O roubo de fios — crime na mira da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) — causa prejuízos financeiros, interrompe atividades comerciais e amplia a sensação de insegurança entre moradores e trabalhadores de diferentes regiões. Nesta semana, uma operação deflagrada pela Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (DOT/Decor) desbaratou um esquema bilionário de receptação de cabos furtados da iluminação pública.
Quem convive com o problema reclama da falta de energia constante e impactos na rotina. Em Arniqueira, a responsável por um Eletroposto na Avenida Vereda Cruz, Gabriela Teixeira, 29 anos, afirma que o dispositivo sofreu três furtos em um ano de funcionamento. Segundo a empresária, os criminosos levaram inicialmente parte da fiação e retornaram dias depois para retirar toda fiação. Após a manutenção dos equipamentos, o local voltou a ser alvo dos ladrões. A empresária acredita que o aumento do policiamento durante a madrugada poderia ajudar a prevenir novas ocorrências. “Só de passar mais por aqui já ajudaria”, avalia.
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Segundo Gabriela, o prejuízo acumulado é de R$ 30 mil com a substituição de seis mangueiras, que custam R$ 5 mil cada, utilizadas para carregar os veículos elétricos. "Não fizemos a manutenção novamente até ver a logística para não ser furtado de novo. Estamos avaliando porque além da perda financeira e estamos sem faturar. É um mix revolta e tristeza. A gente se esforça para ter algo e não vai para frente", disse.
Na Asa Norte, o reflexo dos furtos é percebido pelos moradores. Zelador de um condomínio na 216, Manoel Argamenom, 58, relata que as interrupções de energia tornaram-se frequentes. “A cada 15 dias nós estamos tendo esse tipo de problema. Parece que estamos a mercê da marginalidade. É um sentimento de insegurança. Temos muitos idosos que dependem do elevador. Quando tudo fica no manual, qualquer pessoa pode entrar pelos portões e acontecer algo pior”, conta.
Na mesma região, o comerciante, José Carlos da Costa Silva, 45, proprietário de uma cafeteria, na 711 Norte, descreve que os furtos afetam constantemente os estabelecimentos comerciais. Segundo ele, a interrupção do fornecimento de energia já danificou seus equipamentos. “Aqui o que mais temos são roubos de fios e de carros. Diversas vezes falta energia durante o atendimento. Já perdi liquidificadores e chaleiras. A Asa Norte está terrível”, enfatiza.
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Moradora do Guará há 30 anos, Siladir Antunes, 55, também reclama dos constantes desligamentos. Embora não saiba afirmar se todas as ocorrências estão relacionadas aos furtos de cabos, ela diz que a falta de energia tem se tornado mais frequente. “É muito ruim porque a energia cai e você não sabe que horas vai voltar. Você liga e ninguém dá informação. A gente paga imposto, paga conta de luz justamente para ter iluminação e segurança”, ressalta.
Perdas
De janeiro a junho deste ano, a CEB IPes registrou o furto de 49km de cabos da rede de iluminação pública, um prejuízo de R$ 971 mil. No ano passado, foram furtados 96km de cabos, com perdas de R$ 1,9 milhão. As regiões do Plano Piloto, Lago Sul, Sobradinho, Santa Maria e Ceilândia são as mais afetadas. Como forma de reduzir os impactos, a companhia iniciou testes com cabos de alumínio, material que possui menor valor comercial e desperta menos interesse dos criminosos.
A Neoenergia Brasília também registrou números expressivos. Apenas nos cinco primeiros meses de 2026, foram contabilizadas 687 ocorrências e tentativas de furto de cabos elétricos, sendo 418 delas concentradas nas Asas Sul e Norte. O prejuízo estimado no período chegou a R$ 455 mil.
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Para enfrentar o problema, a CEB IPes e a Polícia Militar (PMDF) assinaram na última segunda (22), um termo de cooperação técnica para combater furtos, roubos e receptação de cabos, fios e equipamentos da rede de iluminação pública. A parceria prevê o mapeamento da rede de iluminação, integração com o programa DF 360, uso de drones e instalação de câmeras em postes para monitoramento em tempo real.
Durante a assinatura do acordo, a governadora Celina Leão destacou que os equipamentos serão conectados ao sistema de segurança pública do DF. “Os nossos postes vão agora ter câmeras também e essas câmeras serão ligadas ao nosso programa DF 360, ou seja, uma integração dessa área de tecnologia da iluminação pública com a nossa área da segurança”, afirmou.
Operação
A Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (DOT/Decor), realizou na última quinta (25), uma investida contra um esquema sofisticado de receptação, lavagem de dinheiro e fraude tributária. A operação cumpriu 26 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Minas Gerais, Tocantins e Paraná.
Durante as buscas, os investigadores identificaram dois núcleos criminosos integrados. O primeiro era formado por pessoas físicas e jurídicas ligadas ao comércio de sucatas e reciclagem de metais. Segundo a PCDF, todo o cobre comercializado por esse grupo tinha origem criminosa.
A investigação apontou que esse núcleo recebeu mais de R$ 45,5 milhões de uma empresa de fachada localizada em Tocantins, sem a emissão de notas fiscais que justificassem as transações. Conversas interceptadas revelaram um mercado estruturado, com concorrência entre receptadores, definição de preços conforme a qualidade do cobre e fornecedores fixos para abastecimento do material furtado.
O segundo núcleo da organização utilizava 21 empresas noteiras no Distrito Federal. Nove delas já haviam sido autuadas pela Receita do DF. Registradas em nome de laranjas e sem estrutura física ou funcionários, essas empresas emitiram mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais para uma empresa de fachada localizada em Tocantins.
Em apenas 11 meses, entre 2023 e 2024, a empresa de fachada movimentou mais de R$ 1,8 bilhão. Além disso, o operador da organização realizou saques em espécie que ultrapassaram R$ 25,5 milhões. Diante das evidências, a Justiça determinou o bloqueio de mais de R$ 239,2 milhões em bens, direitos e valores dos investigados.
