
O Sol gira em torno do próprio eixo a cada 28 dias. Visto da Terra, isso significa que uma mesma região ativa pode ser observada por cerca de duas semanas antes de desaparecer no lado oculto do astro. Por décadas, essa limitação impediu o acompanhamento contínuo das áreas mais instáveis do Sol, justamente as que provocam tempestades solares capazes de atingir a Terra.
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Essa barreira foi superada com a combinação de dados de duas missões espaciais. A sonda Solar Orbiter, da Agência Espacial Europeia, lançada em 2020, orbita o Sol a cada seis meses e observa inclusive seu lado oculto. Já o Solar Dynamics Observatory, da Agência Espacial Norte-Americana, a Nasa, permanece alinhado entre a Terra e o Sol, monitorando continuamente a face visível.
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A união desses dois pontos de vista permitiu acompanhar quase sem interrupções a região ativa conhecida como NOAA 13664 por 94 dias, a série de observações mais longa já feita de uma única região solar.
A NOAA 13664 surgiu em 16 de abril de 2024, inicialmente fora do campo de visão terrestre. Ao longo de quase três meses, os pesquisadores observaram sua formação, crescimento e posterior enfraquecimento, após 18 de julho. Os resultados desta investigação foram publicados na última edição da revista Astronomy & Astrophysics.
Durante esse período, a região completou três rotações solares. A cada volta, seu campo magnético,— uma espécie de “teia invisível” que armazena energia, tornava-se mais complexo. Esse acúmulo progressivo foi decisivo para a liberação de grandes explosões solares.
A origem das maiores tempestades em 20 anos
Em maio de 2024, quando a NOAA 13664 voltou a ficar voltada para a Terra, ela desencadeou as tempestades geomagnéticas mais intensas desde 2003. O fenômeno provocou auroras boreais visíveis em latitudes incomuns, incluindo a Suíça.
No total, foram registradas 969 explosões solares ao longo do período observado, entre elas 38 flares da classe X, as mais energéticas. A maior ocorreu em 20 de maio de 2024, ainda no lado oculto do Sol, sendo detectada por instrumentos do Solar Orbiter.
As tempestades solares não produzem apenas auroras. Elas podem causar apagões, interferir em sistemas de comunicação, aumentar a exposição à radiação em voos de alta altitude e danificar satélites. Em 2022, um evento desse tipo levou à perda de 38 satélites Starlink poucos dias após o lançamento.
Em maio de 2024, os efeitos também atingiram a agricultura digital. Interrupções em sinais de satélite, drones e sensores prejudicaram o trabalho no campo, resultando em perdas econômicas.
Previsão do clima espacial
O estudo mostrou que regiões com campos magnéticos extremamente complexos tendem a armazenar grandes quantidades de energia, que acabam sendo liberadas em forma de tempestades solares. Ainda assim, os cientistas não conseguem prever com precisão quando ocorrerá uma erupção nem qual será sua intensidade.
As observações da NOAA 13664 são um passo importante para melhorar as previsões do chamado “clima espacial”, área que busca antecipar esses eventos e reduzir seus impactos sobre tecnologias sensíveis. Nesse esforço, a Agência Espacial Europeia desenvolve a missão Vigil, com lançamento previsto para 2031, dedicada exclusivamente ao monitoramento do ambiente espacial.

Ciência e Saúde
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