LUTO

Artista plástico Paulo Andrade deixa legado de genialidade e coragem

Ícone da cena cultural do Quadradinho e pioneiro do Movimento Cabeças, o artista plástico morreu ontem, aos 72 anos. Em sua última exposição, Do golpe ao golpe, que está em cartaz, ele reafirmou seu olhar crítico sobre a realidade do país

Assinaturas autênticas, corajosas e bem-humoradas. Quem descreve a arte de Paulo Andrade usa essas principais virtudes para tentar nomear um pouco da genialidade que ele levava ao mundo. Ontem, a arte visual de Brasília perdeu o artista plástico mineiro, aos 72 anos, depois de passar por sérios problemas de saúde. Ele estava internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Paranoá. Paulinho, como era carinhosamente chamado, deixa três filhos: Clara, Flora e Dante, além de uma legião de amigos e um legado artístico que se confunde com a própria identidade cultural da cidade.

E mesmo com todos os desafios, o compromisso de Paulo com a urgência da arte e com o registro histórico do país não cessou. Há poucas semanas, o artista celebrou a inauguração da mais recente e expressiva mostra individual, Do golpe ao golpe, em cartaz no Espaço Cultural do Instituto Alvorada Brasil, na SCLS 109 Sul. A exposição reúne 22 obras entre pinturas em acrílico sobre tela e desenhos em técnica mista sobre papel aquarela.

Trata-se de uma crônica visual da política brasileira recente, cobrindo uma linha temporal de 2016 a 2023. Nas criações de Paulo estão retratados o rito do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a atuação do Congresso e do Judiciário, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, os desafios da pandemia e, por fim, os ataques democráticos do 8 de Janeiro.

Para o curador da mostra e produtor do Instituto Alvorada Brasil, Mauro de Deus, o amigo Paulo era conhecido pela irreverência e tom irônico nas telas que pintava. "Sempre teve um olhar crítico para a situação do país e transferia para as criações dele um pouco de humor. Os quadros que estão disponíveis na 109 Sul são fantásticos. O Paulo era um artista e um amigo que vai fazer muita falta", lamenta.

Trajetória internacional

A relevância de Paulo Andrade para o Distrito Federal vem de longa data. Logo após sua chegada, ele se tornou um dos pilares do histórico Movimento Cabeças, que revolucionou a cena cultural brasiliense nos anos 1970 com cartazes emblemáticos das ocupações que levam a sua assinatura. Também são dele as famosas serigrafias que imortalizaram o cotidiano do Beirute, querido bar da capital federal. Como programador visual de excelência, atuou intensamente no mercado editorial, ilustrando jornais, revistas e livros. E fez, ainda, alguns trabalhos gráficos para a Unesco, como cartilhas informativas sobre a HIV. 

No Correio Braziliense, teve uma passagem como ilustrador e responsável pela infografia, em 1993. Contudo, para além de todos esses ecossistemas, a maneira singular de olhar a vida e expressá-la na própria arte era diferente de tudo. As produções visuais de Paulo Andrade também mostravam muito de seu íntimo, com retratos do cotidiano e do ambiente familiar. Ao longo da carreira, transitou com fluidez pelo desenho, pintura, gravura, objetos em papel e esculturas em formato de pacotes que produziu durante suas duas passagens por Nova York. 

Explorador do mundo, o artista plástico também expôs em museus e galerias de diversas capitais brasileiras e do exterior, incluindo Washington e a Costa Rica. Em uma releitura célebre do clássico Assim Falou Zaratustra, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Paulo Andrade fez de Brasília uma metáfora erguida sobre suas invenções e provocações. Nas obras, ele faz uma crítica social e cultural quanto aos valores brasileiros, ilustrando índigenas gigantes que transitam pela cidade. 

Afeto e saudades

Para além das galerias, Paulo Andrade é lembrado pela generosidade e pelas memórias construídas ao longo de décadas no Quadradinho. A professora de arte e curadora Marília Panitz, 68, fala do amigo com profundo afeto e pesar. "Paulinho é um amigo da vida, daqueles de muitas aventuras. Ele desenhou meu convite de casamento, lá na década de 1970", recorda, destacando sua constante ligação com as principais manifestações culturais da capital.

A coragem e a resiliência do artista também são salientadas por Maria Helena de Carvalho, 75, mais conhecida como Marí. "Nossa amizade remonta ao século passado, quando nos conhecemos em Recife. Estivemos mais próximos no último ano, revivendo a vida, lembrando das coisas. Paulo deixa um registro muito importante na arte e na cultura de Brasília", ressalta.

Ana Costa, médica e amiga de Paulo Andrade, comentou, nas redes sociais, sua tristeza pela perda. "Minha última conversa com ele dizia que não temia a morte, mas preferia ver netos nascendo e gostaria de pintar mais quadros… Por isso, lutou e resistiu tanto como um Dom Quixote em combate!", disse.

Com a partida de Paulo Andrade, que ocorre cerca de um mês após a morte de Néio Lúcio — outro fundador do Movimento Cabeças — a capital federal perde mais um de seus pioneiros da contracultura. Fica, contudo, a ironia fina de suas telas na 109 Sul como um convite final ao pensamento crítico e à valorização cultural brasileira. É a última assinatura do gênio mineiro que encantou Brasília. "Artista longevo e de produção constante, deixa uma fortuna de imagens para nós que ficamos", completa Marília Panitz. 

Exposição do golpe ao golpe

» Onde: Espaço Cultural do Instituto Alvorada Brasil

» Endereço: SCLS 109, bloco B

» Horário: de segunda a sexta, das 16h às 18h30

» Entrada gratuita

» Classificação livre

» Obs.: o período da exposição não está definido

*Estagiária sob a supervisão de Malcia Afonso

Acervo Pessoal -
Mauro Di Deus/Divulgação -
Mauro Di Deus/Divulgação -
Maria Maia/Divulgação -
Maria Maia/Divulgação -
Arquivo pessoal -

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