Entrevista | Fábio Felix | deputado distrital (PSOL)

"Temos que organizar a resistência", diz Fábio Felix sobre cenário de 2027

Ao CB.Poder, o parlamentar mais votado no DF detalhou como deseja atuar ao assumir a cadeira na Câmara Federal. Pautas relacionadas à tarifa zero no transporte público e à redução do custo de vida da população serão prioridade do mandato

 05/10/2026. Ed Alves/CB/D.A Press. Cidades. CB Poder recebe Fabio Félix (PSOL), candidato a deputado federal mais votado do DF, somando 224.224 votos. -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
05/10/2026. Ed Alves/CB/D.A Press. Cidades. CB Poder recebe Fabio Félix (PSOL), candidato a deputado federal mais votado do DF, somando 224.224 votos. - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O deputado distrital eleito federal pelo PSol, Fábio Felix (PSol), disse que vai apresentar propostas relacionadas à tarifa zero e ao combate ao aumento abusivo de aluguéis. No domingo, ele foi o candidato a deputado federal mais votado no DF, somando 224.224 votos. Em entrevista ao CB.Poder  — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — , ontem, o político afirmou que pretende participar ativamente  da campanha do segundo turno de Leandro Grass (PT) para o Governo do Distrito Federal (GDF). Às jornalistas Denise Rothenburg e Mila Ferreira, ele também destacou a força do PSol, que se desponta como uma alternativa na esquerda.

Confira, a seguir, os principais pontos: 

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Como vai ser sua participação no segundo turno? 

No caso do DF, é muito importante a gente ter conseguido o segundo turno, porque acaba sendo uma nova eleição. Agora nós temos a oportunidade de fazer um debate sobre as questões da cidade, e não uma discussão se uma candidatura é viável ou não. A governadora Celina Leão (PP) é parte do projeto político que governa o DF há oito anos. Se a população reclama do transporte, da saúde, se temos o pior Ideb de ensino médio do país, precisamos atribuir tudo isso a um governo e ao governo de que ela faz parte. Se estamos enfrentando nossa pior crise de corrupção, há culpados e é quem lidera esse projeto político. Neste segundo turno, vamos ter oportunidade de conversar com a população do DF sobre todos os desmandos e dificuldades que nós estamos enfrentando e dizer que é possível construir uma alternativa de poder.

Qual vai ser a estratégia para Grass? 

Falei para ele que eu e o PSol vamos participar ativamente deste segundo turno. Eu, o deputado distrital Max Maciel (PSol), que foi reeleito com uma votação histórica, e a deputada distrital Keka Bagno (PSol) vamos participar com muito compromisso. Disse para Grass que precisamos ter duas linhas de campanha. Uma delas é conversar com a população sobre todos os problemas do DF. Trata-se de apresentar para o povo que suas reclamações têm materialidade e responsabilidade. Essa responsabilidade é do GDF. A segunda linha é uma campanha propositiva, apontando para mudanças no DF relacionadas ao respeito aos servidores, aos serviços públicos, ao resgate da dignidade da população na saúde e ao enfrentamento ao custo de vida. Temos que aproveitar o resultado que a gente teve na urna para percorrer o DF inteiro, chamando voto e fazendo campanha pela reeleição do presidente Lula.

Vai participar da campanha de Lula? 

Reeleger o presidente Lula é uma questão democrática e civilizatória. Para mim que sou uma pessoa LGBT assumida que está na política, trata-se de uma questão de sobrevivência e de direito à vida. Todos nossos direitos da comunidade LGBT foram conquistados por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O novo presidente pode indicar três ou quatro ministros para o STF. Qual impacto isso não pode ter na vida das pessoas LGBTs? Fazer campanha para o presidente Lula é uma questão de sobrevivência e de direito à vida para a população LGBT e para muitos outros. A gente precisa ser capaz de falar isso para a população.

O PSol virou um fenômeno com votação expressiva nas duas últimas eleições. Ao mesmo tempo, a maior parte da Câmara Legislativa do DF e da Câmara Federal é formada por deputados de direita e de centro-direita. Ao que você atribui isso? 

Temos uma dificuldade de renovação no campo da esquerda. Não à toa, o PSol tem se apresentado como uma alternativa política para a cidade. O deputado Max Maciel chega na bancada em 2022 e faz um mandato brilhante. Ele  defensor da tarifa zero, fiscaliza a mobilidade urbana, quer dizer, faz um trabalho muito importante pela cidade e agora tem essa votação histórica.

Temos a eleição de Keka Bagno, uma mulher feminista negra. Tivemos uma chapa com várias candidaturas importantes e que fizeram a diferença no DF. Então, o PSol tem apresentado essa alternativa e eu espero que isso possa inspirar o conjunto da esquerda. No PSB, temos a chegada do Múcio na Câmara Legislativa do DF. É uma ampliação da esquerda e centro-esquerda. É mínima, com um parlamentar a mais, mas já é uma ampliação importante que pode ajudar a dar voz a pautas que antes não tinham. 

