
A suspeita de 225 casos de pancreatite associados a canetas emagrecedoras acendeu um alerta sobre a popularização e uso indiscriminado dos medicamentos. Investigação a partir de dados relatados ao VigiMed, sistema da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostrou seis óbitos pela doença. O crescimento das ocorrências dobrou no último ano, saindo de 28 em 2024 para 45 em 2025.
A pancreatite aparece como um dos efeitos colaterais indicados na bula do medicamento, mas a incidência é considerada rara. No entanto, é importante salientar o uso das canetas sem acompanhamento médico e até a falsificação do medicamento, o que dificulta o controle desses efeitos adversos.
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Segundo a Anvisa, o nome comercial do medicamento não é indicado pelo notificador, o que impossibilita ainda saber se a caneta adquirida era da fabricante autorizada ou manipulada. A médica de família e especialista em emagrecimento Ingrid Ostermayer aponta que a falsificação é uma ameaça letal.
A profissional destaca que essas cópias podem conter substâncias não autorizadas ou até tóxicas, além de concentrações erradas. “O paciente que compra um produto sem procedência corre o risco de sofrer reações imprevisíveis, ineficácia total do tratamento e, em casos extremos, o óbito”, afirma.
Além da pancreatite, a formação de pedras na vesícula apresentou aumento, mas estudos apontam que a incidência não está relacionada ao remédio, mas sim ao próprio processo de emagrecimento. “Quando uma pessoa emagrece - principalmente de forma mais rápida - há aumento da taxa de formação de cálculos na vesícula. Isso já é conhecido na medicina há décadas e acontece independentemente do método utilizado para emagrecer”, explica.
Saúde pública
O uso indiscriminado e sem o devido acompanhamento médico tem se tornado um problema de saúde público e, segundo a médica, pode originar um efeito cascata. Isso porque, além de sobrecarregar o sistema de saúde com casos evitáveis, pode ocasionar a escassez dos produtos para quem utiliza para fins de saúde, como pacientes de diabetes e obesidade.
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“Isso gera um efeito em cadeia: um recurso terapêutico importante, fruto de anos de pesquisa científica, passa a ser utilizado de forma desorganizada, com mais riscos do que benefícios em parte da população”, comenta. “Quando bem indicadas, são ferramentas valiosas, quando banalizadas, podem contribuir para desinformação, desperdício de recursos e aumento de problemas de saúde evitáveis”.
Além da subnotificação dos efeitos, é comum que o paciente que não tenha acompanhamento médico utilize doses altas demais e continue o medicamento mesmo em casos de riscos. “Um ponto importante e pouco lembrado é o impacto na contracepção, há aumento do risco de falha da pílula anticoncepcional e, consequentemente, de gestação não planejada”, ressalta a médica. A perda de massa muscular também é um fator de risco.
O levantamento da Anvisa mostrou suspeitas relacionadas a quatro princípios ativos. A semaglutida, utilizada no Ozempic, liraglutida, no Saxenda, dulaglutida, comercializada como Trulicity, e a tirzepatida, princípio do Mounjaro. A Agência destaca ainda que os casos correspondem a relatos ainda não comprovados.

Ciência e Saúde
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