o governo utiliza o enquadramento formal de "serviço de acolhimento". Na prática, a secretaria afirma que suas unidades diretas focam em idosos independentes, enquanto as entidades parceiras — que funcionam como residências coletivas — absorvem diferentes graus de dependência. Uma dessas OSCs é o Lar de Velhinhos Maria Madalena.

Das 94 vagas disponíveis no espaço, 92 são destinadas aos acolhidos encaminhados pela pasta. De acordo com a coordenadora de captação de recursos do estabelecimento, Lilian Carvalho, o espaço recebe um repasse de cerca de R$ 200 mil por mês. No entanto, com frequência, há atrasos no recebimento desse dinheiro. "Falta uma parceria mais efetiva do GDF. Para algumas mudanças estruturais, como refazer a cerca da instituição, poderíamos contar com o apoio deles", afirma Lilian.

Para cobrir o restante dos custos, a instituição realiza eventos próprios, como bazares beneficentes, além de contar com o apoio de diferentes entidades. "Recebemos muita ajuda da sociedade, de empresas e de voluntários, que estão dispostos a suprir essa necessidade", diz a coordenadora. 

Sobre o atraso no repasse de recursos, a Sedes reconheceu a demora na transferência, mas pontuou que os pagamentos foram regularizados. Quanto à fiscalização das unidades conveniadas, a secretaria afirma realizar um monitoramento sistemático com foco na "garantia de direitos, na dignidade da pessoa humana e na centralidade na família". Esse controle, de acordo com o órgão, é feito por meio de relatórios e visitas in loco, além da fiscalização de órgãos externos, como o Ministério Público (MPDFT).

Companhias 

Com o objetivo de estimular a socialização e as funções físicas e cognitivas dos moradores, o Lar de Velhinhos Maria Madalena realiza atividades como bingo, karaokê e celebrações de datas comemorativas. Passeios a clubes, ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), ao teatro e ao cinema também fazem parte do calendário.

Uma dessas saídas, ocorrida no ano passado, levou os moradores da instituição à Semana da Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, na Câmara Legislativa do DF (CLDF). A programação contou com atendimentos, serviços e atividades culturais. Morador do abrigo há um ano, Hilton Soares de Araújo, 66, foi um dos participantes do evento. "Era para ter mais proteção para os idosos. A gente não pode ser humilhado, temos que ser respeitados", destaca.

Manuela Sá/CB/DA Press - Hilton Soares de Araújo não abandona o pequeno rádio

É em um pequeno rádio, recebido como prêmio de um dos bingos do lar, que Hilton escuta suas músicas favoritas. Fã de "hinos das antigas", como define, ele guarda em um pen drive uma seleção de clássicos de Erasmo Carlos, Luiz Gonzaga e Wanderléa. Enquanto escuta, ele acompanha baixinho, cantando trechos de sua canção preferida, Boi Soberano, de Tião Carreiro & Pardinho: "Me alembro e tenho saudade do tempo que vai ficando/ Do tempo de boiadeiro que eu vivia viajando / Eu nunca tinha tristeza, vivia sempre cantando".

Na instiruição, Hilton não deixou de lado seu gosto pela conversa. Ele conta amar o lugar desde o primeiro dia. "Quando me ausento para visitar família e amigos, os colegas, com quem passo o dia proseando, perguntam por mim, acredita?". 

Já Ana Tereza Silva, 71, mora no lar há seis meses. Ela viveu com o marido até 2022, ano em que ele faleceu. O casal se conheceu em São Paulo, onde trabalhavam em uma empresa de papel. Foram 40 anos de casados e quatro filhos. Após a partida do companheiro, Ana passou a se sentir só, o que a motivou a se mudar.

A aposentada é de Londrina (PR), de onde se mudou ainda jovem, à procura de emprego. Com a distância, perdeu contato com a família, de quem sente muita falta, especialmente dos irmãos. "A gente morava no sítio. Todo mundo trabalhava. Se fôssemos para uma festa, era todo mundo junto. Era tudo muito bom", lembra.

