ENTREVISTA

CB.Saúde: 'O risco do sarampo é real', alerta infectologista da UnB

Ao CB. Saúde, o infectologista Gustavo Romero destacou a importância da vacinação para evitar a disseminação da doença. Para ele, cuidado deve ser redobrado no DF, que tem um dos maiores aeroportos do país

Com 24 casos confirmados de sarampo no Brasil neste ano, segundo o Ministério da Saúde, o país vive um período de alerta para esse vírus. Em entrevista ao CB.Saúde  — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília  — o infectologista e professor da Universidade de Brasília (UnB) Gustavo Romero falou sobre a importância de manter a vacinação em dia para evitar o contágio. Às jornalistas Carmen Souza e Sibele Negromonte, o médico descreveu como será a 61ª edição do Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, de 16 a 19 de agosto, em Brasília. 

Este é um momento de atenção com relação ao sarampo?

Certamente. Estamos vendo o resultado de algum tipo de omissão que aconteceu de maneira bastante consistente para reduzir a proteção que a população deveria ter por meio da vacinação. Além de prestar atenção ao que está acontecendo, há ações que têm que ser seguidas conforme as diretrizes dos gestores locais de saúde para evitar esse dano. Há como evitá-lo. Temos uma vacina efetiva para isso, mas é muito importante que as pessoas entendam o que está acontecendo e tomem as devidas providências. 

O que o senhor diria, hoje, para pais e pessoas adultas sobre a vacinação? 

Foi feita uma recomendação muito boa do Programa Nacional de Imunizações do que deveria ser feito pelas pessoas que iriam assistir aos jogos da Copa do Mundo, porque os Estados Unidos estão enfrentando uma situação ainda mais crítica do que a gente. O México também. Na verdade, hoje, a gente tem um risco global. Nós passamos décadas com um programa de imunizações muito efetivo que protegeu a população brasileira de qualquer tipo de epidemia. No momento em que se introduziram casos adquiridos em outros locais, como Europa, eles eram rapidamente bloqueados com vacinação para evitar surtos no Brasil. Isso era mais fácil de se fazer. Agora, após termos passado um período obscurantista no sentido de crescimento do movimento antivacina no Brasil, a gente está pagando essa conta. É um momento de reflexão. O Brasil tem uma longa e forte tradição de vacinação que já está sendo resgatada nos últimos anos. No entanto, ela ainda precisa ser 100% resgatada para que os riscos para a população brasileira fiquem próximos de zero. 

O Brasil recuperou em 2024 o certificado de país livre de sarampo. Neste momento, com aumento de casos em São Paulo, uma cidade central e muito populosa, o Brasil corre risco de perder o controle da disseminação dessa doença? 

Sempre que acontecem eventos como o de agora, esse risco aparece. O risco é real. Por isso, fazemos a convocação para toda a população colaborar. Hoje, temos a ponte aérea entre Brasil e São Paulo. Uma situação que acontece lá coloca o Brasil em risco. Especificamente para o Distrito Federal, a gente vê esse risco diferenciado porque estamos com um dos maiores aeroportos do país. Ele é muito movimentado, com muita gente indo e vindo. Há muitas pessoas vindo de outros países também onde estão acontecendo surtos de sarampo. Não houvesse a forte reação do poder público responsável, estaríamos saindo do prumo. 

A vacina tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola, é recomendada para pessoas com até 59 anos. Por quê? Significa que o idoso não tem risco de pegar a doença? 

Na verdade, a população acima de 60 anos tem uma história de exposição a agentes infecciosos um pouco diferente daqueles que são mais jovens. É uma questão de probabilidade. Se eu coletar uma amostra de sangue para observar se eu já tive contato com o vírus e se eu tenho anticorpos, a probabilidade de que eu os tenha é muito alta.  A segunda questão é que não quer dizer que uma pessoa acima de 60 anos não possa ou deva tomar a vacina. Por isso, é bom ir à unidade de saúde, porque idosos começam a ter outros tipos de agravos, que nós chamamos de comorbidades. Em algum momento, pode aumentar o risco de ter algum evento indesejado com uma vacina. Então, quando alguém acima de 60 anos vai tomar uma vacina, ela precisa da orientação de um profissional de saúde.

A partir do dia 16 de agosto, Brasília vai sediar o Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. O que esperar do evento? 

Esta é a 61ª edição do congresso. São cinco dias de evento. Os dois primeiros são dedicados à realização de oficinas e cursos. Nos três seguintes, acontece o congresso em si. Ele congrega gestores de saúde, pesquisadores, docentes, alunos de pós-graduação e a sociedade civil organizada. A sociedade civil se organiza para participar do congresso, fazer parte dessas discussões e buscar soluções para os agravos que são prioritários, principalmente, para o Brasil e para a região tropical como um todo. Neste ano, escolhemos como tema fazer uma releitura a partir da visão do sul global. Entendemos muitos dos agravos infecciosos e parasitários que acometem as populações que residem na região tropical têm uma determinação social muito forte. Essa determinação está ligada a aspectos de natureza econômica, de como nós nos constituímos, produzimos, lidamos com o trabalho, e construímos nossas casas como sociedade. Isso também é determinado pelas relações que nós temos com o norte global em relação à produção de soluções em saúde. 

*Estagiária sob supervisão de Eduardo Pinho

 

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