
A colisão entre um jet ski e uma lancha no Lago Paranoá em 28 de junho voltou a chamar a atenção das autoridades para a segurança de pilotos e banhistas. O acidente foi registrado no final da tarde, nas proximidades da Ponte JK, e a mulher que pilotava a moto aquática teve suspeita de traumatismo craniano.
Em 2025, o Lago registrou 13 acidentes. No ano anterior, tinham sido 14. Em 2026, ao menos três foram contabilizados pela Marinha. As causas não foram divulgadas.
Caiaqueiros e pescadores que frequentam o local estão temerosos em manter suas atividades. Uma caiaqueira, que preferiu não se identificar, relatou ao Correio já ter flagrado menores de idade e condutores alcoolizados dirigindo motos aquáticas. Frequentadora há 17 anos, ela conta que muitos banhistas e pescadores não se sentem seguros no lago, com receio de serem atropelados.
"No mesmo domingo em que aconteceu esse acidente grave entre o jet ski e a lancha, duas jovens passaram e quase colidiram com o deck em que estávamos, em frente à Polícia Ambiental", contou. De acordo com a caiaqueira, seu companheiro também frequenta o Lago Paranoá e, frequentemente, vê pessoas alcoolizadas dirigindo lanchas e outros veículos aquáticos. "Está extremamente arriscado andar por aqui", reforçou.
Alertas
O Comando do 7º Distrito Naval — representante da Marinha Brasileira na capital — e o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) alertam a população sobre os cuidados que devem ser tomados para evitar tragédias.
Conduzir sob efeito de álcool e embarcar em áreas de restrição são os maiores causadores de acidentes com vítimas no Lago Paranoá. Segundo o Comando, a falta de habilitação, a ausência de itens de salvamento e o excesso de passageiros também fazem parte dos comportamentos de risco registrados com maior frequência entre o público e os condutores de veículos aquáticos.
A orientação é cumprir as regras obrigatórias. Estar com a Carteira de Habilitação de Amador (CHA) em dia é uma delas. E cada tipo de veículo requer uma habilitação específica. Enquanto o documento de arrais-amador concede a permissão para conduzir embarcações nos limites da navegação interior (lanchas, barcos a motor e veleiros que possuam motor), para jet skis é necessário ter a habilitação motonauta, que dá permissão para conduzir motos aquáticas.
Ainda de acordo com o Comando, é indispensável carregar equipamentos, como coletes, boias salva-vidas e extintores de incêndio. Outra orientação é sempre estar de olho na quantidade de combustível, o que pode evitar o risco de ficar à deriva.
Para se prevenir contra afogamentos, abrir mão da ingestão de bebidas alcoólicas também é uma orientação do Corpo de Bombeiros. De acordo com a corporação, outro fator que mais causa acidentes é o excesso de autoconfiança. Superestimar a própria capacidade de natação pode resultar na perda de controle na água, assim como incitar brincadeiras perigosas entre os amigos, como desafios de natação, competições de quem nada mais longe e saltos de ponta.
Materiais como tampas de isopor, colchões infláveis e câmaras de pneu são recorrentemente encontrados no lago. Esses lixos podem, igualmente, causar acidentes e, por isso, são considerados materiais flutuantes sem certificação.
Os bombeiros advertem, ainda, contra tentativas de salvamento. Caso veja terceiros se afogando na água, o ideal é tentar um resgate alternativo, buscando itens que flutuem, para serem jogados para a pessoa (colete salva-vidas, boias e até mesmo uma corda). E sempre acionar o telefone 193, evitando tentar alcançar a vítima, caso não se sinta seguro e preparado para ajudar.
Perigo oculto
O professor de medicina legal da Universidade de Brasília (UnB) Malthus Galvão lembra que o álcool reduz a capacidade de autopercepção, de modo que a pessoa embriagada acaba acreditando estar conduzindo normalmente. "Justamente quando suas habilidades já se encontram significamente comprometidas", destaca o especialista.
Um dos exemplos citados por Malthus para demonstrar a redução de habilidade dos condutores alcoolizados é o tempo de resposta a possíveis imprevistos e demais sinalizações das vias. Um veículo dirigido a 72km/h percorre cerca de 20 metros por segundo. Ou seja, um único segundo na demora de percepção do condutor, faz ele percorrer 20 metros antes mesmo de ele começar a frear.
Ainda segundo o professor, apesar da velocidade ser menor nas embarcações recreativas em comparação aos veículos terrestres, a resposta dessas embarcações é muito menos imediata. "Tanto a frenagem quanto as mudanças de direção dependem das características hidrodinâmicas da embarcação, exigindo maior espaço e maior tempo para evitar um obstáculo", explica Malthus. O resultado disso é que qualquer atraso provocado pela percepção alterada pelo álcool pode tornar inevitável uma colisão que "em condições normais, talvez pudesse ser evitada", detalhou.
Ele explica, por fim, que a gravidade de uma colisão não aumenta de maneira proporcional à velocidade da direção. Em vez de dobrar, ela multiplica por quatro vezes a força da colisão. "A energia cinética de um corpo é proporcional ao quadrado da velocidade", esclareceu. Assim, velocidades que podem ser consideradas baixas para uma lancha ou jet ski já são suficientes para produzir colisões extremamente violentas, podendo causar traumatismos graves, e até mesmo fatais. Em especial nos casos em que a vítima é projetada contra outra embarcação, píer ou contra a própria superfície da água.

Cidades DF
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