Manuela Sá/CB/DA Press - O maior desejo de Ana Tereza é reencontrar os familiares

No lar, Ana encontrou companhias de quem gosta e um ambiente acolhedor, mas o sonho de reencontrar os parentes permanece. Seu maior desejo é localizar os irmãos que ficaram no Sul e voltar a morar com eles. "Gosto de morar aqui, mas se eu encontrar minha família, quero ir embora", confessa. Enquanto segue na busca, ela se conecta com o mundo por meio da tecnologia. No Natal passado, ganhou um celular de presente de uma senhora de Taguatinga, que usou o primeiro benefício da pensão do falecido marido para presenteá-la.

Ana gosta de passar o tempo sob as árvores conversando com a senhora, uma sobrinha que mora em Minas Gerais e com amigos que visitam o lar. Ela diz que se sente dona da própria rotina. "Sei que tenho 71 anos, mas vejo pessoas mais novas do que eu que parecem mais velhas. Sou uma idosa sadia que gosta de se cuidar", ressalta.

Palavra do especialista

Urgentemente, a cidade precisa se adaptar

O envelhecimento acelerado da população tem intensificado a preocupação de pesquisadores da área urbana sobre a configuração dos espaços públicos. No caso específico de Brasília, observa-se que a cidade está muito pouco preparada para essa rápida transição demográfica, diferentemente de países que já priorizaram a adaptação urbana voltada para a terceira idade.

Um exemplo simples dessa lacuna é o transporte público coletivo. Os ônibus que circulam no Brasil são excessivamente altos e carecem de sistemas de rebaixamento de chassi (ajoelhamento), uma tecnologia de fácil implementação que mitigaria a severa dificuldade enfrentada por idosos e pessoas com mobilidade reduzida ao tentarem acessar degraus elevados e desprovidos de corrimão.

A garantia do direito de ir e vir exige rotas acessíveis e a priorização da mobilidade ativa — focada em pedestres e ciclistas — em detrimento do uso do automóvel. Em Brasília, as travessias de vias representam um problema crítico. A redução natural da velocidade de deslocamento na terceira idade transforma o ato de cruzar uma rua sem faixa de pedestres em um cenário de risco.

Mesmo onde há semáforos, o tempo de espera imposto ao pedestre chega a ser absurdo, alcançando cinco ou seis minutos. Intervenções de baixo custo e alto impacto na qualidade de vida coletiva, como a ampliação de faixas e o ajuste nos tempos semafóricos, beneficiariam não apenas os idosos, mas toda a população, incluindo cadeirantes, pessoas com carrinhos de bebê ou de compras.

Diante do aumento de arranjos familiares reduzidos, torna-se também urgente o fomento a moradias assistidas e casas de acolhimento. Trata-se de uma demanda que necessita de serviços de apoio qualificados para idosos sem rede familiar, um mercado que pode ser explorado tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada.

Ademais, por disporem de maior tempo livre, os idosos demandam espaços gregários, como praças e parques, que possibilitem a socialização e a observação da dinâmica urbana. Esse grupo não é homogêneo; muitos idosos rejeitam o isolamento silencioso e preferem comunidades com vida cultural e social ativa. Adequar a infraestrutura da capital federal a essa realidade é uma necessidade premente para assegurar o conforto e a dignidade de todos.

Luiz Eduardo Sarmento é mestre em arquitetura e urbanismo pela Universidade de Brasília (UnB)

 

Onde pedir ajuda

- DECRIN presencial, no Complexo da PCDF, seg a sex, das 12h00 às 19h00, ou pelo número (61) 3207-4242;

- Mais de 35 delegacias de polícia de plantão em todo o DF — abertas 24 horas; 

- Disque 100 (funciona 24h, pode ser anônimo);

- Delegacia eletrônica da PCDF: https://www.pcdf.df.gov.br/servicos/delegacia-eletronica ou 197 (a denúncia pode ser anônima);

Se o idoso estiver em risco iminente, ligue para a PMDF, no 190. 

*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Pinho

Na próxima reportagem: vamos contar como o público 60+ tem lidado com situações de etarismo no DF. 

 

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