"Muita gente não viu crianças afetadas pela paralisia infantil e acha que essas doenças não existem mais", relata a gerente da Rede Frios do Distrito Federal, Teresa Luiza Pereira, ao comentar as oscilações e a falta de adesão às campanhas de vacinação na capital. Apesar da redução dos casos de poliomielite, meningite e hepatites virais nas últimas duas décadas, a população fica vulnerável a essas doenças quando deixa de se vacinar. Exemplo disso é que este ano, em São Paulo, foram registrados 16 casos de sarampo — dado que acendeu o alerta no território nacional.
Para barrar o reaparecimento de enfermidades como o sarampo e a poliomielite no país, começou, ontem, a Estratégia de Multivacinação 2026, que segue até 1º de setembro. O objetivo é vacinar crianças e adolescentes que estejam com esquemas vacinais incompletos. A mobilização também terá um Dia D em 22 de agosto, quando as ações de imunização serão intensificadas nas unidades básicas de saúde (UBSs) e em pontos comunitários de todas as regiões do DF.
O foco prioritário da iniciativa, promovida pelo Ministério da Saúde em parceria com estados e municípios, são crianças e jovens menores de 15 anos. O objetivo é garantir a aplicação das doses previstas no Calendário Nacional de Vacinação para proteger a população contra doenças imunopreveníveis.
Teresa Luiza Pereira assinala que a Secretaria de Saúde do DF (SEES-DF) está atenta aos novos números de sarampo no Brasil e reforçou ações para garantir que a capital não seja afetada. Segundo ela, estratégias como estender horários de vacinação durante a semana para até as 22h e instalar pontos de vacinação em lugares de alta circulação têm surtido efeito. A gerente ressalta que os profissionais de saúde têm acesso ao banco de dados dos vacinados e estão alertando os pais das crianças que estão com doses atrasadas via WhatsApp.
Acompanhada do filho de 11 anos, Miguel Chagas, para a vaciná-lo contra o Papilomavírus Humano (HPV), a psicóloga Marcela Abreu Rodrigues, 44 anos, destacou a importância da imunização. Com a carteira de vacinas do menino em mãos, ela relatou que a capital tem muitos imunizantes disponíveis. "Mas há pessoas que moram em regiões muito distantes, o que dificulta o acesso à saúde", ponderou. Miguel garantiu que não tem medo de vacina e que a agulhada não dói tanto. "Só é ruim a sensação depois, por que algumas têm efeito colateral", apontou.
Consequências
Segundo a médica infectologista Ignez Fernandes, doenças como a poliomielite — condição que pode causar paralisia permanente nos membros — deixaram de ser transmitidas de maneira endemica graças à vacinação. Entretanto, na opinião dela, a disseminação de informações falsas tem resultado em retrocesso. "Logo no Brasil, onde temos um dos maiores e mais completos programas públicos de imunização do mundo", lamentou a médica.
Ignez lembrou que as consequências da falta de adesão ampla às vacinas podem ser desastrosas. A especialista citou os recentes casos de sarampo registrados em São Paulo, dois anos após o Brasil ter emitido um certificado de eliminação da doença. "Esses casos poderiam ter sido evitados com a vacinação. Caso ocorra uma perda de imunização coletiva, as taxas de mortalidade infantil podem voltar a aumentar", alertou a médica.
No Distrito Federal, a cobertura vacinal continua abaixo das metas de saúde pública para a maior parte dos imunizantes, sobretudo nas doses de reforço e nos esquemas que exigem retorno às unidades de saúde. Dados da Secretaria de Saúde mostram que, no primeiro quadrimestre de 2026, nenhuma das principais vacinas destinadas a menores de 1 ano atingiu 95% de cobertura. Os índices ficaram em 86,97% para poliomielite, 86,74% para pentavalente e 91,93% para meningocócica C. A vacinação contra a covid-19 apresentou o resultado mais baixo nessa faixa etária, com apenas 17,4%, apesar do avanço em relação aos 10,53% registrados em 2024.
A dificuldade de completar os esquemas torna-se mais evidente nas idades seguintes. Entre as crianças de 1 ano, a cobertura da segunda dose da tríplice viral ficou em 79,73%, enquanto o primeiro reforço da DTP alcançou 76,18%. Aos 4 anos, a segunda dose contra a varicela subiu de 40,15%, em 2024, para 77,38% em 2026, mas ainda deixou quase uma em cada quatro crianças sem cobertura. Entre os adolescentes, os dados de 2025 indicam crescimento da vacinação contra dengue e meningite, mas queda expressiva do HPV, cuja cobertura recuou de 81,5% para 70,8% em um ano.
