OBITUÁRIO

Maria Elisa: o legado da arquiteta que defendeu a preservação de Brasília

Maria Elisa Costa, morreu ontem, aos 91 anos. Filha do arquiteto e urbanista Lucio Costa, seguiu a carreira do pai, mas construiu uma trajetória dedicada a proteger o patrimônio da capital e da humanidade

Ela também visitou o Correio, quando presidia o Iphan -  (crédito:  Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Ela também visitou o Correio, quando presidia o Iphan - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Morreu, ontem, aos 91 anos, Maria Elisa Costa, arquiteta e urbanista e filha de Lucio Costa. O pai foi responsável pelo projeto urbanístico que deu origem a Brasília. Nascida no Rio de Janeiro, em 1934, Maia Elisa seguiu os passos profissionais paternos, mas construiu uma trajetória própria na arquitetura, no urbanismo e na preservação do patrimônio histórico. Ela deixa a filha, Julieta Costa, e as netas Clara, Julia e Sofia, e os bisnetos Benjamin e Zoe.  Informações sobre o velório ainda não foram divulgadas até o fechamento desta edição.

Ao Correio, Julieta contou que a mãe faleceu em casa, de mãos dadas com ela, enquanto cantava uma música para confortá-la. Ao mencionar a história de Maria Elisa, ela diz que a Maria Elisa protegeu Brasília com unhas e dentes durante toda a vida. "Defendeu o Plano Piloto com garra, coragem e energia. A cidade ficou órfã".

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Como mãe e avó, Maria Elisa liderava a família. "Nós somos uma espécie de matriarcado. Meu pai morreu muito cedo. Foi uma mãe maravilhosa", ressaltou emocionada. 

Segundo o jornalista e ex-secretário de Cultura do DF Silvestre Gorgulho, foi Maria Elisa quem entrou no prédio para protocolar o projeto urbanístico do pai.

"São muitos os motivos para lembrar e homenagear ela. Primeiro porque viveu Brasília desde a placenta. Ela que entregou o projeto urbanístico do Plano Piloto, dia 11 de março de 1957, no Ministério da Educação e Saúde (MEC) para participar do concurso. Foi com seu pai, que ficou no carro esperando que ela trouxesse o protocolo de entrega", afirmou Gorgulho.

"Admiro ela por ser, evidentemente, filha do inventor de Brasília, por ser arquiteta e ter sempre acompanhado profissionalmente a construção e o desenvolvimento da nova capital", completou.

Para Silvestre Gorgulho, Maria Elisa foi, até o fim, uma "Guardiã da 'Casa Lucio Costa'" e uma "defensora incondicional do projeto do Plano Piloto elaborado pelo pai", ressaltou o jornalista, completando: "É exemplo de cordialidade, de respeito e símbolo de amor a Brasília. A realidade pode ter sido dura, mas os sonhos e as esperanças fazem da realidade uma doce lembrança. Obrigado, Maria Elisa. Brasília chora sua passagem, mas agradece sua história".

A governadora do DF, Celina Leão, decretou três dias de luto pela morte da arquiteta. A governadora destacou a contribuição decisiva para a manutenção das diretrizes que tornaram a cidade um bem protegido mundialmente. "Maria Elisa Costa é um ícone e um símbolo de Brasília. Deixa um enorme legado para a preservação de nossa identidade arquitetônica e a luta pela preservação de Brasília como patrimônio cultural da humanidade. Minha solidariedade aos familiares e amigos de Maria Elisa", declarou.

Rodrigo Rollemberg contou ao Correio que recebeu a notícia da morte da tia com muita tristeza. "Ela era uma pessoa apaixonada por Brasília. Guardiã da obra de Lucio Costa, seu pai", disse. O falecido marido de Maria Elisa, Eduardo Sobral, era irmão da mãe do ex-governador, Teresa Rollemberg. "Comento com a filha dela que a chamava de tia, devido à consideração. Muito triste pela partida, mas agradecido por tudo que ela fez por nós". 

A presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-DF), Luiza Coelho, pesquisa há cerca de dez anos mulheres arquitetas de todo o Brasil. Ela conta que "é impossível não esbarrar no nome de Maria Elisa" durante os estudos. 

O arquiteto Thiago Andrade, conviveu com Maria Elisa quando ela presidia o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2003. Ele comentou que ela possuía o seu próprio brilho, tendo assinado importantes construções na capital. "Ela desenhou várias partes da cidade, como o conjunto do Conic e o Setor de Autarquias Norte".

Em 2015, Maria Elisa foi entrevistada pelo Correio Braziliense. Na ocasião, despediu-se dizendo que, com a posse do "crachá do Lucio", sentia-se muitíssimo à vontade para criticar quem quer que seja em nome da preservação da capital.

Perfil

Maria Elisa formou-se em arquitetura em 1958, pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No ano seguinte, passou a integrar a Divisão de Urbanismo do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Novacap, onde trabalhou sob a direção do próprio pai, Lúcio Costa, e de Augusto Guimarães Filho.

A relação com Brasília permaneceu ao longo de sua carreira. Entre 1986 e 1987, Maria Elisa foi assessora do secretário de Viação e Obras do Governo do Distrito Federal. Também integrou o Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente (Cauma), entre 1986 e 1992, e o Conselho Técnico de Preservação de Brasília (CTPB), entre 1999 e 2001.

Maria Elisa integrou também a Comissão Especial de Brasília do Departamento de Proteção do Iphan, entre 1996 e 1998. Em 2003 e 2004, presidiu o próprio Iphan.

Entre as contribuições documentadas pela arquiteta estão a fonte da Torre de TV e a Praça dos Pedestres, na Plataforma da Rodoviária do Plano Piloto, locais que passaram a fazer parte da rotina de milhares de brasilienses.

Em 2014, Maria Elisa lançou um livro que conta hábitos do pai e episódios da inauguração de Brasília, intitulado como "Lúcio Costa, inventor de Brasília. Em entrevista ao jornal na época, ela resumiu o pai: "O homem mais livre que conheci na minha vida. Tinha clareza em relação aos limites, o pé no chão, mas fez voos altos. Característica ideal para fazer Brasília".

 


  • Maria Elisa Costa presidiu o Iphan
    Maria Elisa Costa presidiu o Iphan Foto: Iano Andrade/CB/D.A Press
  • Arquiteta escreveu o livro Inventor de Brasília, Lucio Costa
    Arquiteta escreveu o livro Inventor de Brasília, Lucio Costa Foto: Iano Andrade/CB/D.A Press
  •  11/03/2014. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Maria Elisa Costa, 79 anos, filha do arquiteto Lucio Costa. 
CB, 16/11/2014. Cidades, p. 24
    11/03/2014. Crédito: Breno Fortes/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Maria Elisa Costa, 79 anos, filha do arquiteto Lucio Costa. CB, 16/11/2014. Cidades, p. 24 Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press
  • Maria Elisa Costa presidiu o Iphan
    Maria Elisa Costa presidiu o Iphan Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press
  • Maria Elisa Costa presidiu o Iphan
    Maria Elisa Costa presidiu o Iphan Foto: Breno Fortes/CB/D.A Press
  • Lucio Costa em momento família com a filha Maria Elisa
    Lucio Costa em momento família com a filha Maria Elisa Foto: CarlosFreire/Divulgacao
  • Maria Elisa Costa presidiu o Iphan
    Maria Elisa Costa presidiu o Iphan Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
  • Maria Elisa na redação do Correio Braziliense, em 2014
    Maria Elisa na redação do Correio Braziliense, em 2014 Foto: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press
  • Maria Elisa na redação do Correio em 2014
    Maria Elisa na redação do Correio em 2014 Foto: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press
  • Google Discover Icon
postado em 26/08/2026 05:00
x