CB.AGRO

Alerta a produtores locais de uvas e citros para o cancro da videira

Em entrevista ao CB.Agro, o secretário de Agricultura, Rafael Bueno, destaca os riscos de pragas agressivas em videiras e pomares do Distrito Federal. Até o momento, foram registrados dois casos de cancro bacteriano da videira

Secretário de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do DF, Rafael Bueno, explica sobre doenças que representam uma ameaça à fruticultura -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Secretário de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do DF, Rafael Bueno, explica sobre doenças que representam uma ameaça à fruticultura - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O avanço de doenças que podem comprometer a produção de uvas e citros acendeu um sinal de alerta no Distrito Federal. Em entrevista ao CB.Agro — parceria do Correio Braziliense e da TV Brasília — desta sexta-feira (3/7), o secretário de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do DF, Rafael Bueno, conversou com os jornalistas Sibele Negromonte e Roberto Fonseca sobre a identificação de dois casos de cancro bacteriano da videira no DF, além da vigilância contra o greening (doença mais destrutiva da citricultura) e o cancro cítrico, que representam uma ameaça à fruticultura da região. Segundo o secretário, embora nenhuma delas ofereça riscos à saúde humana, todas podem causar grandes prejuízos econômicos aos produtores e comprometer a qualidade e o preço dos alimentos aos consumidores. 

Como identificar o crancro bacteriano da videira
Como identificar o crancro bacteriano da videira (foto: Reprodução/Seagri)

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Quais são os riscos do cancro bacteriano da videira e o que isso significa na prática?

Os produtores do DF têm feito grandes investimentos. Infelizmente, durante os levantamentos anuais realizados pela Defesa Agropecuária, com a participação da Embrapa, detectamos o cancro bacteriano da videira em duas amostras coletadas. Essa é considerada uma das doenças mais graves para a videira em todo o mundo. No Brasil, havia registros apenas na Bahia, Pernambuco, Sergipe e Roraima. Desta vez, encontramos a doença em duas propriedades do DF: uma no PAD-DF e outra em Brazlândia. As propriedades ficam em regiões distantes entre si, mas apresentam uma característica em comum. Nossa principal suspeita é que a contaminação tenha ocorrido por meio do porta-enxerto, que é a planta utilizada como base para a enxertia da variedade que será cultivada. Ainda assim, existem outras formas possíveis de transmissão. O cancro bacteriano reduz drasticamente a produtividade. Na uva de mesa, os cachos perdem valor comercial porque os frutos ficam pequenos e muitos morrem antes do amadurecimento. Já na produção de vinhos, o problema é ainda maior, porque as uvas não acumulam açúcar suficiente, comprometendo a fermentação e a qualidade da bebida. Além disso, a bactéria provoca lesões nas folhas e nos ramos, dificultando a circulação da seiva. Com menos nutrientes chegando aos frutos, a produção cai significativamente. É por isso que estamos em estado de alerta.

As regiões onde os casos foram identificados passam a ser monitoradas?

Como se trata de uma doença de notificação obrigatória ao Ministério da Agricultura, estabelecemos áreas de monitoramento ao redor dos focos. No raio de 5km, todas as propriedades foram vistoriadas e, onde havia videiras, coletamos material para análise em um laboratório de referência do Ministério da Agricultura. No raio de 10km, seguimos realizando monitoramento e observação. O produtor também pode contribuir muito, porque a doença apresenta sintomas característicos. Ao identificar necrose nos ramos, manchas escuras nas folhas cercadas por um halo amarelado ou alterações no caule, deve entrar em contato imediatamente com a Secretaria de Agricultura ou procurar um escritório da Emater-DF. Também lançamos uma cartilha explicando como identificar o cancro bacteriano da videira. Outra medida essencial é higienizar as ferramentas de poda com solução de hipoclorito de sódio a 10%, sempre que passar de uma planta para outra. Os equipamentos nunca devem ser compartilhados entre propriedades. Talvez a orientação mais importante seja adquirir mudas apenas de viveiros certificados pelo Ministério da Agricultura, registrados no Renasem, acompanhadas do Certificado Fitossanitário e da Permissão de Trânsito de Vegetais (PTV). Assim, o produtor tem mais segurança de que está adquirindo uma muda saudável.

Existe algum risco para a saúde humana ao consumir uvas ou vinhos produzidos a partir de plantas contaminadas?

Não. De forma alguma essa doença é transmitida ao ser humano. O prejuízo é exclusivamente econômico e restrito às plantas. A população pode continuar consumindo uvas e vinhos normalmente. O problema é que as uvas deixam de apresentar o padrão exigido pelo mercado, ficando menores, murchas e sem sabor. No caso do vinho, a baixa qualidade da fruta acaba interferindo também na qualidade da bebida.

O greening e o cancro cítrico ainda não foram confirmados no DF, mas estão próximos das divisas da capital. Isso também preocupa?

Sim. A Secretaria de Agricultura também elaborou uma cartilha sobre o greening, doença que afeta os citros. Existe um caso confirmado em Cidade Ocidental, a cerca de 12km da divisa com o DF, conforme notificação da Agrodefesa. Esse é um importante sinal de alerta. O greening é considerado a pior doença dos citros no mundo. Foi responsável pela erradicação de grandes pomares nos Estados Unidos e provocou enormes prejuízos econômicos em São Paulo. Em relação ao cancro cítrico, ainda aguardamos a confirmação laboratorial. Durante uma fiscalização de rotina próxima à Ceasa, inspecionamos cerca de 210 mil quilos de frutas e identificamos aproximadamente 300 quilos com características compatíveis com a doença. As amostras foram encaminhadas ao laboratório do Ministério da Agricultura. Pelas lesões observadas, há forte suspeita de que seja cancro cítrico, por isso já notificamos a Agrodefesa. Essa doença tem uma característica muito preocupante: é a única doença dos citros em que um fruto colhido pode transmitir o patógeno para uma planta saudável. Isso representa um grande risco para os quase 400 hectares de citros existentes no DF.

Qual é a importância das cartilhas produzidas pela Secretaria de Agricultura?

Nosso principal objetivo é prevenir. Queremos proteger os investimentos realizados pelos produtores do DF e evitar a entrada dessas doenças, que podem comprometer toda a produção agrícola. Se a oferta de frutas diminui, o consumidor também sente os impactos, com aumento dos preços. Além disso, é fundamental que os produtores não adquiram mudas comercializadas de forma irregular, muitas vezes vendidas à beira das rodovias, porque isso coloca toda a produção agropecuária do Distrito Federal em risco.

Assista à entrevista

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postado em 04/07/2026 05:00
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