
O presidente do Sindiatacadista-DF, Alaor Gomes Neto, falou sobre os impactos esperados da reforma tributária e de um eventual fim da escala 6x1 no setor, em entrevista ao CB.Poder — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. Às jornalistas Samanta Sallum e Sibele Negromonte, nessa quinta-feira (20/8), o empresário explicou que a perda de benefícios fiscais pode deixar o segmento local menos competitivo com relação a empresas de outros estados. Ele também falou sobre a redução do consumo causada pelas bets.
A posição geográfica favorece o setor atacadista do DF?
Temos duas coisas que favorecem o DF: a localização geográfica e um incentivo tributário que faz toda a diferença. Os atacados situados aqui são beneficiários da Lei Distrital n° 5.005/2012, um benefício no crédito e no débito do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Isso tem atraído muitas empresas para cá. Algo que nos preocupa muito é a reforma tributária. A partir de janeiro de 2027, os atacados distribuidores serão privados desse benefício.
Qual é o impacto da reforma tributária?
Ela estabeleceu que os titulares de incentivos fiscais onerosos, aqueles em que o empresário tem que dar uma contrapartida, como geração de emprego e nível mínimo de faturamento, serão compensados pelo Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais do ICMS. Como a Lei Distrital n° 5.005/2012 é solicitada pelos empresários de ofício e deferida pela Secretaria de Fazenda, sem que o empresário se comprometa com qualquer tipo de contrapartida, o DF não vai ter o benefício do fundo. Então, a lei vai acabar. Estados como o Ceará, onde o benefício tributário é oneroso, vão se beneficiar até 2032, data de fim do período de transição da reforma. Isso gera uma concorrência. Se você for comprar um produto semelhante, com o fim do incentivo tributário, provavelmente o atacado situado no Ceará vai ter diferença competitiva no preço final com relação aos atacados daqui.
Quais as soluções apresentadas pelo sindicato?
Já iniciamos tratativas tanto com o Executivo quanto com o Legislativo. Fomos na Comissão de Economia, Orçamento e Finanças da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) para ver como podemos vencer esse obstáculo e não ser profundamente prejudicado com o fim da Lei Distrital n° 5.005/2012 . Estamos buscando fazer o Emprega II. Conversamos na Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda e na Secretaria de Desenvolvimento Social para tentarmos colocar o setor atacadista em algum ponto do Emprega DF, programa que dá incentivo econômico em contrapartida com o número mínimo de geração de emprego, para que esse benefício não acabe de forma abrupta.
Como o setor está se preparando para um eventual fim da escala 6x1?
Essa mudança vem acompanhada de uma redução da jornada de 44 para 40 horas semanais. São duas mudanças. É como se você tivesse uma bota do tamanho 40. Quem calça 45 ou 35 tem que usar a mesma bota. Não dá para achar que todas as áreas de um atacado distribuidor conseguem se modernizar. Em algumas funções, como descarregar caminhão e repositório de loja, a gente não consegue ter ganho de produtividade. Hoje, a gente também enfrenta uma grande escassez de mão de obra. Temos buscado muitas parcerias e montado cursos para treinar e formar pessoas, porque temos dificuldade para contratar. Se hoje eu tenho 10 empregados com 44 horas semanais, tenho 440 horas disponíveis para a empresa. Com a redução, os mesmos 10 empregados vão me fornecer 400 horas semanais. Então, vou precisar colocar um novo funcionário para 10 pessoas. Isso implica em um aumento de 10% no peso da folha salarial. Cada 10% no aumento da folha implica em aumento de 1% no preço final. A gente não tem como ser contra o fim da escala, só precisamos de um prazo maior para nos adaptarmos.
Qual é o impacto das bets no setor atacadista?
O Pix foi a melhor coisa que aconteceu no país, mas ele levou várias pessoas ao mercado formal. Elas abriram contas nos bancos. Ao fazer isso, elas passaram a ter acesso a crédito na ponta do dedo. Isso criou o aumento no endividamento, porque o crédito ficou muito fácil. Em 2025, as bets consumiram R$ 295 bilhões. Parece que em 2026 já vai ter um aumento de quase 18%, indo para quase R$ 400 bilhões. Esse dinheiro foi drenado do consumo. O consumo médio de um brasileiro por ano em carne, por exemplo, era de 35 quilos. Esse valor baixou para 31.
*Estagiária sob supervisão de Tharsila Prates

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