Venezuela em transe

Após prisão de Maduro, Venezuela entra em nova fase política

Vice-presidente de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez foi confirmada como líder interina do país. Nicolasito, filho do líder capturado em ataque militar dos EUA, prometeu "apoio incondicional" à nova presidente, e chavismo segue firme

Delcy Rodríguez faz o juramento em frente ao irmão, Jorge Rodríguez, e a Nicolasito, filho de Nicolás Maduro -  (crédito: AFP)
Delcy Rodríguez faz o juramento em frente ao irmão, Jorge Rodríguez, e a Nicolasito, filho de Nicolás Maduro - (crédito: AFP)

Filho de Nicolás Maduro e deputado, Nicolás Maduro Guerra, o Nicolasito, declarou ontem seu "apoio incondicional" à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que tomou posse do cargo formalmente. Delcy foi confirmada como substituta de Maduro um dia após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçá-la dizendo que "pagará preço muito alto" se não cooperar com os norte-americanos. No primeiro discurso após a prisão de seu pai, Nicolasito condenou a ação ordenada por Trump e afirmou que sua família é perseguida por ele.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Na sessão de posse do novo Parlamento, que reelegeu Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, como chefe do Poder Legislativo, Nicolasito afirmou que "mais cedo ou mais tarde" seu pai e a primeira-dama e também política, Cilia Flores, voltarão à Venezuela. Durante a cerimônia, Jorge Rodriguez afirmou que sua principal função nos dias que virão será recorrer "a todos os procedimentos, a todas as tribunas e a todos os espaços para conseguir trazer de volta Nicolás Maduro Moros, meu irmão, meu presidente".

Leandro Gabiati, cientista político de diretor da Dominium Consultoria, destacou que, apesar da ausência de Maduro, o ponto principal do momento venezuelano pós-ataque dos EUA é a continuidade do chavismo. O especialista também aponta para a manutenção das instituições do regime. "Cito dois fatos para ilustrar. O primeiro é o juramento da presidente. O segundo, muito importante, é a posse dos parlamentares escolhidos nas votações de maio de 2025, eleição muito questionada por acusações de fraude."

Delcy Rodríguez, que foi vice-presidente de Maduro, é a primeira mulher a assumir o cargo político máximo na Venezuela. "Venho com dor pelo sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos", disse. "Venho também com honra jurar em nome de todos os venezuelanos." A Suprema Corte planeja que ela fique no comando por 90 dias, com possibilidade de prorrogação.

"A pátria está em boas mãos, pai, e em breve nos abraçaremos aqui na Venezuela", exclamou Nicolasito horas antes do juramento de Delcy. "A ti, Delcy Eloína, meu apoio incondicional para a tarefa difícil que tem pela frente. Conte comigo", completou o deputado — que, como o pai e a madrasta, é acusado dos mesmos crimes no processo conduzidos nos Estados Unidos. A nova Assembleia Nacional conta com maioria absoluta do chavismo: 256 dos 285 deputados. A sessão começou com gritos de "Vamos, Nico!", um lema repetido na campanha eleitoral de 2024, cuja reeleição não foi reconhecida pela oposição e por muitos países, como os EUA e o Brasil.

De acordo com o especialista em gestão pública Eduardo Cursino, no cenário atual, a presença de Nicolás Maduro Guerra, também acusado, assume um caráter simbólico relevante. "Embora não seja hoje o principal articulador do poder, sua permanência na estrutura do Estado indica que o chavismo trabalha com a lógica da continuidade política como reserva estratégica. Trata-se menos de protagonismo imediato e mais de preservação de um capital político que pode ser acionado no médio prazo, especialmente em um cenário de incerteza prolongada."

Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, compartilha a visão de Cursino. Para o docente, Nicolasito tenta assumir o papel de herdeiro político, mobilizando a base chavista e tratando a prisão do pai como um ataque à soberania do país. "Enquanto isso, internamente, o chavismo busca se proteger mantendo o controle das instituições. A recondução de Jorge Rodríguez à presidência da Assembleia reforça esse núcleo de poder e garante sustentação política ao governo. No plano externo, Delcy adota um tom mais pragmático e sinaliza diálogo com Donald Trump, numa tentativa de evitar mais tensão e ganhar fôlego econômico."

Petroleiros 

Segundo diferentes empresas marítimas, pelo menos 16 navios petroleiros sancionados deixaram as águas venezuelanas após a captura do presidente Nicolás Maduro pelas forças americanas. Treze desses veículos aquáticos estão carregados com cerca de 12 milhões de barris de petróleo bruto e combustível, tendo como principal destino a China, conforme informado pelo site de rastreamento TankerTrackers.


