
Beatriz Ocké*
Óculos de sol, chapéu, garrafa de água e blusas com proteção UV são alguns dos acessórios que compõem o "kit de sobrevivência" à seca e ao calor entre os trabalhadores que ganham a vida pelas ruas e vias do DF. Em um período marcado por altas temperaturas e baixa umidade do ar, vendedores ambulantes e agentes de limpeza, por exemplo, precisam transformar cuidados básicos em estratégias diárias para conseguir trabalhar sob o céu aberto de Brasília.
Nesta segunda-feira (10/8), o Distrito Federal registrou o terceiro dia consecutivo com a temperatura mais alta do ano e o mais seco de 2026. A estação meteorológica de Ponte Alta, no Gama, apontou máxima de 34,3°C e umidade relativa do ar de 13%.
Um dos que sentem os efeitos da seca diariamente é Roberto Correia, de 46 anos. Vendedor ambulante há quatro décadas em frente à Catedral Metropolitana de Brasília, ele comenta sobre o trabalho em meio às altas temperaturas: "Neste período de seca, é muito quente. A gente não consegue ter tanta proteção aqui e acaba que o sol castiga muito", conta.
Para enfrentar o calor, Roberto mantém uma rotina de hidratação com cerca de dez garrafas de água por dia, além de sucos naturais. Nos momentos mais quentes, ele revela que recorre à sombra para se refrescar. "Quando o sol aperta, eu busco abrigo dentro do meu carro ou sob uma lona improvisada na barraca", relata.
A exposição prolongada ao sol, no entanto, não representa apenas um desconforto momentâneo para quem trabalha nas ruas. Segundo o dermatologista Eduardo Oliveira, os efeitos podem se acumular ao longo dos anos, principalmente, para quem precisa passar o dia de trabalho exposto a cargas de radiação solar muito maiores e de forma repetida. A curto prazo, a exposição pode provocar efeitos imediatos, como queimaduras, vermelhidão, ardência, desidratação, mal-estar e até quadros de exaustão pelo calor ou insolação.
"Essa exposição contínua acelera o envelhecimento da pele, causa manchas e alterações na textura, e aumenta o risco de lesões pré-cancerosas e de câncer de pele", aponta o especialista.
De forma a prevenir essas condições, o médico destaca a proteção do rosto, orelhas, couro cabeludo, nuca, braços e dorso das mãos como as áreas que requerem maior atenção. "Além do protetor solar, é importante usar roupas de mangas compridas, de tecido mais fechado, chapéu de abas largas ou proteção para a nuca, e óculos com filtro ultravioleta", acrescenta Eduardo.
Na linha de frente
A pneumologista Gilda Elizabeth, do Hospital Brasília Águas Claras, reforça a importância das pausas constantes para hidratação a fim de que os trabalhadores não sofram com desidratação durante a jornada de trabalho. "Quem trabalha sob calor intenso deve ingerir água de forma frequente, mesmo sem sentir sede", orienta. A médica também recomenda evitar a exposição direta ao sol entre as 10h e as 16h, além de fazer pausas em locais sombreados sempre que possível.
Para as agentes de limpeza Juliana Victor, de 35 anos, e Iolanda Bezerra, de 47, a seca tem tornado os dias de trabalho mais desgastantes. "Acho que este ano está até mais seco que o ano passado, sinto que dá mais dor de cabeça e a disposição também já não fica boa", relata Juliana.
Segundo ela, a empresa em que trabalha tem antecipado o horário de entrada das equipes para minimizar os efeitos do clima. "Entramos às 6h e saímos às 14h como forma de amenizar o tempo no sol. Tentamos sempre acabar a limpeza logo pela manhã para não sobrar muito para de tarde, que é quando o sol está mais forte ", explica.
Além da mudança no expediente, as trabalhadoras também destacam o uso de protetor solar, boné e máscara para amenizar os impactos do clima seco. "A empresa fornece o protetor e o boné e fica sempre reforçando para a gente se hidratar e se sentir segura", acrescenta Iolanda.
Ela também comenta sobre o ressecamento provocado pelo tempo seco. "A gente sente muito, principalmente quando está varrendo". Segundo a pneumologista, a baixa umidade tende a ressecar as mucosas da garganta e das vias respiratórias e também ressalta o contato com poeira e poluentes, que podem irritar ainda mais as vias aéreas. "Quando houver ressecamento intenso, é necessário lavar o nariz com soro fisiológico e manter boa higiene das vias respiratórias", recomenda a médica.
Previsão
O meteorologista Leydson Dantas explica que as baixas na umidade já eram previstas para esse período do ano. "Estão de acordo com o que é esperado para esta época do ano, onde uma alta pressão atua sobre a região central do Brasil, impedindo que os sistemas frontais avancem e favorecendo a ocorrência de tempo seco e estável", esclarece.
Ele também pontua que a persistência do tempo seco é influenciada pela estiagem das chuvas, tendo em vista que o DF completa, neste sábado (15/8), 51 dias consecutivos sem precipitações. O último registro significativo de chuva ocorreu em 24 de junho.
Diante do cenário alarmante, o Inmet reforça a importância de beber bastante líquido, umidificar os ambientes e evitar fazer atividade física e se expor ao sol nas horas mais quentes e secas do dia, entre as 12h e as 18h.
Até o fim de agosto, o Inmet prevê a continuidade de temperaturas acima da média e pouca probabilidade da ocorrência de eventos de chuva significativa no Distrito Federal, o que favorece a persistência do tempo seco e da ocorrência de novos avisos amarelos e laranjas.
*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates

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