
Aos 51 anos, Marcia Pereira da Silva está perto de finalizar sua primeira graduação. Durante a pandemia, ela se preparava para entrar em uma faculdade enquanto trabalhava em meio período em um call center quando conheceu a Educafro, uma rede de núcleos de cursinhos pré-vestibulares e preparatórios para concursos populares em várias capitais do Brasil, incluindo o DF. Com apoio da instituição, ela se mudou para Brasília há três anos para cursar administração pública.
A Educafro não se limita às aulas. Fundada por Frei David Santos, a organização luta pela igualdade racial no país. Com atuação na Justiça, ela move ações civis públicas para exigir o cumprimento da Lei de Cotas, combater fraudes em bancas de heteroidentificação e responsabilizar instituições por casos de racismo institucional.
No caso de Marcia, a organização a ajudou com uma bolsa-auxílio durante a fase preparatória e para pagar as inscrições. No total, para prestar diferentes processos seletivos, o valor chegava a cerca de R$ 500. "Como estudante de administração pública, entendo a importância de facilitar a informação e o acesso para não reproduzir mais barreiras para quem nunca tem acesso", afirma.
Leia também: Vacinação de gestante reduz casos graves de bronquiolite em bebês
Marcia vem de uma família de agricultores no interior da Bahia. Sua mãe trabalhou dos sete aos 10 anos em trabalho análogo à escravidão, fazendo companhia para a filha de um fazendeiro. A mãe conseguiu fugir escondida em um trailer de transporte de animais de exposição, e, aos 15 anos, ela se mudou para São Paulo Marcia.
Foi na capital paulista que Marcia cresceu e trabalhou por anos na área operacional de companhias aéreas. Ao notar a precarização crescente do setor, ela teve a vontade renovada de fazer uma graduação. A estudante conquistou bolsa integral na Fundação Getulio Vargas (FGV) e, por meio dos encontros da Educafro, ela também teve a oportunidade de conversar sobre questões de gênero e de raça, o que mudou sua visão de mundo. "É possível mudar a realidade por meio da educação", enfatiza.
Direitos
Estudantes da Educafro recebem apoio para acessar o ensino superior e, em contrapartida, devem participar de reuniões da entidade. "A gente consegue que haja a mesma carga horária de cidadania, direitos humanos e constitucionais que matérias cobradas em vestibulares. O aluno passa a entender que não basta saber matemática, é preciso saber seus direitos e lutar por eles", afirma Frei David.
Leia também: Presidente da Caesb afirma que empresa trabalha para evitar prejuízos aos clientes
Ainda de acordo com o fundador, há mais de 4 mil associados no Distrito Federal. Daniel Souza, coordenador da Educafro em Brasília, destaca a transformação pela qual os estudantes passam, especialmente no quesito da autoestima. "Muitos chegam acreditando que determinados espaços não foram feitos para eles. Aos poucos, descobrem que não lhes faltava capacidade, faltavam oportunidade e incentivo", observa.
Assim como Frei David, Souza enfatiza a formação de pessoas com interesse em fazer mudanças. "Nós queremos formar excelentes médicos, juízes, diplomatas e professores. Mas queremos, sobretudo, formar pessoas comprometidas com a redução das desigualdades."
Maria Isabel Sales é uma das participantes interessadas nisso. Ela cursava economia quando uma colega da faculdade falou sobre uma organização que auxiliava no processo de conquista de bolsas de estudo. Tratava-se da Educafro. Depois de conhecer a entidade, Maria Isabel decidiu mudar de curso e se formou em direito. Paralelamente à graduação, passou a participar das mobilizações da entidade em defesa dos direitos da população negra. Foi durante uma dessas agendas, em Brasília, para discutir o Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador Paulo Paim (PT), que ela recebeu o convite para se tornar assessora legislativa do parlamentar.
Ao longo dos 18 anos em que está no cargo, ela participou da construção de diferentes políticas públicas. Entre elas está a Lei nº 13.847/19, que dispensa aposentados por invalidez vivendo com HIV/aids de passarem por reavaliações periciais periódicas; a criação do Dia Vinte de Novembro, como feriado nacional; e a tipificação da injúria como crime de racismo. Maria Isabel também acompanhou iniciativas voltadas ao enfrentamento do racismo nas escolas. "Ao contribuir para essas políticas, me sinto muito realizada", afirma.
Cidadania
O interesse pela cidadania, conta ela, começou na infância. Moradora do bairro Parque Bristol, em São Paulo, acompanhava a mãe na organização de abaixo-assinados para reivindicar melhorias como pavimentação de ruas, instalação de orelhões e iluminação pública. Com a Educafro, ela conseguiu ampliar essa atuação. "A organização propicia um olhar diferenciado para realidade e nos mostra que é possível termos um país digno, sem racismo, sem desigualdade, sem preconceitos, sem misoginia e com oportunidade para todas, todos e todes", diz.
Já Sara Almeida Vargas, de 22 anos, nasceu e mora no Distrito Federal, em Sol Nascente. Ela estava prestes a concluir o ensino médio quando soube da Educafro por meio de sua irmã mais velha. Apesar das boas notas e do interesse em procurar espaços no ensino superior, Sara estava na dúvida se dava sequência aos estudos ou se começava a trabalhar para ajudar a pagar as contas de casa. "Sempre há o medo de que não vai ter retorno", conta.
A organização foi a ponte que Sara precisava para alcançar a FGV, viabilizando o pagamento da taxa de inscrição e intermediando as tratativas para a conquista de uma bolsa. "Pude me ver pertencente a espaços onde antes não me imaginava. Foi o ponto de partida para construir minha trajetória profissional", relata.
Hoje, formada em administração pública pela FGV e cursando mestrado na mesma faculdade, ela está satisfeita com sua escolha de correr atrás de uma graduação. No entanto, ela pontua as dificuldades enfrentadas pela sua comunidade. Muitos chegam da escola e precisam ajudar na rotina doméstica, preparar comida e cuidar da família. Para ela, cada conquista amplia a responsabilidade de quebrar essas barreiras.
*Estagiária sob supervisão de Tharsila Prates
Saiba Mais

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF