
Noites curtas, correria e muito café! Assim foram os 70 dias da campanha eleitoral de Celina Leão (PP), governadora do Distrito Federal, que disputa o governo do Distrito Federal com Leandro Grass (PT). O pleito, a ser definido nas próximas horas, foi marcado por reviravoltas e embates acirrados. Apesar de ter sido o principal alvo dos demais concorrentes ao Buriti, Celina liderou desde o início da campanha as intenções de voto. No primeiro turno, venceu em 17 zonas eleitorais e conquistou 254.070 votos a mais que o adversário em segundo lugar. O sentimento, segundo ela, é de missão cumprida.
Sob o calor típico da primavera, Celina chegou ao Taguaparque, ontem, rodeada de apoiadores, que se preparavam para sair em carreata junto à candidata. Com uma camiseta verde e amarela e um boné azul, ambos com o número 11, ela cumprimentou o público, tirou fotos e deu uma palavra com a imprensa. Calçava, como de praxe, a botina marrom.
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O calçado, aliás, "trabalhou bastante" durante toda a campanha, conforme ela mesma reforçou. Além das carreatas, Celina participou de caminhadas, corridas de rua, sabatinas e debates. "Foi muita rua, muito abraço e muita conversa. Mas a gestão pública continuou sendo minha prioridade todos os dias. Para dar conta de tudo, dormi muito pouco", disse em entrevista ao Correio.
Em meio a essa correria, as trocas de looks foram, segundo a candidata, a menor das preocupações. "Era colocar a botina e seguir a agenda. Às vezes, para um evento à noite, eu trocava de roupa ou colocava a camiseta com o número da campanha. Tudo muito prático", comentou. A urgência dos compromissos estendeu a praticidade à alimentação. Na pressa, café e energético foram aliados indispensáveis. "Até a Michelle (Bolsonaro) pegou no meu pé, dizendo que tanto energético ia me fazer mal".
A governadora, conhecida pela prática assídua de esportes, tentou encaixar as atividades nas 24 horas do dia, "principalmente uma corrida ou um exercício mais dinâmico". Para ela, movimentar-se, para além da maratona do trabalho, faz diferença também para a cabeça. "É um momento de respirar e organizar os pensamentos", destacou.
Alianças
A força das alianças políticas foi uma das marcas registradas de Celina, especialmente na consolidação de uma frente conservadora e feminina. Ao lado de figuras de peso, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), a deputada Bia Kicis (PL) e a senadora Damares Alves (Republicanos), a governadora estruturou uma rede de apoio mútuo voltada a garantir governabilidade e atrair recursos federais para a capital.
"Andamos lado a lado", costuma ressaltar Celina, que aposta na sinergia com o trio de senadoras para destravar verbas e avançar em pautas sociais, como a proteção às mulheres e o atendimento a pessoas com deficiência.
Essa articulação política se refletiu diretamente na reta final da campanha de rua, demonstrando a densidade do seu arco partidário na véspera da votação. No Taguaparque, a candidata reuniu lideranças como o deputado Daniel de Castro (PP), o distrital Joaquim Roriz Neto (PL) e o ex-secretário de governo José Humberto. "A cidade inteira está em festa hoje. A campanha faz parte dessa festa da democracia", comemorou a senadora Damares Alves na concentração do evento.
Mais tarde, em frente à Torre de TV, a candidata se uniu a milhares de apoiadores dela e do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), para o último ato de campanha antes do segundo turno das eleições. Batizada de "Bloco 11 22", a mobilização começou com a oração do Pai-Nosso conduzida por Michelle Bolsonaro, que pediu aos participantes que não cedessem a provocações de adversários políticos.
Companheirismo
Equilibrar a campanha com a convivência familiar foi, para Celina Leão, uma das principais dificuldades. Sobrava saudade e preocupação. Isso porque, há menos de um mês para o primeiro turno, a candidata afastou-se dos compromissos para cuidar da mãe, Maria Célia, que passara mal na madrugada com fortes dores no peito.
"Hoje, minha prioridade foi estar aqui. Minha mãe está internada e, neste momento, precisa de mim ao lado dela. Por isso, suspendi minhas agendas para acompanhá-la e cuidar de quem sempre cuidou de mim", escreveu, na ocasião. Na última terça-feira, dona Maria Célia voltou a ser internada. Até a última informação, ela passava bem.
Além da preocupação com a saúde da mãe, a rotina exigiu criatividade para estar por perto do marido, o empresário Fabrício Faleiro Ferreira, e dos filhos, Bruna e Pedro. "O Fabrício foi um 'parceiraço'. Minha filha, por vezes, dormia conosco no nosso quarto. Foi uma forma que encontramos de ficar próximas, porque, durante o dia, eu não conseguia estar tão presente quanto gostaria. Às vezes, o momento de conversar e dar aquele abraço era só na hora de deitar. O apoio da família foi fundamental", revelou a candidata.
O companheirismo familiar se estendeu também aos palanques. Nos momentos em que Celina precisou se ausentar para acompanhar a mãe no hospital, Fabrício assumiu a missão de representá-la em agendas oficiais — como ocorreu no Setor de Chácaras Lúcio Costa, em setembro —, transmitindo aos moradores as propostas da esposa e o compromisso da gestão com a segurança pública local.
A união com os filhos também virou pauta de campanha: em evento promovido por Bruna Leão no restaurante Oscarito, em outubro, a governadora aproveitou a ocasião ao lado da filha para firmar o compromisso de democratizar o acesso às atividades físicas e ao esporte em todo o DF e Entorno.
Malabarismos
Conciliar a cadeira de governadora com a maratona eleitoral foi outro desafio logístico que exigiu disciplina cirúrgica. Afinal, a campanha precisava se ajustar à agenda de governo. "Durante o expediente, minha prioridade era cuidar da cidade e das responsabilidades da gestão. Então os compromissos eleitorais se estendiam pela noite e ocupavam os horários disponíveis". Foi puxado, mas a população, segundo reforçou, precisava continuar sendo atendida.
O resultado foram noites de sono contadas nos dedos. "Muito poucas! Não consigo cravar uma média, mas foram noites curtas. Tenho o hábito de dormir pouco e gosto de acordar cedo. Na campanha, com a responsabilidade de governar também, o descanso acabou ficando ainda mais apertado", contou.
Nos deslocamentos entre uma cidade e outra, nada de playlists elaboradas para relaxar. O carro virava uma extensão do gabinete, onde resolvia as pendências pelo telefone. "Quando sobrava um intervalo, eu gostava de ouvir rádio e acompanhar as notícias da cidade. Era uma forma de continuar sabendo o que estava acontecendo na vida das pessoas."
Agora, com a botina gasta e a sensação de ter entregado tudo nas ruas, Celina aguarda a palavra final das urnas.
Saiba Mais
Letícia Mouhamad
RepórterJornalista graduanda pelo IESB e formada em Letras pela UnB. Teve experiência na Revista do Correio e, desde 2023, atua na editoria de Cidades. Tem interesse por temas ligados à saúde mental e à mobilidade urbana. Venceu os prêmios Sebrae e ABP.
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