Pintando a cidade de um amarelo vibrante, os ipês parecem ter perdido a data de floração. Brasilienses sentem falta do amontoado de árvores recheadas com as flores do Cerrado, que já poderiam estar colorindo a capital do céu ao chão - comumente decorado com tapetes amarelos de folhas, como em anos anteriores. Segundo o biólogo Marcelo Kuhlmann, o regime climático influencia no desabrochar da espécie, que pode ter a floração adiada com chuvas fora de época ou mesmo quando o início da seca demora a se estabelecer.
Da Asa Sul à Norte, algumas poucas unidades parecem iniciar o período de floração nesta primeira semana de agosto. Nas proximidades da L2 Norte, a quadra residencial da 402 é marcada visualmente pelo amarelo vivo dos ipês no inverno. No entanto, em julho a espécie decepcionou os frequentadores, com poucas árvores floreadas. Pietra Mayrink, de 23 anos, corre pela região ao menos três vezes por semana e já esperava ver a quadra mais florida.
"Honestamente, os ipês amarelos são os meus favoritos, especialmente porque eles alcançam o auge justamente na semana do meu aniversário", diz a estudante de direito.
Em 28 de agosto, ela completará 24 anos, e está ansiosa para ver os tons de amarelo se espalharem por Brasília. Pietra relembra que, no ano passado, as árvores adiantaram o período de floração, dando a impressão de que, neste ano - por estar chegando quase no meio de agosto -, a espécie pode estar atrasada. "Não minto que fico o ano inteiro esperando que os ipês apareçam. O amarelo, em especial, me passa uma certa resiliência", descreve a jovem.
A impressão de Pietra faz todo sentido. De acordo com Kuhlmann, doutor em botânica pela Universidade de Brasília (UnB), o momento em que os ipês abrem suas flores depende diretamente de como eles reagem à estiagem. Por isso, esse espetáculo anual pode se antecipar ou atrasar por semanas.
"O principal fator é o regime climático. Quando a seca demora a se consolidar ou ocorrem chuvas fora de época, a floração é adiada", explica o especialista. Com o fim das chuvas, a planta entende o sinal biológico para interromper o crescimento de novas folhas e focar totalmente na produção das flores.
Isso acontece devido à disponibilidade de água no solo. O pesquisador descreve que a floração dos ipês nunca acontece exatamente na mesma data anualmente. De modo que é natural haver variações de semanas, justamente em função das condições climáticas de cada estação. "Em anos com seca mais precoce, a floração pode ocorrer mais cedo. Já em anos com chuvas prolongadas ou temperaturas atípicas, ela tende a atrasar", afirma o especialista.
Encanto
Na área comercial da CLSW 302, no Sudoeste, um ipê-amarelo, solitário, ao canto de um estacionamento, conseguiu alcançar a fase de floreio, encantando quem passa pelo local. Carmem Moreira Nunes, de 52 anos, se desloca do Riacho Fundo até o Sudoeste, diariamente, para o trabalho e destaca que a árvore de flores amarelas é um evento para os funcionários da loja em que ela trabalha. "Todos param para tirar fotos. Ela deixa a paisagem mais alegre, especialmente porque está isolada, então, ganha maior destaque com o céu azul ao fundo", elogia a auxiliar de serviços gerais.
Na percepção de Carmem, o fato dos ipês-amarelos brilharem durante o período de seca é que os torna mais chamativos. As árvores nativas seguem um ritmo oposto ao das plantas que dão flores no período primaveril. "É por isso que ele deixa o Cerrado mais bonito", comenta ela.
Este ciclo dos ipês é o resultado de milhares de anos de adaptação. De acordo com o biólogo Kuhlmann, a espécie evoluiu ao longo de milhões de anos sob as condições típicas do Cerrado, "marcadas por uma estação seca prolongada e outra chuvosa", destaca o especialista. Ele explica, ainda, que, durante o período de seca, a planta reduz a própria perda de água ao derrubar as folhas, direcionando as reservas para a reprodução, o que causa uma floração intensa.
Moradora da Asa Norte há 3 anos, Bruna Grebot, 35 anos, reside próximo ao espaço verde na região da L2 Norte e notou um certo atraso da floração da quadra. A advogada anda com a cadela Margô, de 6 anos, diariamente, entre as árvores e, segundo ela, nesse mesmo período dos anos anteriores, ela já via mais ipês amarelos no seu auge. "Traz um certo toque de poesia para o nosso dia a dia. Ter árvores e beleza ao redor faz toda a diferença", descreve.
Nas palavras do doutor em Botânica, os ipês são um símbolo da cidade devido ao uso dessas árvores para o paisagismo e arborização urbana de Brasília. Denominando-se um "apaixonado pelo Cerrado", Kuhlmann observa que a espécie reúne uma série de características que a tornam uma das mais emblemáticas da flora no Centro-Oeste. "Antes de florescer, ele perde completamente as folhas, fazendo com que toda a copa fique coberta apenas por flores amarelas. É um espetáculo que chama a atenção", finaliza.
