Saúde Capilar

A vitória sobre a falta de cabelos pode vir de canetas extratoras

Para realizar implantes de cabelo mais precisos e naturais, cirurgiões usam dispositivos que coletam os fios individualmente. Segundo estudo, a ferramenta revolucionou o procedimento

Canetas permitem a retirada individual dos fios da área doadora para serem implantados, depois, na região que receberá o cabelo -  (crédito:  Bongkochrut - stock.adobe.com)
Canetas permitem a retirada individual dos fios da área doadora para serem implantados, depois, na região que receberá o cabelo - (crédito: Bongkochrut - stock.adobe.com)

Se até os anos 2000, para realizar transplantes capilares era preciso retirar grandes áreas do couro cabeludo, as últimas duas décadas trouxeram inovações que redefiniram os padrões de precisão e segurança. Em um estudo de revisão publicado no Journal of Cutaneous and Aesthetic Surgery, pesquisadores indianos sustentam que o setor vive, agora, uma nova era, impulsionada por abordagens menos invasivas, com destaque para ferramentas de extração dos fios em formato de caneta.

Fadiga crônica pode ser revelada antecipadamente por marcas do organismo

Molécula de lhama pode ajudar no tratamento de esquizofrenia

Esses dispositivos permitem a retirada individual dos fios da área doadora para serem implantados, depois, na região que receberá o cabelo. Assim, há melhora na qualidade dos enxertos e recuperação mais rápida, ressaltam os autores, do Deparamento de Dermatologia do DermaClinix, um centro de pesquisa clínica em Nova Déli. 

"Essas canetas são aparelhos modernos que podem ajustar o tipo de movimento, como rotação, oscilação e vibração, conforme a necessidade da pele, se ela é mais oleosa ou seca, a textura e a espessura do fio para removê-lo", explica Julio Pierezan médico tricologista, especializado em cirurgia de transplante capilar e pós-graduado em dermatologia. De acordo com o especialista, que é membro da Sociedade Brasileira do Cabelo (SBC), da International Society of Hair Restoration Surgery (ISHRS) e da World FUE Institute, o folículo extraído fica muito mais preservado para ser implantado na área receptora.

Segundo Pierezan, as canetas extratoras, citadas no estudo, contribuem para o bom resultado do transplante, pois o risco de se danificar os folículos é reduzido. "Sem contar que esses dispositivos agilizam a retirada dos fios, a área doadora também sofre menos, inclusive com o sangramento, que acaba sendo menor. As cicatrizes ficam praticamente imperceptíveis", diz. 

No artigo indiano, os autores descrevem o uso das canetas para a realização do transplante pela técnica Follicular Unit Extraction (FUE). O procedimento é recomendado para quem sofre com a alopecia androgenética (calvície), um problema que leva o paciente à perda local ou difusa dos fios ao longo dos anos. Também pode ser realizado nos casos de alopecias autoimunes, como a areata, que surge de forma repentina, produzindo falhas, como buracos, no couro cabeludo. Outras indicações são correção de cicatrizes e implante em regiões onde o tratamento clínico não surtiu efeito. 

Uma das inovações da técnica FUE é o chamado Fue Long Hair, que dispensa a raspagem do cabelo. "Assim como na técnica tradicional, o transplante Fue Long Hair consiste na transferência de unidades foliculares, onde está localizada a raiz dos cabelos, de uma região saudável, chamada de área doadora, para locais afetados pela doença capilar. Mas o grande diferencial é que, agora, essas unidades foliculares podem ser coletadas sem a necessidade de raspar o cabelo, preservando o comprimento e a aparência natural dos fios da área doadora", explica o Danilo S. Talarico, médico professor de Cirurgia Capilar, Dermatologia e Tricologia.

Inteligência artificial

Segundo os autores do artigo de revisão publicado no Journal of Cutaneous and Aesthetic Surgery , ainda há muito o que avançar nos transplantes capilares. Para o dermatologista Amrendra Kumar, autor correspondente do estudo e cirurgião do Instituto de Ciências Médicas da Índia, o futuro do procedimento está na integração de robótica e inteligência artificial aos sistemas de FUE. 

"O uso de algoritmos capazes de identificar a melhor unidade folicular e de realizar cortes ultrafinos, ajustados em tempo real, promete reduzir ainda mais os riscos de erro humano e acelerar os procedimentos", argumenta Kumar. "A próxima fronteira é a cirurgia guiada por sensores táteis e inteligência artificial."

O pesquisador esclarece que alguns sistemas robóticos já estão em operação, como o Artas, que utiliza câmeras de alta definição e análise automatizada para selecionar e extrair folículos com precisão quase microscópica. A tendência é que, nos próximos anos, esses equipamentos se tornem mais acessíveis e adotados mais amplamente pelos cirurgiões, acredita Kumar. 

O médico Julio Pierezan reforça, porém, que os avanços tecnológicos não significam que os transplantes são isentos de riscos. "Apesar de ser considerado um procedimento seguro e de baixo risco, a técnica FUE envolve anestesia local, tempo prolongado de intervenção e, em alguns casos, medicações específicas no pós-operatório", diz. 

O tricologista lembra que, antes de se submeter à técnica, é preciso passar por diversas avaliações. "A área receptora deve estar livre de quaisquer condições, como foliculite, psoríase ou câncer de pele. E é extremamente importante que o paciente faça exames laboratoriais e cardiológicos."

 Cuidado contínuo

Mais do que apenas remover e implantar fios, o sucesso do resultado depende também da preservação da viabilidade do folículo, do controle da angulação, da naturalidade. Então, quando a gente associa tecnologia na extração, permitindo ter um controle melhor dessa extração e implantação com o uso dessas canetas implantadoras, temos um resultado e recuperação muito melhores. É importante lembrar que o transplante é uma das etapas do tratamento da calvície. O acompanhamento no pós-operatório é tão importante quanto a cirurgia. A gente sabe que a calvície não é uma doença que tem cura, mas uma condição genética que tem controle. O único jeito de controlar é com medicação. No transplante de cabelo, colocamos cabelo onde se perdeu. Mas, se não seguir controlando a calvície, os fios nativos continuam a afinar.

Julio Pierezan, médico tricologista especializado em cirurgia de transplante capilar

  • Google Discover Icon
postado em 26/07/2025 06:00
x