Luiz Francisco*
O dermatologista Thales Bretas está em Brasília para participar da exposição itinerante A infinita memória da pandemia: a história da covid-19 por todos nós, brasileiros, uma iniciativa organizada pelo Ministério da Saúde e que apresenta um conjunto de registros produzidos pela sociedade brasileira durante a disseminação da doença que matou milhares de brasileiros — incluindo o marido do médico, o ator Paulo Gustavo (1978-2021). Em conversa com as jornalistas Mariana Niederauer e Sibele Negromonte, na edição especial do CB.Poder — parceria entre o Correio e TV Brasília —, Bretas também destaca o legado que o artista deixou para as famílias homoafetivas.
O entrevistado relata que foi convidado pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para participar da exposição e se sentiu surpreso pelo convite por remeter à "pior época" da vida dele. "Não fui somente eu que tive essas lembranças. Foram mais de 700 mil pessoas no Brasil que passaram por um momento de apreensão e medo", declara Thales Bretas. "Embora seja uma causa muito triste, é muito nobre enxergar esse momento e saber aprender com erros e progressos, pois foi uma época em que a medicina teve descobertas e trouxe um desenvolvimento forçado", acrescenta.
Para o viúvo de Paulo Gustavo, a pandemia teria vindo para que as pessoas aprendessem a ser mais solidárias. Bretas se sente triste com os discursos negacionistas em relação às vacinas e, como um profissional da saúde, explica que a medicina é baseada em evidências e pesquisas até chegar à contribuição para a ciência. "Eu espero que esse movimento seja combatido com amor, sem a necessidade de violência. Isso serve para levantar o que nós vivemos e trazer a ciência como um marco que salva vidas", afirma.
O dermatologista destaca que Paulo Gustavo se tornou um dos símbolos do movimento a favor das vacinas, pois ele era porta-voz contra a "política negacionista". Para Thales, sua morte precoce, aos 42 anos, é uma alerta para os jovens que, mesmo saudáveis, podem contrair a doença e ficar em estado grave. "Paulo tinha uma asma leve, controlada com uma bombinha inalatória, e eu nunca tinha visto uma crise dele. Foi uma surpresa, mas traz uma realidade para a população de que a pandemia não é uma simples gripezinha", defende.
Lei Paulo Gustavo
Além da exposição, Thales Bretas destaca que o falecido marido deixa um legado com a Lei Paulo Gustavo, um programa que destina R$ 3,86 bilhões para o setor cultural. A legislação, criada para atenuar os impactos da pandemia de covid-19, direciona a maior parte do recursos ao audiovisual, além de contemplar diversas manifestações e linguagens artísticas. "É um marco para a história, para a vida de muitos brasileiros. Além de quebrar o preconceito, Paulo foi uma pessoa que sempre se preocupava com a cultura", observa.
O dermatologista assinala, ainda, que os filhos são o "maior projeto" da vida porque sempre quis ser pai mas, por ser gay, à época, não teve um exemplo de homossexuais que construíram uma família. "Existe uma grande parcela da população homossexual que quer formar uma família, e é muito importante quando recebo alguns feedbacks que dizem que a minha família inspirou outras pessoas", narra o pai dos gêmeos Romeu e Gael, de 7 anos.
Bretas também adianta o projeto de montar um instituto voltado para acolher famílias homoafetivas. A iniciativa foi apresentada em uma palestra que homenageia Paulo Gustavo e que, segundo ele, teve comentários positivos do público. "Eu sou um porta-voz dessa mensagem, pois além de ser pai, eu passei por um momento difícil. Mas a iniciativa ainda é nova e ainda estou buscando novos patrocinadores para tornar uma realidade", conclui.
*Estagiário sob a supervisão de Patrick Selvatti
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