
Um estudo pioneiro sobre violência de gênero no Distrito Federal mostra como os diferentes tipos de agressões impactam as vítimas. Os dados integram o Panorama da Violência Contra as Mulheres no DF, divulgado nesta sexta-feira (12/6) pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF) em parceria com a Secretaria da Mulher.
Para construir o panorama, pesquisadores escutaram 5.093 pessoas em diversas regiões da capital — 1.541 delas mulheres que relataram experiências de violência. O levantamento também entrou nos presídios: 39 homens condenados por feminicídio aceitaram, voluntariamente, ser entrevistados sobre os crimes cometidos contra suas parceiras.
Para Miriam Pondaag, psicóloga e especialista em violência de gênero, a autopercepção das mulheres é afetada por esses casos. Ela cita a teórica norte-americana Lenore Walker, para quem as mulheres costumam internalizar o discurso perverso de seus agressores, e isso impacta a própria identidade das vítimas, “perdendo a autoria da própria história”.
A professora da faculdade de direito da Universidade de Brasília Janaína Penalva afirma que a violência psicológica se conecta a uma consciência de si e à capacidade de a mulher de se autogovernar: “Você ser alguém que tem uma experiência psíquica que merece respeito não é algo que está acessível para todo mundo”. A professora aponta que, ao não se reconhecer como uma pessoa que vive violência psicológica, as mulheres estão apenas demonstrando o fato de não se reconhecerem como alguém que merece respeito.
Alice Silva* (nome fictício para proteger identidade), vítima de violência doméstica, contou ao Correio que passou por todos os tipos de agressão com dois homens diferentes, e que a violência psicológica tem o poder de aprisionar a vítima: “Te deixa imobilizada, incapaz, com um sentimento profundo de tristeza e inferioridade. Só percebi o que vivi quando saí das mãos do agressor”. Ela relata que só identificou e denunciou as violências quando levou um tiro do então namorado em uma discussão. Para a vítima, os pesadelos com o agressor só acabaram quando ele morreu de câncer.
A psicóloga Miriam aponta que mulheres sem rede de apoio são mais suscetíveis à vivenciar o isolamento e ficam à mercê do autor da violência. A especialista explica que socialização de gênero constrói nas mulheres a percepção de que elas precisam se relacionar com um homem, serem escolhidas para terem valor. Com isso, as mulheres acreditam que não são capazes de gerir a vida sozinhas.
Além dos fatores psicológicos, Miriam destaca que fatores como a dependência financeira são motivos de manutenção do vínculo entre vítima e agressor. Por isso, devem existir políticas públicas que amparem e promovam a autonomia econômica das mulheres.
*Nome fictício usado para proteger a identidade da vítima
*Estagiária ob supervisão de Eduardo Pinho

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