
Conhecer a história para não cometer os mesmos erros, mas também como uma forma de preservar os caminhos que nasceram graças aos que vieram antes. Esse é um dos mantras da programação de visitação ao Congresso Nacional, que agora conta com uma poderosa estratégia: as visitas encenadas. Durante o recesso escolar, o tradicional tour pelas dependências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal ganha a companhia de atores que interpretam figuras históricas brasileiras.
A iniciativa coincide com as celebrações dos 200 anos do Poder Legislativo no Brasil e busca desmistificar a distância entre a população e os parlamentares por meio da emoção e da interatividade. "Essa visita quer aproximar ainda mais o cidadão do parlamento. O tour com o teatro tem esse objetivo de tocar o cidadão num lugar um pouco mais profundo, trazendo a história do parlamento, a história do Brasil, como se ele estivesse vivendo essa história ali, diante dos olhos dele", explicou Juliana Borges dos Santos, diretora da Secretaria de Relações Públicas do Senado.
Para Débora Achcar, assessora técnica do programa de visitação do Congresso Nacional, o roteiro das peças é fruto de uma construção coletiva, amparada por pesquisas junto aos consultores legislativos da Casa, com o intuito de ilustrar o quanto as conquistas coletivas sociais são importantes. "É para mostrar, também, como é a construção dos direitos, porque eles não aparecem de um dia para o outro. Quanto mais tiver participação, melhor", enfatizou Débora.
Impacto
O formato lúdico tem agradado a visitantes de todas as idades, além de se consolidar como uma ferramenta didática para gerações que são o presente e o futuro. O jovem João Gabriel Moraes Pereira, 15 anos, veio de Minas Gerais com a família para conhecer o Congresso. Ele, que sonha em ser historiador, emocionou-se ontem ao conhecer parte de um passado crucial para a democracia brasileira.
"É muito interessante estar aqui, neste lugar onde só vemos políticos. Mas é muito legal que consigamos ver, assim de perto, pessoas que realmente fizeram algo de bom pelo nosso país", completou. João Francisco Pereira, 70, pai de João, conta que atividades como essa celebram a vida daqueles que lutaram por um Brasil melhor. "Acho que é importante que o meu filho conheça a história do país no qual ele vive", acrescentou.
O turista paulista Edson Lopes, 54, que conhecia o Congresso de visitas anteriores, aprovou a visita guiada e não imaginava que a interatividade com os atores seria tão impactante. "Achei bem elucidativa, chamou bastante atenção a atuação deles. Ficou mais prático, objetivo, gostei desse formato", relatou.
Amor em família
A emoção de reviver o passado atravessou fronteiras regionais e cativou famílias inteiras, como a dos turistas baianos Alan Rodrigues de Azevedo, 45, e Mara Rebouças, 42. Em uma viagem rápida, o casal fez questão de incluir o Congresso no roteiro e foi surpreendido pelas encenações."Fiquei bastante emocionado. Acho que a gente deu sorte porque foi um formato diferente, com algumas peças teatrais de representantes da nossa história. A gente conseguiu perceber o passado e vivenciar o presente com boas perspectivas para o futuro", relatou Alan.
Para Mara, a imersão cultural foi uma oportunidade única de formação para os filhos do casal, Laura e Felipe, que acompanhavam os pais. "É de extrema importância poder proporcionar a eles uma visita na qual consigam vivenciar essa história. Saímos daqui certos de que o futuro nós construímos e de como é importante vivenciar a nossa história para dar valor", afirmou a mãe, destacando a dinamicidade do aprendizado.
As novas gerações retribuíram o entusiasmo. A pequena Laura compartilhou o encantamento de estar no centro do poder político do país. "Gostei muito das apresentações. É muito incrível porque acho que eu nunca imaginei estar aqui, então foi muito legal conhecer e poder ver tudo." Já o pequeno Felipe elegeu os espaços coloridos do palácio como seus favoritos. Embora tenha se encantado inicialmente pela Sala Verde, o menino confessou que sua cor favorita é o azul, aprovando também a experiência visual do Salão Azul do Senado.
Oportunidade
Para o elenco, a experiência de atuar nos salões de votação e receber o feedback imediato do público traz um misto de responsabilidade e gratificação. O ator Daniel Landin, 30, que dá vida ao jurista Rui Barbosa, revelou o desafio de humanizar figuras históricas. "Mergulhar nesse personagem também me faz revisitar a história do Brasil. A questão mais difícil foi como tornar esse personagem, que tem uma bagagem tão importante, um jurista, sensível para comunicar e para chegar às pessoas."
A atriz Tatiana Sá, que interpreta Rose, faxineira do Congresso, celebra a oportunidade de se conectar, de uma forma diferente, com tantas pessoas que por ali passam. "A gente vê a resposta dos visitantes. Tem gente que se emociona, que é mais tímida. Aí precisamos ter jogo de cintura", brincou.
Pedro Lucas Menezes, 23, interpreta o senador Carlos, que volta ao passado para conversar com Rui Barbosa sobre como ser um bom político. "Falando como jovem, às vezes a gente não se interessa muito por história. Acho que é de um modo mais didático e dinâmico ter essas cenas no meio da visita, porque acaba sendo uma forma mais lúdica", finalizou.
Para a diretora Juliana, a visita guiada já é um sucesso e roteiro para as programações de férias. Além disso, a média de público, no ano passado, foi de 170 mil pessoas. Um sinal claro de que, cada vez mais, a história tem feito parte da vida de inúmeras pessoas.

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