Processo longo

Os Rodriguez — Delcy e Jorge — são uma potência política. Ela tem muita experiência e pulso, o irmão dela, igualmente. São figuras fortes, de peso, e conseguiram, aparentemente, pelo menos por ora, se desvencilhar do Maduro. Delcy já se manifestou falando sobre colaboração com o governo americano. Isso é uma espécie de laboratório para ver a evolução, porque o processo continua acontecendo; a gente não sabe a que ponto vai chegar. Tem especialistas dizendo que a saída do Maduro e da esposa dele não trouxe por completo o resultado que os Estados Unidos pensavam e esperavam. Além disso, o Trump agora voltou a falar da anexação da Groenlândia, de Colômbia, México e Cuba, e atacou a Nigéria recentemente. Nesse cenário, a Delcy, sem a sombra do Maduro, pode ter condições de fazer uma gestão interessante e atender, inclusive, aos interesses do Trump — ligados a petróleo e afins. Mas está tudo muito fluido ainda, o processo não foi concluído, vamos esperar os acontecimentos. Em relação ao Nicolasito, se tem a noção de que vai ser um processo jurídico e legal longo, pode demorar até um ano para ser concluído, não é imediato.

André César, cientista político, sócio da Hold Assessoria Legislativa

A visão popular

A invasão americana à Venezuela gerou comoção na população local e em países vizinhos e distantes. Ontem, milhares de pessoas marcharam pelas ruas de Caracas para exigir a libertação de Nicolás Maduro. Os manifestantes se concentraram nas imediações da sede do Parlamento venezuelano, onde Delcy Rodríguez prestou juramento como presidente interina.

Em Havana, capital de Cuba, milhares de pessoas se reuniram para condenar o ataque dois Estados Unidos. Durante a investida norte-americana na Venezuela, 32 cubanos que faziam parte da segurança de Maduro morreram. "Como resultado do ataque criminoso perpetrado pelo governo dos Estados Unidos contra a irmã República Bolivariana da Venezuela (...) perderam a vida em ações de combate 32 cubanos", informou o governo em um comunicado lido na televisão nacional.

Para Hindu Anderi, jornalista, coordenadora da Plataforma Internacional de Solidariedade com a Causa Palestina e moradora de Caracas, o clima é de insegurança. " (A situação) pode se agravar, mas o povo da Venezuela está nas ruas, disposto a defender sua soberania. A liderança do governo, assim como o seu povo, vai defender cada palmo desta terra. Nem o governo dos Estados Unidos, nem Trump terão vida fácil. A Venezuela tem sido o seu calcanhar de Aquiles. Não conseguiram derrubar o governo e, por isso, tiveram que assassinar quase uma centena de pessoas, militares e civis", afirmou.

Segundo ela, a população não deve deixar de marchar a favor do presidente capturado. "Não vamos sair das ruas até que nosso presidente Nicolás Maduro e sua companheira, esposa, camarada, Cilia Flores, retornem à nossa pátria. Maduro e Flores não foram capturados. Foram sequestrados. Hoje estamos mais comprometidos do que nunca com a liberdade da nossa pátria."

Em Buenos Aires, capital argentina, manifestantes marcharam ontem contra a captura de Maduro. Na Colômbia, a população tomou as ruas de Bogotá, no sábado. Os protestos não ficaram restritos à América. Na Espanha, manifestações foram realizadas no domingo em frente à Embaixada dos Estados Unidos, em Madri. O país é refúgio para muitos venezuelanos, incluindo o líder exilado da oposição Edmundo González. No mesmo dia, na Índia, a população se reuniu em Nova Deli para protestar contra a ação norte-americana. Também houve uma série de manifestações, especialmente de imigrantes venezuelanos antichavistas, a favor do ataque norte-americano e da captura de Maduro. (Isabella Almeida)

  •  Apoiadores de Maduro tomaram as ruas próximas ao Parlamento
    Apoiadores de Maduro tomaram as ruas próximas ao Parlamento Foto: AFP
  • Jorge Rodríguez e Nicolasito com foto de Maduro e Cilia
    Jorge Rodríguez e Nicolasito com foto de Maduro e Cilia Foto: AFP
  • Google Discover Icon
postado em 06/01/2026 05:11 / atualizado em 06/01/2026 06:08
x