Entre o choro, o samba, o maracatu e outros estilos, nasce o álbum de música instrumental Samblei, de Filipe Braga. Aos 39 anos, o psicólogo e músico nascido em Brasília lança seu primeiro disco solo, no mês que vem, após uma trajetória coletiva passando por diversas linguagens musicais no Distrito Federal.
Na opinião do artista, a identidade brasiliense é formada pela riqueza de culturas e perspectivas que convivem no mesmo território. "Nos últimos anos, temos falado muito de uma identidade brasiliense. De fato, tem uma identidade nova que conecta o Cerrado com a dimensão urbana e traz uma multiplicidade de referências", assinala.
Filipe constrói sua trajetória na cultura popular, celebrada com a grandiosidade dos mestres da capital: tocou com Martinha do Coco, foi músico do grupo de maracatu Tambores do Paranoá e do Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, referências na região. Para ele, a união dessa dimensão artística conflui para construir uma música instrumental singular.
O diálogo entre a arte e a psicologia também marcou a carreira do músico. Iniciado em 2012, o projeto Maluco Voador oferecia oficinas semanais a usuários atendidos em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Segundo Filipe, o projeto mostra que a cura e a reinserção das pessoas na sociedade podem vir a partir da arte. "Até hoje, pacientes que participaram das oficinas tocam e recebem cachê, atuando profissionalmente na cena musical do DF. A partir da música, eles reconfiguraram seus próprios espaços e reconstruíram a autoestima", destaca.
O psicólogo conta que o projeto nasceu para quebrar o estigma em torno do sofrimento mental. "O nome Maluco Voador brinca com o rótulo de 'louco', muitas vezes atribuído a pessoas que precisam de apoio psicossocial. Mas a gente precisa pensar a forma de as pessoas serem reinseridas na sociedade, voltarem a participar e a colaborar", explica. Ele relata, inclusive, que viu integrantes do grupo serem reconhecidos e procurados pela família depois de subirem no palco. Uma experiência que, segundo Filipe, atravessa seu trabalho autoral. "Eles (os pacientes) têm uma forma de fazer música muito diferente, que eu levo para as minhas caminhadas como músico."
E foi justamente da tradição coletiva da cultura popular, do choro e das rodas "onde todo mundo pode entrar", como define Filipe, que nasceu, duas décadas depois do início de sua trajetória, a vontade de assinar um trabalho autoral solo. "Não considero que seja um álbum de choro, pois esse estilo tem tradições e cânones", comenta. O artista prefere chamar o resultado de música instrumental brasileira.
O nome do disco nasceu de uma brincadeira: "Na música instrumental, nem sempre a gente atinge esse lugar popular. Muitas vezes, ela é vista como música erudita. O álbum Samblei é uma brincadeira com as palavras sambar, sambado. Existem muitos sambas: o samba de coco, o samba-canção, o pagode, a sambada de maracatu rural, entre outros. A ideia de sambar é no sentido de brincar na rua", detalha.
O disco carrega o carinho do artista pela cidade. Entre as faixas, uma valsa dedicada a Brasília e referências que atravessam a América Latina, o choro e a cultura popular. "Esse álbum se relaciona com as questões da cidade", diz. É uma Brasília que, para ele, vai muito além do Plano Piloto: "Brasília que se estende até a Chapada, até a natureza e as caliandras. Lugares que a gente chama de periferia, mas, na verdade, são muito centrais. Muitas vezes, é lá que acontece a cultura do DF."
DNA musical
Samblei reúne uma banda base e participações especiais numerosas, como um retrato da diversidade musical do Distrito Federal. Ao lado de Filipe no bandolim, na viola caipira e na guitarra baiana, estão Vavá Afiouni no baixo, Eduardo Souza no violão, Mariano Toniatti na percussão, e produção musical de Marquinhos Mores.
Como participações especiais, estão Gabriel Paes, guitarrista e violinista; Isadora Pina, no saxofone; Thanise Silva, professora da escola de música e flautista; Emília Monteiro, na voz; Laryssa Umaytá, percussionista que viajou do Rio de Janeiro para gravações do disco; e beta de Seu Teodoro, do Boi de Seu Teodoro, que participa, junto com Tamá Freire, também na voz.
Para Filipe, o elenco é o retrato de uma Brasília com "um DNA musical muito forte". "Por não estarmos presos a um único estilo, os músicos brasilienses olham a música de uma maneira muito diferente", afirma. O álbum ganha vida no show de lançamento em 21 de agosto, no Teatro dos Bancários. Lá, parte do Boi de Seu Teodoro também se apresenta.
Filipe conta que já tocou em bares, na rua e nos mais diversos formatos ao longo da carreira, mas confessa amor pelo palco do teatro: "Gosto muito de tocar no teatro, porque podemos misturar a luz e a cenografia para as pessoas entrarem em uma viagem". A proposta do show, segundo ele, é romper expectativas. "Quando as pessoas esperam uma melodia leve na flauta, vem o tambor do boi", diz, sobre o encontro entre o choro e a percussão do boi maranhense.
"A musicalidade está no coração batendo, nas pernas se movendo", resume o músico, que enxerga no choro, antes de tudo, uma prática democrática, construída na roda, no encontro entre o estudo formal e a improvisação, entre tradição e experimentação. Esse é o espírito coletivo que ganha corpo no álbum Samblei.
*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Pinho
