A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e a deputada federal Bia Kicis (PL) foram eleitas senadoras pelo Distrito Federal, com recorde de votos. Elas ultrapassaram os 833 mil votos de Cristovam Buarque em 2010 e se tornaram as candidatas ao Senado mais bem votadas desde a redemocratização. Michelle teve 932.875, com 99,51% das urnas apuradas; e Bia Kicis teve 881.413 votos. A dobradinha do Partido Liberal garantiu as duas cadeiras em disputa para a Casa Alta.
A terceira vaga do Distrito Federal no Senado é da senadora Damares Alves (Republicanos), eleita em 2022. O mandato dela vai até janeiro de 2031. Com isso, o DF terá três mulheres como senadoras, a partir do ano que vem.
Michelle Bolsonaro liderou a apuração durante todo o tempo. A ex-primeira-dama acompanhou as apurações dos votos em casa ao lado do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Na porta do condomínio Solar de Brasília, no Jardim Botânico, o clima foi de tranquilidade e pouca movimentação.
À frente do residencial, três viaturas da Polícia Militar fazem rondas e a vigilância da área. Um policial informou que está proibida a aglomeração de equipes da imprensa e de apoiadores. A distância mínima permitida é de 100 metros do condomínio.
Até o fechamento desta edição, não havia confirmação se Michelle concederia entrevista à imprensa. Ela também não tinha divulgado nota. A ex-primeira-dama ocupará, pela primeira vez, um cargo eletivo. Entre votos brancos, nulos e abstenções, o TSE registrou 831 mil votos no DF.
O dia de votação
Na hora de votar, por volta de 12h, no colégio Mackenzie, no Lago Sul, Michelle afirmou que esperava uma vitória nas urnas e pediu aos eleitores brasilienses um "voto útil" para eleger, segundo ela, homens e mulheres que "vão cuidar verdadeiramente do nosso povo". Michelle destacou a importância de ela, Bia Kicis e Celina Leão estarem juntas. "Somos mulheres de direita, mulheres fortes, mulheres que têm princípios e valores, mulheres que cuidam e que vão estar ali trabalhando em prol do nosso povo do DF", ressaltou.
Michelle também comentou a camiseta com a frase "Bolsonara da Ceilândia", usada durante a agenda. Ela afirmou ter orgulho das origens e destacou a trajetória de trabalho da população da região. "Muito orgulho ser a Bolsonaro de Ceilândia. Não tenho vergonha das minhas origens. Aqui é só alegria de ser daquela cidade de gente trabalhadora de pessoas que lutam, que são aguerridas e que trabalham por momentos melhores", disse.
A nova senadora falou sobre as dificuldades enfrentadas pela população e afirmou que pretende trabalhar pela região caso seja eleita. "Vamos trabalhar e trazer dignidade, amor e cuidado para todo o nosso povo de Ceilândia e de todas as regiões administrativas", acrescentou.
Ao acompanhar a votação da candidata ao senado Bia Kicis (PL), houve um bate-boca entre a ex-primeira-dama e uma eleitora da oposição, no Colégio INDI, no Lago Norte. A discussão ocorreu quando Bia estava na sala de votação. A governadora e candidata à reeleição Celina Leão (PP) também estava no local. Enquanto Bia Kicis entrava na sessão eleitoral, a eleitora passou a confrontar as candidatas. Durante o bate-boca, a mulher proferiu palavras como "ladra" e "corrupta". Ao final, dirigiu-se a Michelle e afirmou: "O inferno te espera".
Sobre o incidente, Michelle divulgou uma nota à imprensa e usou trechos da Bíblia. "A Bíblia nos ensina que devemos Amar os nossos inimigos, bendizer os que nos maldizem, fazer o bem aos que nos odeiam, e orar pelos que nos maltratam e nos perseguem. Diante daquelas agressões verbais ocorridas, hoje, no local de votação da Bia Kicis, a minha resposta só podia ser essa: "Eu te amo em Cristo!" E fazer um gesto de coração pra ela. Hoje é dia da festa da democracia, e precisamos exercitar o amor, o respeito e a tolerância com quem diverge da nossa opinião política", informou a nota.
