
Aflitos, familiares formavam fila nas dependências do Hospital Estadual de Luziânia (GO) na busca por qualquer informação sobre possíveis familiares feridos no grave acidente entre um ônibus rodoviário e um caminhão. "Por favor, me fala qualquer coisa sobre minha filha e meu neto", falava uma mãe aos prantos. Horas mais tarde, ela obteve a notícia da morte de Gabriel Willians de Matos Oliveira, de 1 ano e 5 meses.
A filha, mãe de Gabriel, aguardava por uma cirurgia na clavícula. Até o fechamento desta edição, a informação oficial era de que seis pessoas haviam morrido. Quatro foram identificadas no Instituto de Medicinal Legal (IML).
Às 7h de ontem, o ônibus rodoviário da empresa Real Expresso, do Grupo Guanabara, saiu do estacionamento da Rodoviária de Taguatinga com 42 passageiros e o motorista. Mais à frente, embarcaram mais quatro pessoas em um ponto de Valparaíso de Goiás. O destino final era Uberlândia (GO), mas parte dos viajantes desceriam em municípios goianos.
Exatamente três horas depois, por volta das 10h, uma tragédia. Uma câmera de segurança instalada em uma fazenda às margens da GO-010, km 125, registrou o momento exato do acidente. As imagens mostram o momento em que um caminhão carregado de areia trafega por uma das vias. Em seguida, o motorista perde o controle da direção, invade a pista contrária e atinge o ônibus pela lateral. Com o impacto, o ônibus tomba.
Vítimas
Quem conduzia o caminhão era Rodrigo Fernandes do Santos, 30, um dos mortos. Morador de Alexânia (GO), ele faria a entrega do carregamento de areia na região do Gama. Em Silvânia (GO), ponto de onde a carreta saiu para Luziânia, Rodrigo deu carona a Anderson Oliveira da Silva, 47, um amigo.
Minerador, Anderson trabalhava em Silvânia e pretendia voltar para casa, em Luziânia, onde passaria o fim de semana ao lado da mulher. Horas antes, a esposa enviou uma mensagem via WhatsApp a Anderson relatando mal-estar. Por isso, segundo um sobrinho da vítima — Luiz Felipe Silva, 32 —, resolveu seguir viagem.
Emocionado, o familiar descreveu o tio como uma pessoa alegre e ativa. "Ele gostava de pescar, era muito trabalhador. Nunca tive problema com ele. A gente pescava, tomava uma cervejinha de vez em quando juntos", contou.
Rodrigo deixou dois filhos, de 8 e 3 anos; e Anderson um filho de 20 anos.
Outra vítima confirmada é o bebê Gabriel Willians de Matos. Sem se identificar, o avô de Gabriel contou que soube da notícia por uma ligação do filho. "Moro em Formosa. Estava ajudando a mulher com algumas coisas, quando recebi o telefonema. Vim correndo. A gente fica nesse anseio por informações. É muito angustiante", desabafou.
A mãe de Gabriel mora em Águas Lindas de Goiás e embarcou junto ao filho e o namorado na Rodoviária de Taguatinga. A família iria passar as férias em Caldas Novas. "Minha filha perdeu o irmão anos atrás. O nome dele era Gabriel. Quando engravidou, disse que colocaria o nome do filho de Gabriel em homenagem ao irmão. Agora ocorre essa tragédia", disse, emocionado. O namorado da mulher não sofreu ferimentos graves.
A Polícia Técnico-Científica confirmou ao Correio a identificação de quatro dos seis corpos. Além de Anderson, Rodrigo e Gabriel, Silvana Pereira de Melo, 57, passageira do ônibus, está entre as vítimas.
Feridos
No banco em frente à recepção ambulatorial, um jovem com curativo na testa aguardava informações da equipe médica sobre o estado de saúde da namorada. Sob anonimato, o rapaz contou ao Correio que os dois saíram de Águas Lindas de Goiás, onde moram, rumo à Rodoviária de Taguatinga. Embarcaram no coletivo e seguiriam para Caldas Novas para uma viagem de passeio.
Pouco antes das 10h40, o rapaz narrou que sentiu um forte impacto. "Eu estava dormindo. Quando vi, o ônibus estava capotado", contou. Ele sofreu lesões no rosto e recebeu alta. A namorada, no entanto, está em quadro delicado.
Morador do Distrito Federal, o pai de um rapaz de 21 anos que estava no ônibus relatou a conversa que teve com o filho no hospital. Ele conta que o jovem dormia no momento do acidente. "Quando eu falei com ele aqui no hospital, ele me disse que a viagem tinha começado tranquila e do nada acordou durante a tragédia", afirmou.
O pai contou que o cinto de segurança salvou a vida do filho. "Ele estava com o cinto. Quando ele chegou ao hospital, a suspeita era de fratura na bacia, mas sem ferimentos graves", disse.
Fora os ferimentos físicos, o pai se preocupa com o estado psicológico do filho. "Imagina você conversar com as pessoas, trocar olhares e do nada aquela pessoa morrer? Acredito que ele vai precisar de tratamento psicológico", disse.
Força-tarefa
Após a colisão, mais de 20 passageiros deixaram o ônibus na busca por socorro. Feridos e assustados, caminharam rumo à fazenda localizada às margens da rodovia. Eles foram acolhidos pelos moradores da propriedade enquanto aguardavam a chegada das equipes de socorro.
O proprietário da fazenda, Onadin Vieira, 62, contou que ouviu o impacto e, ao olhar para a rodovia, viu o ônibus tombado. Segundo ele, os moradores correram para ajudar as vítimas que estavam caídas próximas ao local. "Nós escutamos um estrondo e, quando vimos, o ônibus já estava tombado. Socorremos um monte de gente que estava caída. Deixamos eles em uma sombra. O povo estava todo ensanguentado. Tinha muitas pessoas idosas machucadas. Já vi vários acidentes nessa rodovia, todo ano tem um aqui", relatou.
Dezoito viaturas do Samu e do Corpo de Bombeiros e uma aeronave foram mobilizadas para o socorro. O major Maurílio, do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO), narrou a dinâmica do acidente. "O caminhão, aparentemente, colidiu de lado com o ônibus, projetando o ônibus para fora da pista. Eles estavam indo em sentidos opostos, o caminhão sentido Luziânia e o ônibus sentido Vianópolis", explicou.
Feridos foram encaminhados para UPAS, postos de saúde e Hospital Estadual de Luziânia. Por causa da alta demanda, o hospital restringiu os atendimentos durante a tarde e à noite para receber os pacientes. O Correio apurou que ao menos 21 pessoas acidentadas foram encaminhadas ao hospital. Um funcionário contou à reportagem que a unidade opera com a capacidade máxima de médicos.
Posicionamento
A Real Expresso, empresa do Grupo Guanabara, informou que a equipe de atendimento da empresa seguiu para o local com todos os profissionais, incluído psicólogo.
"[...] As causas do acidente ainda estão sendo apuradas, e a empresa está colaborando integralmente com as autoridades competentes", afirmou por meio de nota oficial.
Saiba Mais
Vitória Torres
RepórterRepórter na editoria de Cidades. Jornalista em formação pela Universidade Católica de Brasília (UCB). Atuou nas editorias de Política, Economia e Brasil.

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