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Mãe transforma desafios do filho com altas habilidades em rede de apoio no DF

Neste mês dedicado à conscientização sobre altas habilidades, Aline Moraes reúne famílías em atividades de enriquecimento e cobra que novos direitos saiam do papel

Aos 7 anos, Gabriel Moraes já havia passado por sete escolas. A mudança constante não ocorria por uma escolha da família, mas pela dificuldade de encontrar um ambiente que compreendesse as necessidades do menino, que começou a ler aos 2 anos e 9 meses. O que inicialmente parecia apenas uma habilidade precoce acabou mostrando uma realidade ainda pouco conhecida: Gabriel tinha altas habilidades ou superdotação. 

“Ele começava a rasgar as folhinhas, a ficar entediado, e a não querer ficar em sala de aula”, conta a mãe, Aline Moraes, 46 anos, ao Correio. Segundo ela, o comportamento era frequentemente associado pelas escolas a algum transtorno de neurodesenvolvimento e não havia nenhum suporte por parte das instituições. A identificação das altas habilidades, porém, demorou a acontecer. Aos cinco anos, uma avaliação apontou a possibilidade de superdotação. Um ano depois, outro exame confirmou a condição. 

A busca por uma escola que conseguisse atender o filho também afetou a vida profissional de Aline, formada em Serviço Social. Ela deixou o trabalho quando Gabriel tinha cerca de cinco anos e meio. A partir daí, passou a estudar sobre altas habilidades e a desenvolver atividades para atender às necessidades dele. 

“Eu sou uma mãe que resolveu não esperar e buscar atender as necessidades do meu filho”, afirma. 

A experiência pessoal acabou se transformando em uma rede de apoio para outras famílias. Quando Gabriel tinha cerca de seis anos, Aline criou o grupo Mães AHSD 2E do DF, que também pode ser encontrado no Instagram pelo @familias.ahsd.2e. A comunidade cresceu e chegou no limite de integrantes permitido pelo WhatsApp, com mais de mil mães. Paralelamente, ela passou a organizar oficinas e atividades de enriquecimento curricular. 

Ao longo dos últimos anos, foram mais de cem oficinas, segundo Aline. A programação inclui robótica, matemática, música, clubes de leitura, visitas a museus, atividades científicas e passeios pedagógicos. Muitas ações são gratuitas ou têm custo simbólico. A proposta visa a ampliar o acesso das crianças a experiências que nem sempre estão disponíveis na escola por falta de preparo. 

Além disso, entre as atividades já realizadas estão visitas a museus, cinema científico na Universidade de Brasília (UnB), aulas de matemática em projeto de extensão e um acampamento astronômico que reuniu 90 famílias. Para Aline, além do conhecimento, os encontros permitem que as crianças convivam com outras que têm interesses e características semelhantes.

Uma nova política nacional 

A mobilização das famílias também chegou ao Congresso Nacional. Em junho deste ano, foi sancionada a Lei nº 15.436/2026, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. A legislação determina ações para identificação precoce, atendimento educacional especializado, desenvolvimento integral e inclusão desses estudantes no sistema educacional brasileiro. Também criou o Cadastro Nacional de Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. 

A lei estabelece que o atendimento educacional especializado pode incluir programas de enriquecimento, diferenciação ou aprofundamento curricular, aceleração de estudos e agrupamento de estudantes por interesses. O texto também prevê formação de profissionais da educação e fortalecimento da participação das famílias no processo educacional.

Para Aline, a aprovação representa uma conquista das famílias que há anos tentam ampliar a visibilidade da pauta. Ela participou da mobilização que levou a discussão para a Câmara Legislativa do Distrito Federal, a Câmara dos Deputados e o Senado. “Eu costumo dizer que a minha carência gerou uma competência”, afirma.

Apesar do avanço na legislação, ela avalia que ainda existe uma distância entre o que está previsto e o que as famílias encontram no cotidiano. Aline aponta a falta de profissionais capacitados e de estrutura como alguns dos obstáculos. Para ela, a formação não deve se limitar à escola, mas alcançar também áreas como saúde e assistência social.

“Eu acho que a gente está muito longe de atender verdadeiramente o superdotado”, afirma.

A própria trajetória de Gabriel ajuda a explicar a preocupação. Segundo Aline, a falta de estímulos e adaptações contribuía para momentos de desregulação emocional e dificuldade de permanência em sala. Com atividades de enriquecimento e contato com outras crianças, ela percebeu mudanças no comportamento do filho que hoje em dia tem 11 anos.

Agosto de atividades

Neste mês de conscientização sobre altas habilidades, Aline organizou uma programação voltada às famílias. Entre as ações estão visitas pedagógicas, atividades em inglês no zoológico, visita a sítio arqueológico e um acampamento astronômico. 

O encerramento será neste sábado (29/8), com um encontro de famílias no Unidade Nacional de Acessibilidade (Unaparque). A programação terá canoagem em família, futebol de sabão, guerra de cotonete, brincadeiras, picolé, pipoca e piquenique coletivo.

Mais do que uma programação de lazer, a proposta é criar um espaço em que as crianças possam brincar, aprender e encontrar outras famílias que vivem desafios semelhantes.

Aline diz que pretende continuar usando a própria experiência para ampliar essa rede. Para ela, o maior resultado de toda a trajetória não está apenas nas atividades realizadas ou nas conquistas políticas, mas na possibilidade de mostrar às famílias que elas não estão sozinhas.

“Quando a família se une, a gente consegue coisas como uma lei hoje que a gente tem”, afirma.