ESTUDO

Escassez de presas ameaça onça na Mata Atlântica, diz estudo

Pesquisa aponta baixa oferta de alimento mesmo em áreas protegidas e alerta para risco de extinção do predador no bioma

A redução das populações de presas da onça-pintada tem ampliado o risco de extinção do felino na Mata Atlântica sul-americana, segundo estudo conduzido por pesquisadores brasileiros. A pesquisa identificou que, além da perda de habitat e da caça ilegal, a escassez de alimento afeta a sobrevivência da espécie mesmo dentro de áreas protegidas do bioma, que hoje abriga menos de 300 indivíduos.

O trabalho foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e publicado na revista Global Ecology and Conservation, com participação de pesquisadores vinculados ao Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), ao Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), à Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e ao Projeto Onças do Iguaçu – Instituto Pró-Carnívoros.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

A pesquisa combinou informações sobre a dieta da onça-pintada com dados obtidos em campo por meio de armadilhas fotográficas instaladas em nove áreas protegidas da Mata Atlântica. Foram estimadas a abundância e a biomassa de 14 espécies de presas, entre elas porcos-do-mato (Tayassu pecari), catetos (Dicotyles tajacu) e cervídeos, consideradas fundamentais para sustentar populações viáveis do maior felino das Américas.

Os resultados indicam que a dieta da onça é dominada por presas de grande porte, especialmente porcos-do-mato e cervídeos. No chamado Corredor Verde, a biomassa dessas espécies alcançou 638kg, enquanto nas áreas costeiras da Mata Atlântica, como a Serra do Mar, o índice foi de 8,2kg. Nessas regiões, as onças-pintadas estão ausentes ou ocorrem em densidades muito baixas.

“Constatamos uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave de presas da onça-pintada mesmo em áreas protegidas da Mata Atlântica, onde estão localizados parques nacionais e estaduais e se esperava que a situação em termos de conservação do animal fosse melhor”, afirmou Katia Ferraz, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e coordenadora do estudo. “Muito provavelmente, o declínio dessas presas é uma das principais causas para a situação crítica de conservação na qual a onça-pintada se encontra nesse bioma”, avaliou.

De acordo com a pesquisadora, a menor disponibilidade de presas está associada à maior facilidade de acesso humano às áreas protegidas. “Observamos que a baixa disponibilidade de presas está relacionada a um maior acesso das pessoas às áreas protegidas. Nas áreas passíveis de serem acessadas mais facilmente por uma série de fatores, como relevo e proximidade com vilas e centros urbanos, a disponibilidade de presas é menor”, disse.

“Isso sugere uma relação direta com a pressão de caça. Além da própria pressão sobre a onça-pintada, o predador, há uma pressão muito forte sobre as populações de presas, levando ao declínio do felino”, completou.

Os autores alertam que, se o cenário se agravar, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder um predador de topo de cadeia alimentar.

Entre as áreas analisadas, o Parque Nacional do Iguaçu foi apontado como um dos últimos locais do bioma onde predadores e presas ainda se mantêm em níveis relativamente altos. Segundo os pesquisadores, fatores como menor acessibilidade, conexão entre áreas protegidas e iniciativas continuadas de conservação contribuem para esse resultado.

No parque, a atuação do Projeto Onças do Iguaçu, estruturado nos eixos de pesquisa, coexistência e engajamento, é destacada como um dos fatores que favorecem a manutenção da espécie. “As onças-pintadas aqui na região quase foram extintas. Em 2009, tínhamos entre 9 e 11 animais e, nos últimos 15 anos, a população quase dobrou”, afirmou Yara Barros, coordenadora-executiva do projeto.

“A caça representa uma grande ameaça porque muitas vezes as pessoas entram na floresta para caçar presas do animal e acabam, incidentalmente, matando-o também”, disse.

O projeto também atua junto a comunidades do entorno, com orientações sobre manejo do gado e medidas de prevenção à predação. “Trabalhamos em colaboração com comunidades de 10 municípios. Uma técnica do projeto visita as propriedades rurais não apenas quando ocorre uma eventual predação”, explicou Barros. Para ela, a estratégia de coexistência tem sido central.

“Estamos criando uma rede trinacional com parceiros do Paraguai e da Argentina para compartilhar e replicar nossa experiência”, afirmou.

Segundo os pesquisadores, o cenário impõe desafios à gestão ambiental na Mata Atlântica. Enquanto algumas regiões ainda funcionam como refúgios capazes de manter o equilíbrio ecológico, outras demandam intensificação do controle da caça, recuperação da fauna e gestão do uso humano para evitar o desaparecimento definitivo da onça-pintada no bioma.

https://www.correiobraziliense.com.br/webstories/2025/04/7121170-canal-do-correio-braziliense-no-whatsapp.html 

Mais Lidas