Por Jorge Henrique Cartaxo*
Jubiabá é um dos clássicos de Jorge Amado, publicado em 1935. O romance conta a história de Antônio Balduino — o Baldo — que vai da vida de pequeno meliante — no morro do Capa-Negro, em Salvador —, malandro capoeirista, até se tornar o líder popular ciente da sua classe, raça e cor. Foi lendo Bahia de tous les saints, a versão em francês da história de Baldo, que Marcel Gautherot passou a ter interesse e curiosidade sobre o Brasil.
Filho de operários, nascido em Paris, Gautherot tinha 15 anos, em 1925, quando matriculou-se no ateliê de arquitetura da École des Arts Décoratifs de Paris. Era um momento de grande interesse pelos ensembliers-décorateurs. A expansão da indústria e do mundo das coisas e dos objetos, os novos hábitos e estilos, uma nova vida urbana que se desenhava. A Exposition Internationale des Arts Décoratifs Modernes de 1925, em Paris, indicou a singularidade do momento e o início do diálogo do gosto com as formas e os traços modernistas. Em 1927, na cidade de Stuttgart, na Alemanha, a liga germânica de artistas e artesãos (Werkbund) realizou a primeira exposição pública de um modelo de cidade com seus novos estilos de viver e morar. Coordenavam esse movimento Peter Behrens, Walter Gropius, Le Corbusier, Mies Van der Rohe e Pieter Oud, arquitetos a caminho da fama na feição do Modernismo em construção.
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Marcel Gautherot esteve lá nutrindo a sua proximidade e identificação com o esprit nouveau. Certamente, ele se fez presente também no estande da Alemanha, montado por Herbert Bayer — professor da Bauhaus —, na Exposition Internationale des Artisites Décorateur, em Paris, em 1930. No Congresso de Arquitetura, nas montanhas de Sohlberg, também em 1930, Marcel Gautherot, agora militante do movimento da juventude "não conformista", era um dos conferencistas do encontro. Brandindo as teses de Le Corbusier, Gautherot, com 20 anos, divergiu da arquitetura francesa, notadamente quanto ao regionalismo dos modelos de habitação.
A Maison de La Culture, uma espécie de fórum de políticas culturais do Front Poulaire, era também um ponto de encontro de artistas e intelectuais progressistas, socialistas e de esquerda. Em abril de 1935, a exposição Affiche-Photo-Typo, organizada pela Maison, trouxe, pela primeira vez, o nome de Marcel Gautherot associado, ainda que indiretamente, à fotografia. Além dele, destacavam-se Pierre Boucher, Fecher, René Zuber e Pierre Verger. Todos integrantes da prestigiada Alliance Photo, a primeira agência de fotografia de caráter internacional da França.
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Em 1936, os antropólogos Paul Rivet e Georges Henri Rivières dirigiam a instalação, no Palais de Chaillot, do Museu do Homem. O novo museu etnográfico era parte da preparação da Exposition Internationale des Arts et Technique dans la Vie Moderne, onde seria apresentada para o mundo, pela primeira vez, a Guernica, de Picasso, em 1937. Naquele mesmo ano, como arquiteto-decorador das exposições etnográficas, Marcel Gautherot integrou a reconhecida e festejada equipe do Museu do Homem. Na nova atividade, ele ficaria amigo do fotógrafo Pierre Verger que lhe introduziria no métier da documentação e da arte fotográfica. O envolvimento com a fotografia foi quase imediato e, já em abril de 1936, Marcel Gautherot embarcou para o México, tendo o apoio da equipe do Museu do Homem, portando uma agenda para fotografar a contrastante e diversa paisagem humana, cultural e arquitetônica da nação mexicana.
Em maio de 1940, os nazistas invadiram a França e houve uma diáspora no país. Marcel Gautherot, que já havia fotografado a Amazônia para o Museu do Homem, em 1939, decide se estabelecer definitivamente no Brasil. Em companhia de Pierre Verger, ele teria adentrado o SPHAN dirigindo-se à sala de Lucio Costa com uma pasta de fotos da Grécia em mãos. Lucio ficou encantado com o material que viu e o levou a Rodrigo de Melo Franco. Em pouco tempo, o talentoso francês já era amigo de Oscar Niemeyer, Burle Marx, Alcides da Rocha Miranda e Mário de Andrade. O valor da fotografia como documento e registro da memória arquitetônica e cultural do Brasil era uma demanda crescente dentro do SPHAN. Gautherot chegou em boa hora!
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Em 1942, quando Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, convidou Oscar Niemeyer para projetar e edificar o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, Marcel Gautherot tornou-se o fotógrafo preferido do nosso príncipe do Modernismo brasileiro. Mas não só: Roberto Burle Marx, Affonso Eduardo Reidy, Lucio Costa e Alcides da Rocha Miranda, com frequência, convocavam suas lentes e imagens. Ele fotografou ainda a cultura, o folclore e os monumentos de todo o Nordeste e do Norte brasileiros; as cidades históricas de Minas, o Sul, o Sudeste e o Brasil Central. Desde os anos 1920, mas sobretudo a partir da década de 1930, a fotografia deixou de ser apenas o registro de um objeto, de uma edificação, de uma cena, de pessoas ou de paisagens. No jogo de sombra e luz, a fotografia adquiriu o status de arte com linguagem própria, específica, conceitual e valorativa. Ela era também o olhar, a percepção, a sensibilidade e a inquietude do fotógrafo.
Quando teve início a construção de Brasília, Niemeyer entendia que precisava de imagens que acompanhassem os símbolos e representações do que seria a nova capital do Brasil. E essas imagens iriam percorrer o país e o mundo, consolidando e legitimando o Modernismo brasileiro. Mais do que registro, era preciso sedução, magia, encantamento e abstração. Assim, Marcel Gautherot produziu mais de sete mil fotos que se espalharam por revistas, exposições e jornais, no Brasil e nos continentes, cumprindo rigorosamente aquilo que Lucio Costa e Niemeyer pensavam da nova cidade. Ferro, vidro e concreto parecem brotar do chão, nas lentes sensíveis de Gautherot, transformando-se em curvas líricas e edifícios encantados em construção.
Como lembrou a professora Heloisa Spada, citando a sua colega Ana Luiza Nobre — refinadas estudiosas do tema —: "a qualidade plástica de suas imagens contribuiu decisivamente para a divulgação e para a valorização da arquitetura moderna brasileira, a ponto de ser difícil pensá-la sem recorrer às imagens de Gautherot".
*Jorge Henrique Cartaxo é jornalista e mestre em história pela Universidadede Paris-Sorbonne
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