Hora de alinhar temas prioritários para atrair o eleitor em 2026
Pesquisas e demandas da população ajudam a definir o discurso dos candidatos. Mas especialistas ouvidos pelo Correio ressaltam que cada cargo na disputa, de governador a distrital, tem a sua atribuição e discurso específico
Primeiro turno das eleições será em 4 de outubro - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Saúde, segurança pública, geração de empregos, custo de vida e educação continuam no topo da lista de preocupações dos brasilienses e devem ditar o ritmo da campanha eleitoral. Embora essas demandas apareçam de forma recorrente nos discursos dos candidatos, elas são apresentadas de maneiras diferentes conforme o cargo em disputa.
Cientista política pela Universidade de Brasília (UnB), Teresa Statling entende que essa diferença está diretamente relacionada às competências de cada mandato. Segundo ela, os candidatos a deputado distrital tendem a abordar temas como saúde, transporte, educação e segurança pública, por estarem mais próximos da realidade das cidades. Os candidatos a deputado federal ampliam a discussão para economia, reformas tributárias e políticas públicas nacionais. No Senado, predominam assuntos ligados à democracia, ao equilíbrio entre os Poderes, à política externa e às grandes pautas nacionais.
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Apesar dessas diferenças, Teresa avalia que existe um ponto comum entre todas as candidaturas: a tentativa de responder às principais angústias da população. "Os candidatos sabem muito bem quais são as principais preocupações do povo. O que acontece é outra coisa: existe uma tendência de transformar problemas extremamente complexos em soluções aparentemente simples", afirma.
Segundo a cientista, esse movimento ocorre porque esses temas mobilizam praticamente todo o eleitorado, independentemente da região onde vive. "Segurança, saúde ou pedidos de mais empregos e infraestrutura são temas que exigem políticas públicas de longo prazo, coordenação entre diferentes níveis de governo e uma série de fatores que fogem do controle de um único representante. Mas, durante a campanha, tudo isso acaba sendo resumido em promessas fáceis de comunicar", diz.
De acordo com ela, simplificar essas discussões facilita a comunicação com o eleitor, mas pode criar expectativas incompatíveis com a atuação de um único parlamentar.
O que seu candidato precisa priorizar? Veja o que alguns eleitores responderam ao Correio
João Victor, 22 anos, biomédico, morador de Planaltina: "Acho que o meu candidato tem que priorizar a segurança, principalmente nas regiões administrativas do DF. Moro em Planaltina, estudo e faço estágio no Plano Piloto. Saio muito cedo e volto muito tarde, então sinto esse problema na rotina. Pegar ônibus à noite e caminhar da parada até a minha casa, mesmo em uma distância curta, acaba sendo um percurso perigoso"
(foto: Fotos: Paulo Gontijo CB/PRESS)
Ana Beatriz de Sousa, 24 anos, serviços gerais, moradora do Riacho Fundo II: "O transporte público precisa de mais atenção. A quantidade de ônibus é insuficiente e, dependendo do destino, os veículos ficam muito cheios. Trabalho no Plano Piloto e enfrento dificuldades tanto para ir quanto para voltar. Deveria haver mais ônibus em boas qualidades e mais horários disponíveis"
(foto: Paulo Gontijo CB/PRESS)
Paulo Sérgio, 56 anos, aposentado da área de segurança e morador de Planaltina DF: "As pessoas precisam de mais oportunidades de emprego, porque muitas famílias têm dificuldades para conseguir uma renda fixa. Quando uma pessoa tem trabalho, ela consegue melhorar a própria vida, ajudar dentro de casa e ter mais segurança para planejar o futuro. É importante que os próximos representantes olhem para a geração de empregos e criem condições para que mais pessoas tenham oportunidade"
(foto: Paulo Gontijo CB/PESS)
Irineia de Souza, 48 anos, técnica de enfermagem, moradora da 26 de Setembro: "Os candidatos precisam priorizar a saúde pública. Está um caos: as filas são enormes e o atendimento é ruim. A situação não está fácil para quem necessita do SUS. Sempre que posso, procuro outras alternativas, porque a rede pública enfrenta muitas dificuldades"
(foto: Paulo Gontijo CB/PRESS)
Estratégias
Embora os temas sejam praticamente os mesmos, a forma de abordá-los muda de acordo com o perfil do eleitor. Mestre em psicologia política pela Universidade Católica de Brasília (UCB), André Rosa explica que as campanhas são construídas a partir de levantamentos que identificam quais problemas mais preocupam os moradores de cada região administrativa.