É possível afirmar que o PSol e outros partidos da esquerda começam a tomar o lugar do PT? 

Não. Não acho que ninguém substitui ninguém. O PT continua sendo um partido muito forte e importante para a democracia brasileira. Ele tem história. Tenho uma relação muito respeitosa com ele. O PSol nasce como uma alternativa. É um partido que tem algumas diferenças em relação ao PT. Ele trata de algumas pautas que, muitas vezes, os setores da esquerda e de centro-esquerda não querem tratar. O PSol é autor, por exemplo, da ação no STF que discute a questão do aborto. É um tema importante dos direitos reprodutivos das mulheres, mas muita gente não quer falar sobre isso na política. 

Qual proposta você pretende levar para a Câmara Federal?

Primeiro, precisamos fazer uma análise do contexto do Congresso. Ele vai ser muito conservador. Nosso primeiro desafio vai ser organizar a resistência dentro dele. Independentemente do resultado do segundo turno para presidente, precisamos organizar a resistência para enfrentarmos retrocessos. Para lutarmos contra reforma trabalhista que revoga mais direitos dos trabalhadores, avanço na pejotização, reforma da Previdência que desvincule o salário de quem está na ativa de quem está aposentado. Está no programa do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) que ele quer desvincular o Benefício de Prestação Continuada (BPC) do salário mínimo. É uma série de retrocessos que podemos viver na realidade social. Precisamos falar sobre isso com a população agora. 

Em seguida, o que pretende fazer? 

Há vários temas importantes para nós. Percebi, ao longo da eleição, como pesa no bolso da população a questão do custo de vida. Esse tema foi, talvez, um dos principais pontos debatidos. Então, trouxemos duas pautas que eu considero muito importantes. A primeira delas é a tarifa zero no transporte público todos os dias, que é algo possível. Vimos no DF que a gente avançou na tarifa zero aos domingos e feriados. Conhecemos o custo do transporte público. É possível liquidar essa conta com os impostos que a gente paga. Isso pode ser feito por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), em que o dinheiro do vale-transporte também ajudaria a financiar a tarifa zero no Brasil inteiro. Seria  o dinheiro federal ajudando os estados e municípios. Isso vai ter impacto no bolso do brasileiro, melhorar sua qualidade de vida e garantir o direito à cidade. 

Como é um assunto muito local, é possível fazer uma PEC sobre isso?

Queremos avançar uma PEC que está tramitando, de autoria da deputada federal Luiza Erundina (PSol).  Ela trata sobre o financiamento e não sobre a organização do transporte. A organização é um tema local, mas o financiamento pode ser via federal. Então, ela consegue deslocar uma parte do dinheiro que iria para o vale-transporte, com uma mudança na lei trabalhista, para um fundo de transporte que vai ajudar a financiar a tarifa zero nos estados e municípios. Essa é a ideia, entre outras questões que essa PEC traz. 

Qual é a segunda pauta que deseja apresentar? 

O enfrentamento ao custo de vida, especialmente a questão do aluguel. Trouxemos, na campanha, a ideia de um projeto para revisitar a legislação que nós temos no Brasil em relação a esse tema, para colocarmos limite no aumento abusivo dos aluguéis. Queremos também trazer para cadastro público todos os imóveis desocupados vazios do DF. Temos 180 mil unidades habitacionais vazias no DF. Isso faz subir o preço do aluguel. Desejamos  regulamentar as plataformas de turismo porque elas têm ajudado a aumentar o preço do aluguel na cidade. A relação do locador com o locatário é, muitas vezes, abusiva. Precisamos falar sobre esse assunto. Como a gente não garante o direito à moradia com financiamento imobiliário, com casa própria, a gente tem que falar sobre o controle do preço dos aluguéis nesse país. Esse é um tema que eu quero levar com muita força para o Congresso Nacional.

O senhor concorreria ao GDF? 

Essa é uma discussão ainda prematura. Estou muito satisfeito com esse resultado de agora. Eu só posso agradecer à população do DF pela generosidade em me dar mais de 224 mil votos nessa eleição. Isso é fruto do nosso trabalho, que é sério e independente. Tem que ter parlamentar para fiscalizar e para balançar o contexto político. Tenho muito orgulho dessa votação. Ela expressa a necessidade de a gente construir a alternativa política para o DF. Só que essa alternativa não passa só por um nome. Ela passa por uma construção coletiva. Quero conversar com partidos, colegas e eleitos para pensarmos isso juntos. 

*Estagiária sob supervisão de Márcia Machado

 

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postado em 06/10/2026 05:00
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