A soroterapia foi tema, nesta quinta-feira (23/7), do CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. Às jornalistas Carmen Souza e Paloma Oliveto, a endocrinologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia — Regional DF, Fernanda Salles, alertou que esse procedimento não deve ser feito por pessoas saudáveis, sem deficiência de nutrientes comprovada. Quando realizado sem recomendação médica, e em locais inadequados, esse tratamento pode causar complicações. Algumas delas são hipervitaminose, infecção e reações alérgicas. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.
A Anvisa fez um alerta para as pessoas tomarem cuidado com a soroterapia. Qual é o risco de fazer esse procedimento sem recomendação médica?
Existem indicações para realizá-lo, mas ele não deve ser feito por pessoas saudáveis, sem uma deficiência comprovada. Nesses casos, pode acarretar uma hipervitaminose. Pensamos muito na deficiência, mas o excesso também faz mal. Há, ainda, os riscos do próprio procedimento, que são reações alérgicas e infecção. Para quem está buscando melhorar a performance ou ter mais energia, não há nenhuma comprovação científica de que isso faça efeito ou de que seja benéfico. Além desses riscos, há os gastos financeiros e de tempo.
Pessoas que têm uma deficiência identificada precisam, necessariamente, fazer a reposição intravenosa?
Geralmente optamos por uma reposição intravenosa em pacientes que fizeram cirurgias gástricas intestinais, por exemplo. Esses pacientes não absorvem bem por via oral. Pacientes oncológicos, muitas vezes, também não têm essa absorção tão boa. Nesses casos, vamos optar pela via venosa. Em pessoas saudáveis, a primeira escolha sempre vai ser a oral. A via venosa é uma exceção. Muitas pessoas, quando repõem ferro oralmente, por exemplo, têm azia, diarreia ou constipação. Nesse caso, vou optar pelo uso venoso. São indicações precisas, não é para todo mundo.
Qual é o ambiente propício para esse procedimento?
Os centros de aplicação, que chamamos de centros de infusão, precisam ter uma aprovação da Vigilância (Sanitária). As substâncias têm que ser aprovadas pela Anvisa. Então, não é qualquer vitamina que eu queira aplicar em uma pessoa. Tenho que ter cautela e responsabilidade profissional. Nos centros de infusão, é necessária a presença de um médico, porque o paciente pode ter uma complicação. Se ele tiver uma reação alérgica grave, o médico vai ter que intervir.
O que, de fato, ajuda a melhorar a disposição para a prática de exercícios físicos?
Hoje em dia, nos consultórios de endocrinologia, uma das principais queixas é o cansaço. Estamos vivendo uma era do cansaço, do hiperestímulo. As pessoas não estão priorizando o sono. Elas têm uso de tela muito frequente, falta de exercício e falta de alimentação saudável. Queremos resolver o cansaço com a vitamina, mas isso não vai ser resolvido assim. É preciso mudar, de forma geral, o estilo de vida. Tenho que ter um ajuste alimentar. Principalmente para atleta, é fundamental acompanhamento nutricional. Para a pessoa que não é atleta, ter aporte proteico e de vitamina adequado e focar na alimentação com produtos minimamente processados é essencial. Existem suplementos que melhoram a performance. A creatina é um exemplo. Ela ajuda a melhorar a força para o treino e o ganho de massa muscular. Também o uso suplementos proteicos, quando a pessoa tem uma ingestão baixa de proteína. Outro suplemento que, por estudo, também mostrou benefícios, é o hidroximetilbutirato (HMB).
Existe alguma comprovação científica de que a soroterapia pode auxiliar a combater sintomas associados à menopausa?
Não. Sabemos que esse período de pré-menopausa é muito difícil na vida da mulher, porque ela passa por uma mudança completa. O cansaço é muito frequente. É preciso mudar o ambiente de trabalho, sua vida, para que ela seja incluída. Elas passam por alteração do sono e mudanças corporais. Mas uma vitamina não vai melhorar tudo isso. Para as mulheres que estão nessa fase e não têm contraindicação, a terapia hormonal ajuda muito.
Para quem se submeteu a esse procedimento, quais são os sinais de alerta de que não recebeu o que pagou ou de que teve uma complicação?
Toda vitamina em excesso vai ser eliminada pelo fígado ou pelo rim. Se você está dando substâncias a mais, você vai sobrecarregar esses órgãos. Existe risco de intoxicação e essa é uma cautela que a gente deve ter. A vitamina D, por exemplo, acarreta intoxicação gravíssima. Ela gera uma hipercalcemia (níveis elevados de cálcio no sangue) muito grave que demora a melhorar. O tratamento é cortar todo leite e derivados, ou seja, todo o cálcio da alimentação do paciente. Não tem um remédio que eu possa dar para reverter. O paciente também pode evoluir para uma insuficiência renal, que pode ser permanente. Um sinal de alerta é perceber que o sintoma não melhorou. Outro ponto é observar as partes associadas ao fígado e ao rim. É importante ficar atento a icterícia, cansaço fora do normal, inchaço que não é seu e lesões de pele. A soroterapia é totalmente contraindicada para quem tem problema renal.
Dependendo da forma como ela é conduzida, a suplementação oral também é perigosa?
Sim. É uma indústria que ganha milhões hoje em dia. Remédio é remédio. Ele nunca vai ser capaz de substituir uma alimentação saudável. Quando você come um alimento, ele não tem só potássio, só uma vitamina específica. Ele é um conjunto de minerais, de vitaminas, de compostos bioativos que estimulam a absorção melhor, a utilização melhor daquela vitamina ou mineral. Só vou utilizar vitaminas depois, se precisar, como a cereja do bolo, como algo para suprir uma deficiência.
O fato de essas vitaminas serem registradas não como medicamento, mas como alimento, pode favorecer as pessoas a pensarem que elas são inofensivas?
Muito. É comum no consultório o paciente usar dois remédios e 15 vitaminas. Como isso está se comportando dentro do corpo dele? Se a gente não tem estudo seguro, mostrando esse conjunto de vitaminas, será que aquilo realmente é necessário? Os principais remédios da medicina são os seguintes: não fumar e beber pouco, exercício físico, exercício mental, alimentação saudável, dormir bem, não parar de trabalhar, no sentido de ter um propósito de vida, ter amigos, dar risada, e aprender a chorar. Acho que isso não é valorizado. Pensamos muito em pílula, em um comprimido numa caixa, mas o principal é o estilo de vida.
Assista à íntegra da entrevista:
*Estagiária sob supervisão de Eduardo Pinho
