
A dinâmica do debate eleitoral promovido pelo Correio em parceria com a TV Brasília criou o que analistas classificaram como um "equilíbrio tenso", no qual propostas pragmáticas dividiram o palco com rivalidades históricas e ataques severos entre os concorrentes. Os seis principais postulantes ao Palácio do Buriti participaram do encontro: Celina Leão (PP), José Roberto Arruda (PSD), Leandro Grass (PT), Ricardo Cappelli (PSB), Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo), mediados pelos jornalistas Denise Rothenburg e Carlos Alexandre de Souza.
Dividido em quatro blocos, o programa colocou os candidatos sob pressão ao vivo, sem a proteção de marqueteiros ou edições de estúdio. O cientista político Robson Carvalho, professor da Universidade de Brasília (UnB), destaca que os postulantes de oposição souberam aproveitar melhor a dinâmica para desgastar a imagem da gestão atual, enquanto o governo acabou forçado a adotar uma postura defensiva perante o eleitorado diante dos episódios recentes de repercussão pública na capital federal.
"Em geral, os principais candidatos opositores se destacaram, especialmente (Leandro) Grass e (Ricardo) Capelli, até porque a atual governadora encontra-se em uma situação menos confortável por ter que se justificar e apontar versões em relação a problemas e malfeitos, como no caso da fraude do BRB e Banco Master. A defesa de Celina é no sentido de corrigir e enfrentar problemas que não teria sido ela quem os criou, porém, ela tocou o governo a quatro mãos com o seu ex-titular Ibaneis (Rocha). Figurou assim como alvo dos principais adversários", analisou Carvalho.
A disputa também funcionou como um espaço decisivo para a construção de narrativas políticas voltadas para mobilizar quem ainda não bateu o martelo. Doutor em direito constitucional e pró-reitor da Estácio Brasília, Murilo Borsio Bataglia ressalta que o verdadeiro impacto desse tipo de confronto ocorre no momento em que a crítica atinge os problemas reais do cotidiano do cidadão. "Quando uma crítica é associada a uma questão concreta, como fila na saúde, transporte ou segurança, ela pode alterar a percepção de um eleitor que ainda está comparando alternativas", explicou Bataglia.
Na avaliação do cientista político Rócio Barreto, sócio da Royal Politics Consultoria e MKT Político, cada concorrente tentou demarcar um nicho específico para influenciar o eleitorado. Ele destacou que Celina usou o discurso da continuidade, Grass focou na educação e na oposição ideológica, e Arruda apelou para obras do passado. Barreto explicou ainda que Paula Belmonte assumiu a postura de fiscalização; Kiko Caputo defendeu a eficiência do estado com o modelo liberal; e Capelli buscou aproximar-se da rotina dos moradores do Entorno e das regiões administrativas.
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"O debate ficou nitidamente marcado por três grandes frentes narrativas: a defesa cega da gestão atual, a tentativa de apresentar uma alternativa renovadora e o resgate da experiência administrativa do passado. Cada postulante buscou se distanciar das fragilidades dos adversários para tentar capturar os eleitores que ainda estão indecisos sobre quem reúne as melhores condições de governar o DF", apontou Barreto.
Por outro lado, o potencial para virar votos de forma imediata divide opiniões. Sob a ótica do especialista em gestão Lindomar Miranda, coordenador de administração da Estácio Brasília, o tom beligerante adotado nos blocos de confronto direto tem um alcance limitado no eleitorado flutuante.
"Os embates de natureza pessoal e histórica tendem a reforçar posições já cristalizadas: quem já gosta de um ou outro sai do debate mais convicto, quem não gosta, também. Esse tipo de troca raramente converte voto, ela mobiliza a base e aumenta a rejeição cruzada", afirmou Miranda.
Temas sociais
Os temas sociais dominaram os anúncios das plataformas de governo ao longo da transmissão. Na saúde pública — setor pressionado por uma fila de 31 mil cirurgias e mais de 1 milhão de exames represados —, foram prometidas a contratação imediata de 5 mil médicos e 2 mil enfermeiros, e a construção de quatro novos hospitais e sete UPAs.
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Na segurança pública, as propostas focaram a contratação urgente de mais de 7 mil policiais militares para recompor o efetivo. Já na mobilidade urbana, os discursos abordaram a aplicação de tarifa zero no transporte coletivo e a expansão do metrô para Samambaia, Ceilândia, Sol Nascente e Pôr do Sol. Na educação, prometeu-se a construção de mais de 100 novas creches para suprir o deficit de vagas.
Paralelamente às promessas sociais, as suspeitas em torno da situação financeira do Banco de Brasília (BRB) e as transações com o Banco Master emergiram como o ponto de maior desgaste político para o Palácio do Buriti. Para conter a ofensiva das oposições, candidatos apresentaram propostas técnicas, como o fechamento de 19 agências fora do DF, o encerramento de patrocínios milionários e a criação de um gabinete específico de combate à corrupção.
Ao avaliar a gravidade do tema para as contas públicas e para o futuro dos investimentos na capital, Robson Carvalho apontou a cobrança por transparência no setor bancário como o momento mais decisivo da noite. "O momento mais importante do debate diz respeito ao que todo cidadão do DF espera descobrir e passa pela palavra transparência: qual o real balanço do BRB? Quanto no total realmente foi desviado para compra de títulos podres do Banco Master? Até agora estamos em 16 bilhões de reais. Este é um valor que impacta em todas as áreas discutidas."
Orçamento
A despeito das propostas apresentadas ao longo da transmissão, a viabilidade orçamentária não foi demonstrada pelas candidaturas. Lindomar Miranda resume o saldo do encontro pontuando que o evento cumpriu bem o papel de expor diretrizes, mas não foi possível saber a engenharia orçamentária que sustentaria tais projetos. Segundo ele, "houve proposta concreta em volume de anúncio", mas "rasa em estruturação orçamentária". Ele avalia que o debate entregou "o quê" com mais clareza do que o "como se paga".
Rócio Barreto chamou a atenção para o risco de o debate se resumir a um mero catálogo de desejos sem aplicação prática no orçamento real da capital federal. Ele sustentou que o processo eleitoral exige que as propostas venham acompanhadas do caminho exato de onde virá o dinheiro.
"O grande gargalo da noite foi a incapacidade dos candidatos de transformar o diagnóstico das crises em projetos exequíveis e orçados. Para além dos discursos de palanque, o eleitor do Distrito Federal precisa saber exatamente como essas soluções serão financiadas, sob qual cronograma de metas e de onde serão retirados os fundos para viabilizar obras tão grandiosas", enfatizou Barreto.
Murilo Bataglia complementa que o eleitor precisará cobrar o detalhamento técnico das promessas nos próximos fóruns da disputa eleitoral antes de tomar sua decisão. "O ponto que ainda precisa ser aprofundado pelos candidatos é como essas propostas serão implementadas: quanto custarão, de onde virão os recursos, qual será a capacidade administrativa necessária, quais serão as metas e como os resultados serão avaliados", salientou o jurista.
Além do gargalo orçamentário, os analistas chamaram a atenção para omissões graves de temas vitais para a população ao longo das duas horas de programa. Tópicos cruciais, como geração de empregos, desenvolvimento econômico fora do setor público, mudanças climáticas e a integração com o Entorno ficaram de fora dos embates, assim como a questão habitacional.
"O que ficou de fora, e chama atenção pela ausência, é habitação e regularização fundiária, tema estrutural para boa parte das regiões administrativas e que não apareceu uma vez sequer", concluiu Miranda.

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