CRÔNICA DA CIDADE

A educação salva: o poder transformador dos professores

A cada entrevista, descubro uma nuance diferente sobre o que move esses docentes. Na última coluna, publicada neste domingo, emocionei-me com a professora de artes Camilla Dantas, enquanto ela me contava a história de José Ferreira

Há pouco mais de quatro anos me lancei no desafio de escrever uma coluna mensal dedicada àqueles profissionais que acredito serem os maiores agentes de transformação do mundo: os professores. Dar visibilidade às pautas de educação sempre foi o meu propósito, por isso, a empreitada é prazerosa e creio que seja eu quem mais lucra com a oportunidade de ouvir e contar histórias tão inspiradoras. O ofício de colocá-las no papel é uma maneira de retribuir a confiança dos entrevistados e de compartilhar com os leitores o motivo do fascínio por cada uma das trajetórias relatadas.

Já me surpreendi com relatos de que não fazia ideia e me emocionei novamente ao ouvir alguns que conhecia, mas que mereciam destaque. Professores e professoras de Brasília são a maioria entre os personagens, mas a coluna Nossos mestres ouviu também expoentes da área em outras unidades da Federação. Da educação infantil ao ensino superior; da música à matemática, passando por cinema, gestão e arte; na rede pública ou no ensino particular. Não faltam sucessos para serem celebrados e reconhecidos. 

E a cada entrevista, descubro uma nuance diferente sobre o que move esses docentes. Na última coluna, publicada neste domingo, emocionei-me com a professora de artes Camilla Dantas, enquanto ela me contava a história de José Ferreira. A jovem artista ainda estava na graduação quando decidiu desenvolver um projeto de extensão com idosos em Taguatinga. A ideia era aproximá-los da arte e proporcionar uma vivência significativa.

Seu José Ferreira vivia numa instituição de acolhimento de idosos ligada ao Governo do Distrito Federal. Simpático e divertido, gostava muito de arte, como relata Camilla. As dificuldades que acumulou pelo caminho, no entanto, distanciaram-no dessa vocação e também do convívio com a família. "Conversávamos muito sobre arte, ele falava das experiências dele, dos museus que ele visitou, das artes de que gostava", conta.

Aos poucos, os dois foram se tornando amigos e José ficava a semana toda esperando o dia do ateliê da "dona Camilla", como ele a chamava, para conversar e aprender sobre pintura. Foram quatro meses de projeto, que culminaram em três exposições: na própria casa de acolhimento, na Universidade de Brasília (UnB) e no Museu Nacional. Tudo foi feito com vaquinha e com a ajuda de voluntários, ressalta a artista.

Nesse último evento, José preparou uma grande surpresa a todos. A barba longa e por fazer e as roupas encardidas deram lugar a um homem repaginado, com visual digno dessas transformações que comumente vemos nos programas de televisão. "Ele estava radiante. Com a filha dele, com a neta no colo, e fez um discurso", detalha a professora. Pouco depois, seu José voltou a morar com a família. 

Ele e Camilla perderam o contato, pois ela foi estudar fora do país. Em 2020, em meio à pandemia, a professora recebeu uma mensagem pelas redes sociais de um dos filhos do ex-aluno, que a agradeceu pelo projeto, que deu à família a chance de um recomeço juntos, e contou que seu José havia partido, depois de passar o último ano de vida se dedicando à pintura. "Eu fui uma ferramenta, o que mudou a vida dele foi a arte", orgulha-se a artista.

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Carlos Vieira/CB/D.A Press - Camilla Dantas, professora de artes