DIREITO DO CONSUMIDOR

Cuidados para não cair em golpes ao reservar hospedagem

Anúncios falsos e hospedagens diferentes do prometido transformam viagens de lazer em dor de cabeça para consumidores

Direito do Consumidor — hospedagem -  (crédito: Caio Gomez)
Direito do Consumidor — hospedagem - (crédito: Caio Gomez)

Viajar para descansar, conhecer novos lugares e criar boas memórias. Esse é o objetivo da maioria dos turistas ao reservar uma hospedagem. No entanto, para muitos consumidores, o sonho das férias é interrompido por golpes e anúncios enganosos envolvendo hotéis, pousadas e casas de temporada. Seja por meio de perfis falsos nas redes sociais, seja por informações distorcidas sobre os imóveis anunciados, os prejuízos financeiros e emocionais atingem quem só queria se divertir.

A brasiliense e influenciadora digital Rani Rockert sabe bem como é viver essa situação. Acostumada a pesquisar e verificar informações antes de fechar qualquer compra, ela acreditava estar fazendo uma reserva segura para Pirenópolis (GO). A hospedagem apareceu em um anúncio patrocinado no Instagram, com fotos, vídeos e descrições detalhadas do local. "Eu me considero uma pessoa extremamente cuidadosa. Por isso mesmo fiquei surpresa quando percebi que tinha caído em um golpe. O anúncio parecia legítimo, tinha vídeos, fotos, contrato e atendimento muito profissional. Não havia nenhum sinal evidente de fraude", relata.

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Segundo Rani, a conversa foi conduzida pelo WhatsApp, onde os supostos responsáveis enviaram imagens da propriedade, informações sobre a estrutura do local e até um contrato de hospedagem. O pagamento inicialmente seria feito por cartão de crédito, mas, diante de problemas na transação, ela acabou realizando a transferência via Pix. "Eles não me pressionaram a fechar negócio. Na verdade, eu mesma estava com receio de perder a vaga porque era feriado e a cidade estava lotada. Fiz o Pix à vista e só descobri que era golpe quando cheguei ao endereço", conta.

Ao chegar ao local informado, ela recebeu uma notícia inesperada: a pousada existia, mas não havia qualquer reserva em seu nome. O perfil responsável pelo anúncio utilizava indevidamente imagens e informações reais do estabelecimento para enganar consumidores. "Foi um choque. O lugar existia, mas a hospedagem não tinha recebido nenhuma reserva minha. Eles usaram fotos e vídeos verdadeiros para criar um anúncio falso extremamente convincente", afirma.

Apesar do prejuízo, Rani decidiu compartilhar sua experiência nas redes sociais para alertar outras pessoas. "A moral da história é que precisamos ter muito cuidado com anúncios patrocinados, especialmente em períodos de alta procura. Eles usam imagens reais, nomes verdadeiros e até contratos para transmitir credibilidade. É muito difícil identificar a fraude", alerta.

Fotos enganosas

Em outros casos, o consumidor encontra o local, mas descobre que a estrutura oferecida é completamente diferente da que foi anunciada. Foi o que aconteceu com a enfermeira Rafaela Menezes durante uma viagem com três amigas para a Chapada dos Veadeiros. A pousada havia sido encontrada por meio de um anúncio no Instagram e, antes de concluir a reserva, ela procurou confirmar se o espaço realmente acomodaria quatro pessoas.

"Perguntei diretamente à pousada se o quarto comportava quatro hóspedes. Eles responderam que sim e enviaram fotos mostrando duas camas de casal, além de pia e micro-ondas dentro do quarto. Parecia perfeito para a nossa viagem", lembra.

A realidade encontrada, porém, foi bem diferente. Ao chegar ao local, Menezes e suas amigas se chocaram ao perceber que o espaço não contava com a estrutura contratada. "Quando chegamos, percebemos imediatamente que o quarto era muito menor do que aparecia nas fotos. Havia apenas uma cama de casal e os itens que apareciam nas imagens, como pia e micro-ondas, simplesmente não existiam", relata.

As amigas decidiram permanecer apenas a primeira noite no local para evitar transtornos maiores durante a viagem. No dia seguinte, procuraram outra hospedagem. "Nós nos sentimos enganadas. O problema não era apenas a questão do conforto, mas a sensação de ter comprado algo completamente diferente do que foi entregue. Parecia outro lugar", afirma Rafaela.

Após negociações, a pousada devolveu apenas os valores correspondentes aos três dias que não foram utilizados. "O reembolso ajudou a reduzir o prejuízo, mas ainda tivemos gastos extras para encontrar uma nova hospedagem em cima da hora. Foi uma situação desgastante que poderia ter sido evitada se as informações fossem verdadeiras desde o início", diz.

Riscos

De acordo com o especialista em mercado imobiliário Daniel Claudino, os golpes envolvendo hospedagens não são novidade, mas ganharam novas dimensões com o avanço das plataformas digitais e das redes sociais. "Golpes envolvendo hospedagem sempre existiram, mas o ambiente digital potencializou tanto a frequência quanto o alcance desses casos. Hoje é possível criar anúncios sofisticados, utilizar imagens produzidas por inteligência artificial e receber pagamentos instantaneamente por Pix, o que torna a fraude mais rápida e difícil de identificar", explica.

Segundo ele, os consumidores devem redobrar a atenção antes de fechar qualquer reserva. "É importante priorizar plataformas conhecidas, verificar avaliações reais de hóspedes anteriores e desconfiar de perfis recém-criados ou com pouca interação. Preços muito abaixo do mercado também costumam ser um sinal de alerta", orienta.

O especialista recomenda, ainda, evitar negociações fora das plataformas onde o anúncio foi encontrado. "Muitos golpistas oferecem descontos para que a negociação seja concluída diretamente pelo WhatsApp ou por transferência bancária. Isso reduz os mecanismos de proteção do consumidor e aumenta os riscos", destaca.

Segundo o advogado especialista em direito do consumidor Diego Serafim, a rapidez na reação pode ser fundamental para aumentar as chances de recuperação dos valores perdidos. "A primeira providência é interromper qualquer novo pagamento e comunicar imediatamente a instituição financeira. Também é essencial registrar ocorrência policial e reunir todas as provas relacionadas à negociação", explica.

O especialista ressalta que anúncios, conversas e comprovantes podem ser decisivos para as investigações. "Mesmo que o anúncio seja apagado posteriormente, prints, mensagens, comprovantes de Pix, e-mails e dados bancários podem auxiliar na identificação dos responsáveis e no rastreamento dos valores", afirma.

Além da esfera criminal, o consumidor também pode buscar reparação pelos prejuízos sofridos. "Dependendo das circunstâncias, existe a possibilidade de buscar judicialmente o ressarcimento dos valores e a responsabilização dos envolvidos. Cada caso precisa ser analisado individualmente", acrescenta.

Em um cenário em que a busca por hospedagens acontece cada vez mais pelas redes sociais, especialistas reforçam que a combinação entre cautela, pesquisa prévia e verificação de informações continua sendo a melhor forma de evitar que uma viagem planejada com antecedência termine em prejuízo.

*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates

 


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postado em 14/09/2026 05:00
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