Segundo ele, pesquisas de opinião, grupos focais e outros instrumentos permitem que as equipes eleitorais compreendam quais assuntos têm maior potencial de mobilização e adaptem o discurso a cada público. "Quando a gente fala do eleitorado de Brasília, a gente está tentando colocar todo mundo numa mesma panela, e isso é contraditório. O eleitor da Samambaia pode ter como principal preocupação o transporte público, a pavimentação ou a saúde. O morador do Lago Sul pode priorizar segurança pública. As campanhas procuram entender essas diferenças para construir uma narrativa que dialogue com cada público", ressalta.
Na avaliação do mestre, essa leitura do território faz com que um mesmo candidato enfatize temas diferentes ao longo da campanha, dependendo da região visitada. Em bairros onde a principal reclamação é a mobilidade, por exemplo, transporte tende a ocupar mais espaço no discurso. Em localidades onde a violência preocupa mais, a segurança pública ganha protagonismo.
André Rosa expõe que não existe um único eleitor brasiliense, mas diversos perfis, cada um influenciado por necessidades distintas.
Limites
Embora os candidatos procurem adaptar seus discursos às demandas da população, especialistas alertam que muitas promessas acabam extrapolando as atribuições dos cargos em disputa.
Professor de ciência política na UnB, Valdir Pucci afirma que existe uma grande confusão, tanto entre candidatos quanto entre eleitores, sobre as competências de deputados distritais, deputados federais e senadores. "É notável que existem dúvidas, tanto por parte dos candidatos quanto da população, a respeito das competências de deputados federais, distritais e senadores. Frequentemente, são feitas promessas que, constitucionalmente, seriam de responsabilidade do Poder Executivo, como aumento do funcionalismo federal, o que é inviável para um deputado", pondera.
Pucci diz que esse fenômeno decorre mais da falta de conhecimento sobre o funcionamento do Estado do que propriamente de má-fé dos candidatos. "Essa carência de conhecimento técnico sobre o funcionamento das instituições é prejudicial para a democracia e para o próprio eleitor, que muitas vezes cobra do parlamentar algo que ele não tem condições de executar", observa.
Na avaliação do professor, essa dificuldade em compreender o papel de cada cargo faz com que assuntos semelhantes apareçam em praticamente todas as disputas, que cada mandato tenha responsabilidades diferentes. Pucci destaca que algumas distinções devem surgir ao longo da campanha.
Escolha
Os especialistas concordam que, embora as demandas do cotidiano dominem o debate eleitoral, elas não são os únicos fatores capazes de influenciar a decisão do eleitor. Na avaliação de André Ros, o comportamento do eleitor é resultado de uma combinação de aspectos econômicos, sociais e culturais. "O eleitor, de forma geral, não tipifica o que espera de uma agenda política para determinado cargo. A mesma agenda para deputado distrital pode ser a mesma agenda que se espera de um presidente da República", pontua.
Segundo ele, muitos eleitores tomam decisões a partir da situação econômica da própria família, avaliando inflação, renda e poder de compra. Outros são mais influenciados por lideranças políticas, identificação ideológica ou por grupos dos quais fazem parte.
Teresa Statling considera que, em um cenário de forte polarização, a identificação com determinadas lideranças frequentemente pesa mais do que propostas específicas. "A divisão politica continua sendo um dos principais elementos organizadores do comportamento eleitoral. Muitas vezes, a identificação acontece mais com uma narrativa ou com uma liderança do que propriamente com um conjunto de propostas", observa.
Valdir Pucci chama atenção para outro desafio da disputa eleitoral. Segundo ele, parte das candidaturas acaba direcionando seus esforços para públicos muito específicos, deixando em segundo plano problemas que atingem grande parte da população. "As campanhas atuais estão excessivamente direcionadas a bolhas e nichos específicos, ignorando demandas amplas e urgentes da sociedade", afirma.
No entendimento dos especialistas, independentemente das estratégias adotadas pelos candidatos, o que continua mobilizando o eleitor é a busca por soluções para problemas concretos do dia a dia: segurança, saúde, emprego, educação, infraestrutura e custo de vida. O desafio para quem disputa um mandato será transformar essas demandas em propostas compatíveis com as atribuições de cada cargo e convencer o eleitor de que elas podem sair do papel.
Jornalista e repórter da editoria de Cidades do Correio Braziliense. Atuou na comunicação interna do Banco do Brasil e integrou a equipe de Marcelo Tas, com interesse em narrativas humanizadas, acessibilidade e temas sociais.