
Ariano Suassuna costumava dizer que não se identificava com o pessimismo, tampouco com o otimismo. O autor de alguns dos clássicos da literatura brasileira, entre eles O Auto da Compadecida, que virou filme e série igualmente celebrados no Brasil e ganhou versões em diversos idiomas, achava o pessimismo um caminho muito amargo. Ele considerava, no entanto, o otimista um ingênuo.
"Eu me defino como um realista esperançoso", dizia. "Entre a indignação e a resignação, existe a esperança." É nas palavras do mestre que me apego nesses dias tensos que vivemos, e tento olhar em perspectiva o país que construímos ao longo dessas poucas décadas de formação da nossa frágil democracia.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Vivemos nada menos do que dois processos de impeachment e chegamos à metade da terceira década com instituições descredibilizadas. O povo escolhe heróis porque a todo o momento é apresentado a projetos que acabam em ruínas pela falta de competência do Estado em concretizá-los.
Mas penso que acreditar em heróis é tornar-se um otimista. Assim como apostar na incompetência generalizada da política e dos Poderes, sem reconhecer exceções e a necessidade de manutenção da democracia nos termos combinados em nosso pacto social, é se curvar ao pessimismo.
É por isso que a esperança me parece o melhor caminho, mas também o mais difícil. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, sobre o qual já escrevi aqui neste espaço, Ariano segue uma interpretação do Brasil feita por Machado de Assis e distingue o país entre o real, aquele mais instintivo e verdadeiro, o oficial, burlesco e caricato.
Enquanto buscarmos ser uma caricatura de nós mesmos sempre estaremos pendendo entre um extremo e outro, às custas da nossa própria saúde — em outros tempos foi a física e, hoje, é a emocional que talvez mais pese. Conseguimos vencer vírus devastadores, avançamos no combate à miséria, universalizamos o acesso à educação básica. E não, isso ainda não é suficiente. O povo brasileiro merece mais, certamente.
Já ali, no início dos anos 1990, o imortal previa, de um ponto de vista realista e esperançoso, que a saída para transformar o país numa verdadeira nação será quando as instituições do Brasil oficial tratarem de se recriar de acordo com a verdade do Brasil real.
Saiba Mais
Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF