
Morreu na noite do último sábado (16/5), o jornalista esportivo Zé Antonio, aos 71 anos, após uma longa batalha contra um câncer na laringe. Figura emblemática do jornalismo esportivo de Brasília, ele construiu uma trajetória marcada por grandes coberturas, amizades profundas e uma "paixão quase infantil" pelo futebol.
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Durante anos, Zé Antonio fez da editoria de Esportes do Correio Braziliense mais do que um setor de jornal: transformou o espaço em uma família. O jornalista Luiz Roberto Magalhães, que trabalhou ao lado dele por mais de 15 anos, lembra que Zé Antonio foi o primeiro chefe de sua carreira, ainda nos tempos de estagiário. “Ele me disse que não tinha vaga para estagiário em Esportes, mas insistiu para eu ficar. Ele disse a Zé: "Não precisa pagar nada, eu venho aqui, é um prazer". "Fiquei seis meses antes de ser efetivado”, recorda.
Luiz Roberto diz que a convivência com Zé Antonio transformava o ambiente da redação. “Ele sempre foi uma pessoa muito generosa, divertida, com uma energia boa de estar perto. A editoria de esportes era uma família, e o Zé era o maestro daquilo tudo. Nunca conheci alguém mais apaixonado por futebol.”
A paixão pelo Vasco era quase uma extensão da personalidade. Colegas contam que ele assistia às partidas como se cada jogo fosse uma final de campeonato. Entre uma pauta e outra, formavam-se rodas para ouvir suas histórias, piadas e comentários sobre futebol. O diagramador Marcelo Ramos, amigo de mais de 30 anos, resumiu a relação que muitos tinham com ele. “Mais do que editor de esporte, ele foi nosso editor da amizade.”
Marcondes Brito, ex-editor do Correio Braziliense e atualmente colunista do Jornal de Brasília, destacou a capacidade de Zé Antonio de iluminar qualquer ambiente. “José Antônio era um daqueles seres humanos que iluminavam qualquer ambiente. Posso dizer, sem exagero, que foi um dos jornalistas mais talentosos e mais divertidos que conheci. Tinha um faro impressionante para notícia, uma inteligência rápida e um humor absolutamente inesquecível”, afirmou.
Os dois estiveram juntos em coberturas históricas, como a Copa do Mundo da Itália, em 1990. “A morte dele deixa uma tristeza enorme em todos nós que tivemos o privilégio de conviver ao seu lado”, completou.
O jornalista José Cruz lembrou do amigo como “o português mais carioca de Brasília”. Segundo ele, Zé Antonio trouxe para o Correio a experiência adquirida nos tempos de Jornal do Brasil e ajudou a formar gerações de profissionais. “Era um profissional brilhante, sem erro. Deixa saudade pelo companheirismo, pela amizade, pela brincadeira. O Zé foi um grande parceiro mesmo”, disse.
Foi também ele quem abriu portas para muitos colegas. José Cruz conta que recebeu de Zé Antonio um convite decisivo em um momento difícil da carreira. “Eu estava desempregado e ele me chamou para ocupar uma vaga na editoria de esportes. Devo muito a ele nesse sentido também.”
Dedicação e simpatia
O jornalista Sylvio Guedes, que foi editor de esportes e trabalhou ao lado de Zé Antonio por quatro anos no Correio, relembrou a chegada do profissional à capital. Zé Antonio veio do Rio de Janeiro na década de 1980 em um momento em que a redação se preparava para grandes coberturas.
Antes de adotar Brasília e construir sua família, ele havia enfrentado dificuldades no mercado carioca, chegando a viver da venda de camisetas. "Veio para agregar na equipe, tinha uma experiência de cobertura de futebol no Rio de Janeiro e era uma pessoa muito boa, muito afável", recordou Guedes.
De acordo com o relato do ex-editor, Zé Antonio era um profissional muito dedicado, esforçado e que gostava muito do que fazia. No dia a dia da redação, sua personalidade carismática ditava o tom do ambiente.
"Era basicamente uma figura, muito simpático, um português em essência misturado com carioca realmente, bigodudo, vascaíno, gozador, sem papas na língua", descreveu o amigo, destacando que ele gostava de brincar com suas origens suburbanas e lusitanas e que "deixava boa impressão e muitos amigos" por onde passava.
A trajetória dos dois também foi marcada por superações profissionais. Guedes conta que, devido a uma limitação de vagas na equipe enviada para a Copa do Mundo de 1986, precisou cortar Zé Antonio da viagem. O jornalista não desanimou, continuou trabalhando com a mesma dedicação de Brasília e, quatro anos depois, alcançou o objetivo.
"Na Copa de 90, ele foi pelo Correio Braziliense, realizou o sonho dele. Ele fez um trabalho muito bom, cobriu a seleção brasileira, que era realmente um sonho que ele realizou aqui. Vai deixar muita saudade", destacou.
Amizade além do trabalho
Mas talvez nenhuma fala revele tanto o homem por trás do jornalista quanto a de Eneila Reis, amiga próxima, ex-repórter de Esportes do Correio e madrinha da filha dele, Gabrielly. Foi ela quem esteve ao lado de Zé Antonio durante toda a luta contra a doença iniciada em 2021. “Eu era madrinha da filha dele. A gente virou muito amigo, tipo irmãos. Falava com ele todos os dias”, contou, emocionada.
Eneila descreve um homem incapaz de espalhar tristeza, mesmo nos momentos mais difíceis. “O Zé era uma pessoa que não deixava ninguém para baixo. Mesmo quando ele não estava bem, era sempre gargalhada. Sempre divertido”, lembrou.
Entre tantas memórias, ela guarda com carinho o convite para se tornar madrinha da filha do jornalista. “Talvez tenha sido o momento mais marcante da nossa amizade.”
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Nos últimos anos, o quadro de saúde de Zé Antonio se agravou por causa das complicações provocadas pelo câncer. Segundo Eneila, as internações se tornaram frequentes e o corpo foi ficando cada vez mais debilitado. “Os amigos perderam uma pessoa genial, uma pessoa do bem, que não tinha tempo ruim. Se fosse amigo, ele estava ali.”
Miguel Jabour, colunista do Viva Brasília, afirmou que Zé Antonio tinha “a rara capacidade de ser querido sem parecer fazer questão disso”. “Onde ele estivesse tinha uma rodinha para ouvir suas resenhas”, escreveu.
Zé Antonio deixa dois filhos, Gabrielly e Gabriel, e uma legião de amigos e colegas marcados pela alegria e pela energia que levava por onde passava.

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