
Por Luiz Francisco*
A médica injetora e psiquiatra Isabela Kayashima comentou ontem, durante entrevista ao CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — que o equilíbrio da saúde mental é fundamental para evitar exageros em procedimentos estéticos e garantir resultados compatíveis com as características de cada paciente.
Às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, ela explicou que as duas áreas estão diretamente relacionadas, embora essa associação ainda cause estranhamento. “A gente precisa muito de um equilíbrio mental para fazer procedimentos que não sejam exagerados, que conversem com a pessoa que você é. Quando conseguimos orientar o paciente de forma adequada, temos resultados muito bacanas”, declarou.
Segundo Isabela, são poucas as pessoas que chegam ao consultório querendo transformações radicais. Ela atribui esse comportamento, em parte, ao acesso a informações pelas redes sociais, que permite aos pacientes compreenderem melhor os limites dos procedimentos menos invasivos.
"Mudanças mais profundas normalmente exigem intervenções cirúrgicas. Ainda assim, permanecem algumas dúvidas, especialmente sobre as diferenças entre a toxina botulínica e os preenchedores, que costumam ser esclarecidas durante a consulta", comentou.
O acompanhamento após a realização do procedimento também é importante para preservar a saúde mental do paciente, segundo a especialista. Isabela explicou que aplicações estéticas podem provocar edema e inflamação, causando preocupação nos primeiros dias. “Nesse momento, temos que ter mais paciência para orientar e esclarecer as dúvidas”, destacou.
De acordo com a médica, pacientes interessados em mudanças mais acentuadas geralmente estão por volta dos 45 anos, quando a flacidez começa a se tornar mais significativa. "Alguns chegam ao consultório desejando aparentar 20 anos a menos, resultado que nem sempre pode ser alcançado apenas com procedimentos injetáveis", ressalta. Entre os mais jovens, a busca costuma ser pela alteração da estrutura facial, e não pelo tratamento de rugas ou flacidez. Nesses casos, Isabela prefere falar em embelezamento, e não em harmonização.
"Algumas intervenções em pessoas jovens podem ser indicadas, desde que realizadas de maneira equilibrada. O preenchimento de um queixo muito pequeno, por exemplo, pode melhorar a aparência do rosto e do perfil. Nesses casos, você muda o paciente, mas de uma forma saudável”, detalhou. Segundo ela, o aumento do queixo também pode, em determinadas situações, auxiliar a respiração de pacientes que roncam em razão dessa característica anatômica.
Cuidados
Ao abordar os cuidados necessários, Isabela destacou que a qualidade do produto representa parte essencial da segurança do procedimento. O paciente deve conhecer a marca utilizada e confirmar se está recebendo efetivamente a substância adquirida. A médica lembrou que materiais diferentes podem ter aparência semelhante. “O ácido hialurônico é meio transparente, mas o silicone também é transparente. A gente sabe que algumas pessoas já injetaram muito silicone e PMMA, que ainda tem muita gente que injeta”, alertou.
O PMMA, segundo ela, pode produzir um resultado inicialmente bonito e duradouro, mas justamente sua permanência representa o maior problema. Não é possível prever quais pacientes terão reações adversas e, quando elas surgem, podem permanecer por toda a vida. Isabela informou que o produto continua sendo comercializado, embora exista uma recomendação do conselho profissional para que médicos não o utilizem.
Além da procedência dos produtos, o local escolhido precisa dispor de estrutura e protocolos básicos para responder rapidamente a possíveis complicações. A ocorrência mais grave é a reação anafilática, que exige intervenção imediata para salvar a vida do paciente. Os riscos, contudo, não se limitam às reações alérgicas. Aplicações de ácido hialurônico e bioestimuladores podem atingir acidentalmente uma artéria devido às variações anatômicas existentes entre os pacientes.
Dependendo do vaso atingido, as consequências podem ser graves. “A mais grave de todas, na minha opinião, é o que a gente chama de amaurose, que é o produto ir para a artéria que irriga o olho e você ficar cego”, explicou.
Por essa razão, Isabela considera indispensável que o profissional tenha capacidade não apenas para realizar o procedimento, mas também para reconhecer, diagnosticar e tratar eventuais complicações. Na avaliação da médica, um dos principais riscos está na demora em perceber que o paciente passa mal. "Sem o diagnóstico correto, pode-se perder o momento adequado para uma intervenção capaz de evitar consequências mais graves."
Exageros
Em relação aos exageros, Isabela observou que a estética também acompanha tendências. Depois de um período marcado por harmonizações muito evidentes, com bochechas, mandíbulas e queixos excessivamente demarcados e lábios muito volumosos, o movimento atual busca resultados mais naturais. “Agora, a gente já está mais no sentido de manter bonito e natural”, disse.
A mudança levou algumas pessoas a procurarem profissionais para desfazer aplicações anteriores. Quando o preenchimento foi feito com ácido hialurônico, explicou a médica, é possível reduzir os excessos por meio da hialuronidase, enzima que degrada a substância. "A retirada completa nem sempre é alcançada, mas o procedimento geralmente consegue corrigir boa parte do volume indesejado", assinalou.
Para garantir boa saúde física e mental, Isabela recomenda que os procedimentos estéticos não sejam tratados como a primeira ou a única alternativa. "A prática regular de atividade física, especialmente a musculação, contribui para deixar a pele mais firme em todo o corpo. Sono regular e hidratação adequada também fazem diferença, embora a ingestão de água não substitua os cuidados tópicos com a pele", orientou.
Nos casos de emagrecimento com o uso de canetas, a médica aconselha iniciar ainda durante a perda de peso os tratamentos destinados a estimular a produção de colágeno e preservar a estrutura facial. Deixar os cuidados apenas para o final, segundo ela, torna o tratamento mais difícil e mais caro. "Em todos os casos, a orientação é combinar hábitos saudáveis, expectativas realistas e acompanhamento adequado, para que a intervenção estética complemente — e não substitua — os cuidados com a saúde física e mental", completou.
Estagiário sob a supervisão de Eduardo Pinho

Revista do Correio
Mariana Morais
Ciência e Saúde