'Pacificar o Brasil'
Eleita senadora pelo Distrito Federal com mais de 881 mil votos, Bia Kicis afirmou ter como propósito "pacificar o Brasil". Para tanto, defende que não "tem como trazer paz se não houver distribuição de justiça".
Bia avaliou que o país vive um momento grave que exige atuação do Senado. "Sabemos que o Senado é a única instituição do Brasil que pode fazer frente ao que está acontecendo aos desmandos, aos abusos, para colocar ordem na casa" disse.
Para ela, quando não há distribuição de justiça, cria-se "caos, insegurança jurídica, todo tipo de insegurança e indignação por parte da população".
Ela falou ainda que um dos principais pontos pelos quais tem que trabalhar é o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e a anistia dos presos políticos. A senadora comentou que tem formação como mediadora e pretende dialogar. "Quem quiser vir dialogar para construir algo, nós estamos abertos", destacou Bia, que celebrou a vitória com apoiadores em festa no Lago Sul.
Ela também comentou a proximidade com Michelle: "Ela tem um olhar muito voltado para o vulnerável e me inspira. Aprendi muito com ela, e isso fez também com que o meu olhar ficasse mais apurado com relação às mães atípicas, os raros. Por outro lado, eu trago para ela muito esse meu senso também de justiça, minha garra de lutar, de combater todo tipo de tirania."
Na hora de votar, ontem, Bia afirmou que o principal objetivo, se fosse realmente eleita, seria trabalhar pela pacificação do país. A declaração foi dada no Colégio Mackenzie, no Lago Sul, onde Michelle Bolsonaro, senadora eleita pelo PL, votou. A candidata à reeleição ao GDF Celina Leão (PP) acompanhou as aliadas.
Segundo Bia, para alcançar o objetivo de pacificar o Brasil, seria necessário distribuir novamente a justiça para o país. "Para isso o Supremo Tribunal Federal precisa atuar dentro do desenho constitucional e não atropelando os outros poderes, perseguindo pessoas e fazendo atividade política partidária", declarou.
Ela disse, ainda, que estava confiante no resultado, que acabou se confirmando nas urnas. "Estou com muita fé em Deus. Essa campanha casada, a Bia, Michelle, Michelle, Bia, foi linda. A gente vê a população toda, as crianças cantando o nosso jingle. Foi uma campanha vencedora."
Palavre de especialista
A apuração para a vaga ao Senado no DF acabou confirmando as pesquisas, que apontavam Michelle Bolsonaro (PL) na liderança da corrida. Ela (29%) e Bia Kicis (27,4%) ocuparão as duas vagas. Era uma disputa apertada pela segunda cadeira, e o resultado desfez esse cenário, com seis pontos de diferença entre a segunda e a terceira colocadas. O cenário do Senado sempre é o de maior incerteza, pois é a casa legislativa cujas cadeiras o eleitorado sempre fica indeciso durante a campanha e deixa para escolher os nomes muito próximo da votação.
O resultado indica um voto casado entre as majoritárias e as proporcionais no campo da direita: o PL elegeu as duas vagas do Senado, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, e ainda conquistou a maior bancada da Câmara Legislativa. Somados PL, União Progressista, Republicanos, PSD e Podemos, os partidos de direita e centro-direita ocupam 14 das 24 cadeiras da CLDF, contra sete da esquerda (Federação Brasil da Esperança, PSB e Federação PSOL Rede). A bancada federal do DF em Brasília, por sua vez, já sai das urnas com as duas senadoras do mesmo partido, o que reforça o peso do PL na representação do Distrito Federal.
Eu diria que a configuração dessa bancada é muito mais um reforço do bolsonarismo do que uma falta da representatividade feminina da esquerda. O eleitor médio do DF é ressentido com a esquerda, e isso respingou até na Leila, que era a candidata menos rejeitada (e que teria, supostamente, mais condições de reunir votos à direita e à esquerda). A bancada que temos hoje faz parte de um movimento muito maior, pelo PL, de conquistar muitas cadeiras no Senado (e deu certo). Como consequência, é muito provável vermos uma sequência de impeachments de ministros do STF e coisas parecidas.
Evelyn Apolinaria, cientista política e coordenadora-geral do Observatório do Congresso
*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates
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