Entre corredores normalmente marcados pelo trânsito de magistrados, servidores e cidadãos em busca de justiça, o hall do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) ganhou novas cores nesta segunda-feira (31/8). A exposição A arte do povo das ruas, composta por 50 obras produzidas por pessoas em situação de rua, foi inaugurada na sede do tribunal e convida o público a enxergar além da vulnerabilidade social, revelando trajetórias, sonhos e talentos muitas vezes invisibilizados.
Promovida pelo TJDFT em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a mostra integra as ações da Política Nacional Judicial de Atenção às Pessoas em Situação de Rua e reúne trabalhos desenvolvidos dentro do projeto PopRuaJud – A Arte do Povo das Ruas.
As obras ficarão expostas até 25 de setembro, com visitação gratuita.
Ao percorrer a exposição pela primeira vez, o presidente do TJDFT, desembargador Jair Soares, destacou o impacto provocado pelas pinturas e desenhos. Para ele, abrir as portas do tribunal para iniciativas como essa representa uma forma de ampliar o olhar institucional sobre pessoas em situação de vulnerabilidade.
“Para o tribunal é muito importante trazer e dar esse espaço para essas pessoas em situação de vulnerabilidade”, afirmou. Segundo o magistrado, a iniciativa nasceu no âmbito do CNJ e chega ao Distrito Federal como uma oportunidade de reconhecimento. “Foi a primeira vez que tive acesso a essas obras e fiquei muito grato por essa iniciativa”, acrescentou.
Para ver além da vulnerabilidade
A exposição foi organizada pela 2ª Vice-Presidência do TJDFT. O desembargador Teófilo Rodrigues Caetano Neto, responsável pela coordenação da iniciativa no tribunal, ressaltou que o projeto busca aproximar a população da produção artística criada por pessoas que enfrentam situações extremas de exclusão social.
“Para o Tribunal de Justiça, ter a possibilidade de trazer esse projeto e oferecer à população a oportunidade de conhecer essa produção é muito relevante”, avaliou. Segundo ele, a mostra permite que visitantes enxerguem mais do que a condição de rua. “É uma oportunidade para ver além daquela pessoa que está em situação de vulnerabilidade e reconhecer alguém que transcende essa realidade por meio da arte”, disse.
As obras ocupam um dos espaços de maior circulação da sede do tribunal. A escolha do local, segundo o desembargador, foi estratégica para facilitar o acesso do público. “A mostra é aberta à população e foi montada justamente em um ambiente de fácil acesso”, explicou. “Convidamos todos a conhecer essa produção ao longo dos próximos 30 dias”, completou.
Entre os visitantes da inauguração estava o secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Fernando Modesto. Com passagem anterior pela área de assistência social do governo local, ele afirmou que a exposição une dois temas que marcaram sua trajetória profissional: a cultura e a atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade.
“A gente vê peças belíssimas aqui e, muitas vezes, o que as pessoas precisam é apenas de uma oportunidade”, observou. Para ele, o significado da mostra vai além da valorização artística. “Eu escrevi no livro da exposição que aqui a gente abre uma grande porta para quem só precisa de uma janela”, contou.
Modesto também destacou que muitas das obras retratam experiências difíceis vividas pelos autores. “Alguns quadros refletem muito esse sofrimento pessoal”, disse. Ainda assim, para o secretário, a exposição demonstra o potencial transformador da arte. “Dar essa oportunidade é algo memorável. Se não for para isso, não há razão para o nosso trabalho existir”, afirmou.
Parceiro das ações do PopRuaJud, o Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União no Distrito Federal (Sindjus-DF) também participou da inauguração. O vice-presidente da entidade, Francisco Xavier, definiu a exposição como uma surpresa positiva para quem acompanha de perto o trabalho desenvolvido com a população em situação de rua.
“Essa exposição foi uma surpresa maravilhosa”, declarou. Segundo ele, as obras demonstram que a condição de vulnerabilidade não elimina a capacidade criativa das pessoas. “Eles estão na rua, estão vulneráveis, mas não perderam a essência, o amor e o carinho. Têm um talento espetacular”, ressaltou.
Para Xavier, a iniciativa reforça o papel social desempenhado pelo sistema de Justiça. “Mostra que o Judiciário está fazendo a sua parte na responsabilidade social que é necessária”, afirmou. Ele também destacou a importância de políticas públicas que garantam acolhimento e reinserção social. “Só de saber que essas pessoas podem ter uma casa, o carinho de uma família e um reencontro com familiares, já ajuda a amenizar parte desse sofrimento”, concluiu.
