
Os primeiros testes em larga escala da pílula anticoncepcional, nos anos 1950, foram realizados em mulheres porto-riquenhas — muitas delas pobres e com acesso limitado à informação médica adequada — em um território que, desde 1898, está sob domínio dos Estados Unidos. Décadas depois, o debate sobre autonomia corporal, colonialismo e direitos reprodutivos segue presente na ilha e na América Latina. O assunto reaparece na cultura pop contemporânea, de forma sutil, nas falas e performances de artistas como Bad Bunny, que têm projetado internacionalmente discussões sobre identidade porto-riquenha e desigualdades estruturais.
A conexão entre ciência, política populacional e cultura pode parecer improvável à primeira vista. Mas, como explica a consultora do Ministério da Saúde, internacionalista e especialista em gênero e direitos humanos Larissa Agostini, a história da pílula anticoncepcional em Porto Rico está diretamente ligada à condição colonial da ilha e às políticas de controle demográfico aplicadas ao longo do século 20.
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“Porto Rico viveu um processo de esterilização em massa entre as décadas de 1930 e 1960. Aproximadamente um terço das mulheres em idade reprodutiva foi esterilizado”, afirma Agostini. Estudos acadêmicos, como os da historiadora Iris López e da pesquisadora Laura Briggs, apontam que muitas dessas mulheres não receberam informações completas sobre a irreversibilidade do procedimento, realizado em clínicas públicas incentivadas por políticas de controle populacional.
Contexto colonial e laboratório social
Após a Guerra Hispano-Americana, em 1898, Porto Rico passou ao controle dos Estados Unidos. Ao longo do século 20, especialmente durante o processo de industrialização conhecido como “Operation Bootstrap”, autoridades locais e federais associaram a pobreza e o desemprego ao crescimento populacional da ilha.
Nesse cenário, políticas de controle de natalidade ganharam força. Clínicas de esterilização foram abertas, e a prática, conhecida localmente como “la operación”, tornou-se comum. A taxa de esterilização feminina em Porto Rico chegou a ser uma das mais altas do mundo.
Foi nesse contexto que pesquisadores norte-americanos escolheram a ilha para os primeiros testes clínicos em larga escala da pílula anticoncepcional. Desenvolvida por cientistas como Gregory Pincus e financiada por ativistas como Margaret Sanger e Katharine McCormick, a pílula precisava passar por testes em humanos antes da aprovação.
“As mulheres norte-americanas não foram as primeiras a testar a pílula. As escolhidas foram mulheres porto-riquenhas, muitas delas estudantes de enfermagem e medicina da Universidade de Porto Rico”, explica Agostini. Segundo documentos históricos, havia registros formais de consentimento, mas relatos posteriores indicam que as participantes não foram plenamente informadas sobre os riscos e efeitos colaterais.
As primeiras versões da pílula, como a Enovid, aprovada pela Food and Drug Administration dos EUA em 1960, continham doses hormonais significativamente mais altas do que as atuais. Durante os testes, diversas mulheres relataram efeitos adversos intensos, como náuseas, dores de cabeça e alterações de humor.
“As reclamações dessas mulheres não foram levadas a sério. E, ironicamente, depois que a pílula foi aprovada e passou a ser comercializada, muitas delas não tiveram acesso ao medicamento, por serem pobres”, afirma Agostini.
Direitos reprodutivos e América Latina
A história de Porto Rico não é isolada. Ao longo do século 20, políticas reprodutivas na América Latina oscilaram entre o incentivo à natalidade, em projetos nacionalistas, e estratégias de controle populacional voltadas, sobretudo, a mulheres pobres, negras e indígenas.
No Brasil, por exemplo, a chegada da pílula anticoncepcional também esteve associada a discursos demográficos. O ginecologista Elsimar Coutinho, um dos principais divulgadores do método no país, defendia a supressão da menstruação como avanço científico — posição que gerou debates éticos e médicos.
“O problema não é a pílula em si, que representou um marco na autonomia das mulheres. O problema é o contexto em que ela foi desenvolvida e aplicada, muitas vezes sem consentimento informado adequado”, diz Larissa Agostini. Para ela, políticas anti-imigração e discursos sobre “ameaça demográfica” ainda ecoam lógicas eugenistas do passado, ao definir quem deve ou não se reproduzir.
Ainda hoje, Porto Rico enfrenta desafios estruturais que afetam diretamente a saúde reprodutiva. O sistema de saúde da ilha depende majoritariamente do Medicaid, programa federal dos EUA que, no território, opera com financiamento limitado e sem a estrutura de um sistema universal como o brasileiro.
Após os furacões Maria (2017) e Fiona (2022), a infraestrutura hospitalar foi severamente impactada, dificultando o acesso a pré-natal, contracepção e atendimento obstétrico. Organizações internacionais já registraram denúncias sobre barreiras no acesso ao aborto legal, permitido na ilha, mas com oferta restrita de clínicas e obstáculos práticos. “Crises climáticas aprofundam desigualdades. E quem perde primeiro o acesso a direitos básicos são as mulheres”, enfatiza Agostini.
Cultura pop e memória histórica
É nesse ponto que a cultura pop entra na equação. Bad Bunny, um dos artistas mais influentes da música latina na atualidade, tem utilizado premiações e shows internacionais para denunciar desigualdades e políticas migratórias dos Estados Unidos. Em apresentações recentes, o cantor exibiu mensagens contra o serviço de imigração norte-americano (ICE) e reforçou sua defesa da identidade porto-riquenha.
"Quando ele denuncia o colonialismo e as desigualdades, isso conversa diretamente com a história das mulheres porto-riquenhas que foram usadas como cobaia nos testes da pílula", destaca Larissa.
A cultura pop, ao projetar essas discussões para públicos globais, contribui para reabrir debates históricos. Ao associar identidade, território e direitos, artistas ajudam a conectar passado e presente, ampliando o alcance de temas que antes circulavam restritos à academia.
Se hoje a pílula é símbolo de autonomia para milhões de mulheres, sua origem em território porto-riquenho lembra que liberdade reprodutiva não é apenas uma questão individual, mas também política e histórica. E, ao ganhar eco em palcos internacionais, essa memória deixa de ser apenas um capítulo do passado para se tornar parte ativa das disputas contemporâneas sobre corpo, território e soberania.

Ciência e Saúde
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